O texto do Tomás Rosa Bueno via blog do Nassif traz um ponto de vista que procura sair do lugar comum que é o de que o Irã representa o mal e os EUA e seus aliados o sumo bem. Vai revelando os interesses que se sobrepõem a uma realidade muito além das aparências, onde o que menos se pode falar é em mocinhos. Certamente a busca por novas fontes de energia e o controle geoestratégico das jazidas e campos de matérias-primas são importantes para países que vêem a cada dia suas fontes se exaurirem, ou, pelo menos, para garantir que não venham a se exaurir antes de outras. Isto significa poder e domínio. Outro aspecto importante que nos faz pensar com a leitura do texto é o da diplomacia descalça, termo cunhado pelo autor para caracterizar o alinhamento automático dos diplomatas de pijama da era FHC no Brasil. Por fim observamos que a hipocrisia é a tônica nas relações internacionais, por secundar interesses de países para os quais o que menos importa é a justiça e a paz.
Brasil e Irã: os nossos Motivos.
Por Tomás Rosa Bueno
Via blog do Nassif
Apesar do que não se cansam de repetir os adeptos da diplomacia descalça, não há nada sequer remotamente parecido a antiamericanismo na posição brasileira sobre o Irã: os nossos motivos, ao contrário dos do trio de intrometidos (EUA, França, Reino Unido), são claros e transparentes, declarados abertamente diversas vezes.
Somos a favor do desenvolvimento pacífico da energia nuclear. Não acreditamos que haja provas de que o Irã tenha um programa nuclear militar secreto. Defendendo o Irã, estamos defendendo o nosso próprio direito a dominar o ciclo completo da fabricação de combustível nuclear, estamos defendendo o nosso direito a desenvolver a nossa própria tecnologia de enriquecimento, estamos defendendo o nosso direito a construirmos nós mesmos os reatores que vão mover os nossos submarinos nucleares que vão defender a nossa soberania. Nem mais, nem menos. Queremos para o Irã apenas o que queremos para nós mesmo.
Não há nenhuma prova de que o Irã esteja tentando fazer armas nucleares, segundo a Agência Internacional de Energia Atômica, único organismo internacional que tem autoridade para falar do assunto e é relativamente isento, porque dirigido por um conselho de 32 países, difícil de manipular e pressionar.. Não é preciso acreditar no que eu digo, basta ler os relatórios da AIEA, aqui, na página da AIEA sobre o Irã; e o mais recente, aqui, em espanhol.
O que a AIEA faz para deixar felizes o trio de intrometidos e os sócios menores deles, a China e a Rússia, é afirmar, depois de dizer com todas as letras que o programa nuclear iraniano é inteiramente monitorado e vigiado e que não há nenhum indício de “desvio de propósitos”, que não é possível afirmar que não haja um programa secreto. Ora, a mesmíssima coisa pode ser dita sobre o Brasil, sobre a Coreia do Sul, sobre Taiwan, até sobre a Argentina. O Irã é signatário do TNP e, segundo afirmou a AIEA repetidas vezes, cumpre estritamente todas as salvaguardas estabelecidas por esse órgão da ONU.
A AIEA, porém, marotamente, queixa-se de que o Irã se nega a cumprir resoluções do Conselho de Segurança que são ilegais, posto que é um direito do Irã ter um programa de enriquecimento de urânio, e ninguém, nem o Conselho de Segurança, tem o poder legal de impedir que o Irã desenvolva tecnologia nuclear dentro dos limites estabelecidos pelo TNP sem haver provas cabais de que esses limites estejam sendo excedidos. Queixa-se de que o Irã não adere aos Protocolos Adicionais, que são de adesão voluntária – o Brasil, por exemplo, não aderiu e denuncia os PAs como atentatórios à soberania nacional (e o primeiro que se recusou a assiná-los foi o FHC, antes que os diplomatas descalços comecem a ladainha do antiamericansmo, pelos mesmos motivos que o Lula). E pretende que o Irã permita que os inspetores da ONU visitem os locais onde as centrífugas são projetadas e fabricadas, o que não só não é obrigação nem do Irã nem de nenhum outro signatário do TNP como é uma exigência absurda: um país sob ameaça de um ataque militar por duas potências nucleares (uma das quais acaba de reformar as suas posturas nucleares para incluir a possibilidade de um ataque nuclear contra um país não nuclear -- uma óbvia violação dos princípios do TNP) não pode revelar os locais onde é fabricado o equipamento que lhe permitirá reconstruir o que for bombardeado, ou esses locais serão os primeiros alvos.
O Irã garante aos inspetores da ONU mais acesso que o Brasil, por exemplo, que, alegando razões de segredo industrial, não permite que eles nem vejam o que acontece dentro das nossas centrífugas: podem ver o que entra por uma ponta elas e o que sai pela outra, mas não o que acontece entre uma ponta e outra; o Brasil, a Coreia do Sul e Taiwan tampouco revelam os locais de produção das centrífugas; e não sei sobre os outros, mas o Brasil, em plena conformidade com as salvaguardas negociadas com a AIEA pelo governo brasileiro por ocasião da nossa adesão ao TNP, em 1997, não permite nenhum acesso ao programa de desenvolvimento dos reatores que serão usados em submarinos, alegando segredo militar – nós temos um programa nuclear militar, o Irã, não.
O governo iraniano chegou inclusive a assinar voluntariamente os termos invasivos dos Protocolos Adicionais do TNP em 2003, permitindo acesso irrestrito e não anunciado de inspetores da ONU a qualquer lugar do país em que pudesse haver, na opinião deles, qualquer coisa relacionada ao desenvolvimento de armas atômicas; mas retirou-se deles quase dois anos depois, ao verificar que escancarar tudo e submeter-se a ter inspetores escarafunchando por toda parte não adiantava nada para diminuir as suspeitas do “Ocidente” – porque, é claro, essas “suspeitas” são e sempre foram infundadas, e por isto resistem a qualquer prova contrária.
Portanto, se apesar de todas as garantias e tentativas de negociação do Irã desde a morte do Khomeini, apesar de o Irã não ter capacidade tecnológica para enriquecer urânio aos níveis necessários para fazer armas atômicas, apesar de o Irã não dominar a tecnologia de reprocessamento e de produção de plutônio, apesar de o programa nuclear iraniano estar sujeito à estrita vigilância da AIEA na forma de inspeções in loco e em câmeras instaladas em todos os locais ligados à produção de UBE a 3,5% e a 20%, apesar de o Irã ter adiado o início do enriquecimento a 20% para que a AIEA pudesse inspecionar as centrífugas e instalar câmeras de vigilância, apesar de todo o material físsil iraniano estar plenamente contabilizado e rastreado, apesar de o Irã, para facilitar as negociações, ter em diversas ocasiões aceitado suspender as atividades de enriquecimento a que tem direito, apesar de o Irã ter acertado com o Brasil e a Turquia uma acordo de exportação da maior parte do seu UBE segundo os exatos termos propostos pelo Grupo de Viena e estar cumprindo a sua parte mesmo tendo sido sujeito a novas sanções, mesmo assim continua sendo oficialmente acusado de ser “pouco transparente” e de ter um programa militar secreto, e extra-oficialmente de estar à beira de fazer uma bomba atômica (ler aqui como se faz para mentir sobre o Irã sem parecer). E, aos poucos, o que era extrapolação da imprensa mais raivosa vai-se transformando na base da próxima rodada de mentiras oficiais.
Ou seja, é evidente que a possibilidade de o Irã estar tentando fazer armas nucleares não passa de uma desculpa, sustentada por mentiras, com motivos inconfessáveis.
Logo, se foi possível mentir descaradamente sobre as “armas de destruição em massa” do Saddam Hussein e depois devastar o Iraque, se é possível mentir despudoradamente sobre o programa nuclear militar do Irã e ameaçar os iranianos com um ataque militar, o que é que garante que a mesma coisa não vai acontecer conosco amanhã? Hoje somos amigos e aliados dos Estados Unidos, e até acabamos de assinar um acordo de cooperação militar com eles; mas quem pode dizer em que estado estarão as nossas relações dentro de dois, dez, vinte anos? Se os EUA, a França e o Reino Unido têm hoje motivos para quererem atacar o Irã, que não se sabe muito bem quais são, quem seria capaz de jurar que não vão encontrar uma penca de motivos semelhantes para querer atacar o Brasil, ou impedir que desenvolvamos esta ou aquela tecnologia, se isto lhes for conveniente?
Se permitirmos que o Irã seja ilegalmente impedido de desenvolver o programa nuclear pacífico a que tem direito, o TNP será letra morta, e poderemos ser submetidos ao mesmo tratamento no futuro. O ataque ilegal contra os direitos do Irã e a preparação de mais uma intervenção militar ilegal contra um país soberano sob pretextos evidentemente falsos precisa ser detido agora, enquanto ainda é possível. O Brasil tem o dever de defender os direitos dos iranianos hoje, sob pena de pôr em risco os nossos próprios direitos no futuro. A nossa condição de potência com influência global a que nos leva o estágio de desenvolvimento em que nos encontramos e a própria continuidade desse desenvolvimento dependem do apoio irrestrito ao direito do povo iraniano de desenvolver um programa nuclear pacífico, sem interferências, ameaças e agressões.
A Rússia e a China têm lá os seus motivos, alguns até compreensíveis mas quase todos venais e nenhum relativo ao programa nuclear, para apoiarem a tentativa de empurrar o Irã contra a parede. Os EUA, a Grã-Bretanha e a França têm uma longuíssima folha corrida de intromissão nos assuntos dos países do Oriente Médio, e não é surpresa nenhuma que queiram agora atacar mais um da lista de países da região que invadiram desde o século XVIII – todos, com exceção do Irã e da Turquia moderna, pós-império otomano. E os outros sete países, entre os quais dois – Bósnia-Herzegovina e Uganda, cujos PIBs equivalem ao orçamento do Bolsa-Família e um – o Togo - com um PIB menor que o orçamento de educação do estado da Bahia, cederam ao formidável poder de pressão e chantagem, dos Estados Unidos e das ex-potências coloniais que mais miséria causaram no Oriente Médio ao longo dos últimos dois séculos. O poder de pressão do trio intrometido foi ensaiado até contra nós e quase teve êxito contra a Turquia às vésperas do acordo BIT – que só saiu por insistência do presidente brasileiro.
Os países que não foram submetidos a essas pressões, a Indonésia, a Índia, os países da Ásia Central, o Paquistão, a Africa do Sul e a maioria dos países africanos que se manifestaram sobre o assunto, Portugal, Noruega (ambos parte da UE, oficialmente pró-sanções), toda a América do Sul com exceção da Colômbia e do Chile, toda a América Central com exceção do Panamá, os 57 países da Organização da Conferência Islâmica e os 116 países do Movimento Não Alinhado, Egito à frente, declararam-se contra a imposição de novas sanções. E todos os países do mundo, inclusive a França e com exceção dos poucos que ficaram quietos a respeito, dos EUA, do Canadá, da Austrália e do Reino Unido, aclamaram o acordo BIT.
O Brasil tem agora a obrigação de estar à altura da confiança e da solidariedade de que foi objeto por parte da comunidade internacional real e ser fiel aos princípios afirmados nas negociações que levaram ao acordo, defendendo por todos os meios o caminho da negociação e do diálogo na solução do impasse iraniano.
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domingo, 4 de julho de 2010
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quinta-feira, 3 de junho de 2010
A Grande (?) Mìdia Brasileira e a Diplomacia do Oprimido
Fiz uma pequena adaptação ao título do texto do Leonardo Boff publicado no Tijolaço (do Brizola Neto), porque, no fundo, é isto que revela o autor: a diplomacia dos oprimidos como via predileta da nossa grande(?) mídia. Observem a cobertura em relação ao Irã e ao incidente com Israel e a Flotilha da Paz. Observem, principalmente, a posição dos EUA. Tudo se baseia num maniqueísmo em que há os bons e os maus, embora os bons possam dar alguns tropeços, matarem alguns inocentes (efeito colateral) e até serem repreendidos. Mas como supostamente teria dito Roosevelt: "Somoza may be a son of a bitch, but he's our son of a bitch. ..."; este é o espírito da coisa, o resto são só interesses...
A saudade do servo na velha diplomacia brasileira – Leonardo Boff
Via Tijolaço
A saudade do servo na velha diplomacia brasileira – Leonardo Boff
Via Tijolaço
O filósofo F. Hegel em sua Fenomenologia do Espírito analisou detalhadamente a dialética do senhor e do servo. O senhor se torna tanto mais senhor quanto mais o servo internaliza em si o senhor, o que aprofunda ainda mais seu estado de servo. A mesma dialética identificou Paulo Freire na relação oprimido-opressor em sua clássica obra Pedagogia do oprimido. Com humor comentou Frei Betto: “em cada cabeça de oprimido há uma placa virtual que diz: hospedaria de opressor”. Quer dizer, o opressor hospeda em si oprimido e é exatamente isso que o faz oprimido. A libertação se realiza quando o oprimido extrojeta o opressor e ai começa então uma nova história na qual não haverá mais oprimido e opressor mas o cidadão livre.
Escrevo isso a propósito de nossa imprensa comercial, os grandes jornais do Rio, de São Paulo e de Porto Alegre, com referência à política externa do governo Lula no seu afã de mediar junto com o governo turco um acordo pacífico com o Irã a respeito do enriquecimento de urânio para fins não militares. Ler as opiniões emitidas por estes jornais, seja em editoriais seja por seus articulistas, alguns deles, embaixadores da velha guarda, reféns do tempo da guerra-fria, na lógica de amigo-inimigo é simplesmente estarrecedor. O Globo fala em “suicídio diplomático”(24/05) para referir apenas um título até suave. Bem que poderiam colocar como sub-cabeçalho de seus jornais:”Sucursal do Império” pois sua voz é mais eco da voz do senhor imperial do que a voz do jornalismo que objetivamente informa e honestamente opina. Outros, como o Jornal do Brasil, tem seguido uma linha de objetividade, fornecendo os dados principais para os leitores fazerem sua apreciação.
As opiniões revelam pessoas que têm saudades deste senhor imperial internalizado, de quem se comportam como súcubos. Não admitem que o Brasil de Lula ganhe relevância mundial e se transforme num ator político importante como o repetiu, há pouco, no Brasil, o Secretário Geral da ONU, Ban-Ki-moon. Querem vê-lo no lugar que lhe cabe: na periferia colonial, alinhado ao patrão imperial, qual cão amestrado e vira-lata. Posso imaginar o quanto os donos desses jornais sofrem ao ter que aceitar que o Brasil nunca poderá ser o que gostariam que fosse: um Estado-agregado como é Hawai e Porto-Rico. Como não há jeito, a maneira então de atender à voz do senhor internalizado, é difamar, ridicularizar e desqualificar, de forma até antipatriótica, a iniciativa e a pessoa do Presidente. Este notoriamente é reconhecido, mundo afora, como excepcional interlocutor, com grande habilidade nas negociações e dotado de singular força de convencimento.
O povo brasileiro abomina a subserviência aos poderosos e aprecia, às vezes ingenuamente, os estrangeiros e os outros povos. Sente-se orgulhoso de seu Presidente. Ele é um deles, um sobrevivente da grande tribulação, que as elites, tidas por Darcy Ribeiro como das mais reacionárias do mundo, nunca o aceitaram porque pensam que seu lugar não é na Presidência mas na fábrica produzindo para elas. Mas a história quis que fosse Presidente e que comparecesse como um personagem de grande carisma, unindo em sua pessoa ternura para com os humildes e vigor com o qual sustenta suas posições .
O que estamos assistindo é a contraposição de dois paradigmas de fazer diplomacia: uma velha, imperial, intimidatória, do uso da truculência ideológica, econômica e eventualmente militar, diplomacia inimiga da paz e da vida, que nunca trouxe resultados duradouros. E outra, do século XXI, que se dá conta de que vivemos numa fase nova da história, a história coletiva dos povos que se obrigam a conviver harmoniosamente num pequeno planeta, escasso de recursos e semi-devastado. Para esta nova situação impõe-se a diplomacia do diálogo incansável, da negociação do ganha-ganha, dos acertos para além das diferenças. Lula entendeu esta fase planetária. Fez-se protagonista do novo, daquela estratégia que pode efetivamente evitar a maior praga que jamais existiu: a guerra que só destrói e mata. Agora, ou seguiremos esta nova diplomacia, ou nos entredevoraremos. Ou Hillary ou Lula.
A nossa imprensa comercial é obtusa face a essa nova emergência da história. Por isso abomina a diplomacia de Lula
Leonardo Boff é Teólogo e autor de Nossa ressurreição na morte, Vozes 2007
Escrevo isso a propósito de nossa imprensa comercial, os grandes jornais do Rio, de São Paulo e de Porto Alegre, com referência à política externa do governo Lula no seu afã de mediar junto com o governo turco um acordo pacífico com o Irã a respeito do enriquecimento de urânio para fins não militares. Ler as opiniões emitidas por estes jornais, seja em editoriais seja por seus articulistas, alguns deles, embaixadores da velha guarda, reféns do tempo da guerra-fria, na lógica de amigo-inimigo é simplesmente estarrecedor. O Globo fala em “suicídio diplomático”(24/05) para referir apenas um título até suave. Bem que poderiam colocar como sub-cabeçalho de seus jornais:”Sucursal do Império” pois sua voz é mais eco da voz do senhor imperial do que a voz do jornalismo que objetivamente informa e honestamente opina. Outros, como o Jornal do Brasil, tem seguido uma linha de objetividade, fornecendo os dados principais para os leitores fazerem sua apreciação.
As opiniões revelam pessoas que têm saudades deste senhor imperial internalizado, de quem se comportam como súcubos. Não admitem que o Brasil de Lula ganhe relevância mundial e se transforme num ator político importante como o repetiu, há pouco, no Brasil, o Secretário Geral da ONU, Ban-Ki-moon. Querem vê-lo no lugar que lhe cabe: na periferia colonial, alinhado ao patrão imperial, qual cão amestrado e vira-lata. Posso imaginar o quanto os donos desses jornais sofrem ao ter que aceitar que o Brasil nunca poderá ser o que gostariam que fosse: um Estado-agregado como é Hawai e Porto-Rico. Como não há jeito, a maneira então de atender à voz do senhor internalizado, é difamar, ridicularizar e desqualificar, de forma até antipatriótica, a iniciativa e a pessoa do Presidente. Este notoriamente é reconhecido, mundo afora, como excepcional interlocutor, com grande habilidade nas negociações e dotado de singular força de convencimento.
O povo brasileiro abomina a subserviência aos poderosos e aprecia, às vezes ingenuamente, os estrangeiros e os outros povos. Sente-se orgulhoso de seu Presidente. Ele é um deles, um sobrevivente da grande tribulação, que as elites, tidas por Darcy Ribeiro como das mais reacionárias do mundo, nunca o aceitaram porque pensam que seu lugar não é na Presidência mas na fábrica produzindo para elas. Mas a história quis que fosse Presidente e que comparecesse como um personagem de grande carisma, unindo em sua pessoa ternura para com os humildes e vigor com o qual sustenta suas posições .
O que estamos assistindo é a contraposição de dois paradigmas de fazer diplomacia: uma velha, imperial, intimidatória, do uso da truculência ideológica, econômica e eventualmente militar, diplomacia inimiga da paz e da vida, que nunca trouxe resultados duradouros. E outra, do século XXI, que se dá conta de que vivemos numa fase nova da história, a história coletiva dos povos que se obrigam a conviver harmoniosamente num pequeno planeta, escasso de recursos e semi-devastado. Para esta nova situação impõe-se a diplomacia do diálogo incansável, da negociação do ganha-ganha, dos acertos para além das diferenças. Lula entendeu esta fase planetária. Fez-se protagonista do novo, daquela estratégia que pode efetivamente evitar a maior praga que jamais existiu: a guerra que só destrói e mata. Agora, ou seguiremos esta nova diplomacia, ou nos entredevoraremos. Ou Hillary ou Lula.
A nossa imprensa comercial é obtusa face a essa nova emergência da história. Por isso abomina a diplomacia de Lula
Leonardo Boff é Teólogo e autor de Nossa ressurreição na morte, Vozes 2007
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sábado, 29 de maio de 2010
Lula pela Der Spiegel
Enquanto aqui na terrinha a grande(?) mídia baixa o sarrafo no metalúrgico, ou, no mínimo, cobre os avanços do governo com uma "certa" má vontade, pra dizer o de menos, lá fora, ao que parece, a cobertura é bem mais isenta, até porque não existe uma Dona Judith (ANJ) pra afirmar que imprensa tem que tomar o lugar de oposição fragilizada em nome da democracia. Isto prá não falar nos famosos "embaixadores de pijama" do governo FHC, chamados às pressas por algumas emissoras de tv para defender os interesses americanos, principalmente agora com a madame Hillary a fazer biquinho.
Lula salta para a primeira divisão da diplomacia mundial
Erich Follath e Jens Glüsing
Transpirando autoconfiança, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva está elevando o status global do seu país ao protagonizar um número cada vez maior de iniciativas na área de política internacional. Na mais recente dessas ações, ele convenceu o Irã a concordar com um polêmico acordo nuclear. Poderia este acordo proporcionar uma oportunidade para que sejam evitadas sanções e guerra?
Ele foi acusado de ser muitas coisas no passado, incluindo um comunista, um proletário grosseiro e um alcoólatra. Mas a época dessas acusações acabou há muito tempo. À medida que o Brasil cresce para tornar-se uma nova potência econômica, a reputação do presidente brasileiro cresce de forma meteórica.
Hoje em dia muita gente vê o presidente como um herói do hemisfério sul e um importante contrapeso em relação a Washington, Bruxelas e Pequim. A revista de notícias norte-americana “Time” foi além, duas semanas atrás, ao afirmar que ele é “o líder político mais influente do mundo”, colocando-o à frente até mesmo do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. No Brasil, muita gente vê em Lula da Silva um candidato ao Prêmio Nobel da Paz.
E agora este homem, Luiz Inácio da Silva, 64, apelidado de “Lula”, que passou a infância em um cortiço como filho de pais analfabetos, conseguiu mais outra vitória política no exterior. Em uma reunião que foi uma verdadeira maratona política, ele negociou um acordo nuclear com a liderança iraniana. Na última segunda-feira, ele apareceu triunfante ao lado do primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan e do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Os três líderes chegaram a um acordo que eles acreditam que retirará da agenda internacional as previstas sanções da Organização da Nações Unidas (ONU) contra o Irã devido ao possível programa de armas nucleares do país. O Ocidente, que vinha fazendo pressões pela adoção de medidas punitivas mais duras contra o Irã, pareceu ter sido feito de bobo, e até ter sido pego de surpresa.
Mas o contra-ataque de Washington veio no dia seguinte, abrindo um novo capítulo nesta acalorada disputa nuclear, na qual Pequim, em especial, há muito vem resistindo a adotar uma abordagem mais dura. A secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton anunciou: “Nós chegamos a um acordo baseado em medidas fortes com a cooperação tanto da Rússia quanto da China”. O texto relativo às sanções planejadas contra o Irã foi enviado a todos os membros do Conselho de Segurança da ONU, incluindo o Brasil e a Turquia. Os dois países são membros eleitos para ocuparem durante dois anos esse conselho que têm 15 integrantes, e que precisa aceitar uma resolução com pelo menos nove votos para que esta possa ser implementada.
Os Estados Unidos mostram-se irredutíveis quanto às sanções
Clinton agradeceu especificamente a Lula pelos seus “esforços sinceros”. Mas a sua expressão indicava claramente que ela viu os esforços de lula mais como um impedimento do que como uma ajuda. “Nós estamos procurando o apoio da comunidade internacional a uma resolução composta de sanções fortes que, segundo o nosso ponto de vista, constituir-se-ão em uma mensagem muito clara a respeito daquilo que se espera do Irã”, afirmou Hillary Clinton.
Mas a abordagem menos confrontativa de Lula nesta disputa nuclear não seria muito mais promissora? Seria tão fácil assim desacelerar o “Lula Superstar”, que conta com o apoio da Turquia, um país membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan)? Quem quer que tenha acompanhado a carreira de Lula achará difícil acreditar nisso. Este homem sempre superou todas as resistências, e todos os cenários desfavoráveis com os quais se defrontou.
O pai dele abandonou a família quando Lula era bem novo, e a mãe mudou-se com os oito filhos do nordeste do Brasil para o sul industrializado, onde ela esperava aumentar as chances de sucesso da família. Lula só aprendeu a ler e a escrever aos dez anos de idade. Quando criança, ele ajudou a sustentar a família trabalhando como engraxate e vendedor de frutas, e também como operário de uma fábrica de tintas. Ele acabou conseguindo fazer um curso de torneiro mecânico. Quando Lula tinha 25 anos de idade, a mulher dele, Maria, e o seu filho ainda não nascido morreram porque a família não tinha condições de pagar por atendimento médico adequado.
Lula tornou-se politicamente ativo quando era jovem, ao ingressar em um sindicato e organizar greves ilegais na época da ditadura militar. Ele foi preso várias vezes na década de oitenta. Insatisfeito com os esquerdistas clássicos, ele fundou o seu próprio Partido dos Trabalhadores, que gradualmente transformou-se de um partido marxista em uma agremiação social-democrata. Ele concorreu três vezes, sem sucesso, à presidência, até que, na quarta vez, venceu a eleição presidencial de 2002 com uma vantagem significante sobre o seu adversário. Foram os indivíduos mais pobres que, em um país de extremos contrastes econômicos, depositaram as suas esperanças no carismático líder trabalhista. Quando Lula venceu a eleição, os indivíduos extremamente ricos, temendo que os seus bens fossem desapropriados, mantiveram os seus aviões a jato particulares abastecidos, prontos para decolar.
O herói dos pobres distanciou-se de revoluções
Mas aqueles que esperavam ou que temiam uma revolução no Brasil ficaram surpresos. Após tomar posse, Lula levou alguns dos membros do seu gabinete a uma favela, e lançou um programa de grande escala chamado “Fome Zero” para aliviar os sofrimentos dos desprivilegiados. Mas ele não assustou os mercados. Aumentos dos preços das commodities e uma política econômica moderna que enfatizou os investimentos estrangeiros, a educação nacional e recursos para treinamento ajudaram Lula a se reeleger em 2006.
O mandato dele termina em dezembro, e Lula não poderá disputar novamente a reeleição. Ele colocou a casa em ordem e cultivou uma potencial sucessora. Mas o presidente autoconfiante deseja evidentemente deixar também um legado político: ele considera uma missão sua transformar o Brasil, com a sua população de 196 milhões de habitantes, em uma grande potência mundial, bem como assegurar uma cadeira permanente para o seu país no Conselho de Segurança da ONU.
Lula reconheceu que manter boas relações com Washington, Londres e Moscou é algo que ajuda o Brasil a tentar alcançar essa meta. Mas ele sabe também que vínculos fortes com países como a China e a Índia, bem como o Oriente Médio e os países africanos, poderiam ser ainda mais importantes. Ele se considera um homem do “sul”, e um líder dos pobres e desfavorecidos. E, é claro, ele também reconhece as mudanças que estão ocorrendo. No ano passado, por exemplo, a República Popular da China ultrapassou os Estados Unidos como o maior parceiro comercial do Brasil pela primeira vez na história.
Lula é o único chefe de Estado que participou tanto do exclusivo Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, quanto do Fórum Social Mundial, que criticou a globalização, na cidade de Porto Alegre, no Brasil. Ele é um viajante infatigável, tendo visitado 25 países só na África, muitos países asiáticos e quase todos as nações da América Latina – levando sempre consigo uma delegação econômica. Lula prega incansavelmente a sua crença em um mundo multipolar. E, como Lula é um orador carismático e um “autêntico” líder trabalhista, multidões em todo o mundo o saúdam como se ele fosse um pop star. Na reunião de cúpula do G20 em 2009, em Londres, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que aparentemente é um fã de Lula, afirmou: “Eu adoro esse cara”.
No entanto, Obama não pode mais ter certeza de que Lula é de fato “o seu cara de confiança”. O brasileiro está ficando cada vez mais autoconfiante à medida que se distancia de Washington e, às vezes, chega até a buscar a confrontação com os norte-americanos.
Autoconfiança cada vez maior
O caso de Honduras é um exemplo dessa tendência. Os Estados Unidos, que sempre viram a América Central como o seu quintal, ficaram perplexos quando Lula concedeu abrigo ao presidente deposto Manual Zelaya na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa no ano passado e exigiu que tivesse uma voz no processo para solucionar o conflito. Ao recusar-se a reconhecer o novo presidente, Brasília se opôs ostensivamente a Obama.
Depois disso, as coisas aconteceram muito rapidamente. Lula viajou a Cuba, onde reuniu-se com Raul e Fidel Castro e pediu um fim imediato do embargo econômico norte-americano à ilha. Para a alegria dos seus anfitriões, ele comparou os críticos do regime que sofrem nas prisões de Havana a criminosos comuns. Lula também fez questão de aparecer junto ao presidente venezuelano Hugo Chávez, que não poupa críticas a Washington e que está amordaçando cada vez mais a imprensa no seu país. Em uma entrevista a “Der Spiegel”, Lula definiu o líder autocrático como “o melhor presidente da Venezuela em cem anos”.
E quando recebeu Ahmadinejad em Brasília alguns meses atrás, Lula cumprimentou o presidente iraniano pela sua suposta vitória eleitoral impecável e comparou o movimento oposicionista iraniano a torcedores de futebol frustrados. Ele afirmou que o Brasil também não permitiria que ninguém interferisse com o seu programa nuclear “obviamente pacífico”.
Apesar dessa aproximação, muita gente manifestou ceticismo quando Lula seguiu para Teerã a fim de negociar um acordo nuclear com a liderança iraniana, especialmente depois que os iranianos não demonstraram quase nenhuma disposição para ceder nos meses anteriores. Em uma entrevista coletiva à imprensa com Lula, o presidente russo Dmitry Medvedev disse que a probabilidade de um acordo mediado pelo Brasil seria de no máximo 30%. Lula retrucou, dizendo: “Eu diria que as chances são de 99%”. Lá estava novamente em evidência o ego pronunciado do astro político em ascensão. “Ele acredita ser um trabalhador milagroso que é capaz de obter sucesso onde outros fracassaram”, diz Michael Shifter, um especialista norte-americano em América Latina.
Vitória inédita ou fracasso?
Neste momento, só existem indícios circunstanciais de que uma “vitória inédita” foi alcançada em Teerã após 17 horas de negociações. É também possível que a reunião tenha sido, na verdade, aquilo que o jornal alemão “Frankfurter Allgemeine Zeitung” classificou como um “fracasso”, ou apenas mais uma forma encontrada pelos iranianos, que em outras ocasiões foram frequentemente evasivos, para novamente paralisarem as iniciativas internacionais contra o seu programa nuclear.
Autoridades da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) em Viena afirmaram cautelosamente que qualquer fato novo no sentido de que se chegue a um acordo nuclear se constitui em um progresso. Os inspetores da AIEA são responsáveis por inspecionar as instalações nucleares de todo o mundo em nome da ONU. Eles recentemente descobriram mais indícios de um programa iraniano ilegal de armas nucleares e pediram a Teerã que cooperasse mais. A avaliação dos especialistas da agência, cuja comunicação com
Teerã nunca foi interrompida e que jamais afirmaram algo que não fossem capazes de provar, terá agora muito peso. O fato de os iranianos só se disporem a apresentar o texto do acordo à AIEA “em uma semana” gerou dúvidas.
Os governos ocidentais têm manifestado muito ceticismo, e a resolução da ONU que Hillary Clinton tornou pública pouco depois do acordo de Teerã aparentemente deixou os israelenses preocupados. Alguns membros do governo de linha dura do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu estão criticando abertamente o acordo como sendo uma artimanha para aliviar a pressão internacional que é exercida sobre Teerã. O ministro israelense do comércio Benjamin Ben-Elieser afirma que Teerã está aparentemente “tentando novamente ludibriar o mundo inteiro”.
O acordo proporciona uma brecha ao Irã
O instituto norte-americano ISIS, que sempre defendeu uma solução negociada e que acredita que a “opção militar” para resolver a questão nuclear iraniana é impensável, fez uma análise inteligente do acordo Lula-Ahmadinejad-Erdogan. Na análise, os especialistas nucleares independentes do instituto divulgaram as suas preocupações e observaram os pontos fracos do texto do acordo que foi revelado até o momento.
Os iranianos só concordam em enviar 1.200 quilogramas do seu urânio de baixo teor de enriquecimento à Turquia, para receberem em troca combustível para o seu reator de pesquisas em Teerã. As dimensões do acordo correspondem àquelas de um outro acordo proposto pela AIEA em outubro do ano passado, segundo o qual mais de três quartos do urânio produzido no Irã seriam mandados para fora do país, fazendo desta forma com que a fabricação de uma bomba atômica se tornasse impossível. A ideia era que isso fosse uma medida fomentadora de confiança para proporcionar espaço para negociações.
No entanto, o acordo atual ignora o fato de que o Irã, após ter colocado em funcionamento as suas centrífugas em Natanz, aparentemente já conta com mais de 2.300 quilogramas de urânio. Em outras palavras, o acordo possibilitaria que Teerã ficasse com quase a metade desse material, que é um ingrediente básico para uma bomba nuclear, de forma que o Irã ainda contasse com matéria prima suficiente para atingir a “capacidade mínima” de fabricação de armas nucleares.
O acordo também proporciona uma brecha a Teerã: ele concede à liderança iraniana o direito de pegar o seu urânio de volta da Turquia se, na sua opinião, qualquer cláusula do texto oficial “não for cumprida”. E o mais importante é que o acordo não exige que Teerã suspenda o processo de enriquecimento de urânio. “Nós nem sonharíamos em fazer isso”, declarou uma autoridade iraniana. Mas é isso precisamente que a ONU exigiu inequivocamente com aquilo que a esta altura já são três rodadas de sanções.
Essas objeções todas não preocupam Lula. Ele demonstrou que não pode mais ser ignorado no cenário internacional. Na última terça-feira, os amigos do presidente brasileiro elogiavam os seus esforços no sentido de fomentar a paz durante a reunião de cúpula América Latina-União Europeia em Madri. A participação do presidente tinha como objetivo demonstrar que a “lula” possui vários braços. Ele provou que é capaz de nadar na companhia de grandes tubarões.
Por trás dos bastidores, o Lula Superstar gosta de falar sobre como obrigou os diplomatas brasileiros a abandonarem a “síndrome de vira-latas”, o seu termo para designar o profundamente arraigado complexo de inferioridade que os brasileiros demonstravam até recentemente em relação aos norte-americanos e aos europeus.
O fato ocorreu em 2003, na primeira aparição internacional importante de Lula, na reunião de cúpula do G8, em Evian, na França. Um grupo de pessoas estava sentado no saguão do hotel onde ocorria a conferência, aguardando o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. Quando os norte-americanos finalmente entraram no recinto, todos se levantaram – menos Lula, que ordenou ao seu ministro das Relações Exteriores que também permanecesse sentado. “Eu não participarei desta subserviência”, declarou o presidente brasileiro. “Afinal, ninguém se levantou quando eu entrei”.
http://noticias.bol.uol.com.br/internacional/2010/05/29/lula-salta-para-a-primeira-divisao-da-diplomacia-mundial.jhtm
Lula salta para a primeira divisão da diplomacia mundial
Erich Follath e Jens Glüsing
Transpirando autoconfiança, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva está elevando o status global do seu país ao protagonizar um número cada vez maior de iniciativas na área de política internacional. Na mais recente dessas ações, ele convenceu o Irã a concordar com um polêmico acordo nuclear. Poderia este acordo proporcionar uma oportunidade para que sejam evitadas sanções e guerra?
Ele foi acusado de ser muitas coisas no passado, incluindo um comunista, um proletário grosseiro e um alcoólatra. Mas a época dessas acusações acabou há muito tempo. À medida que o Brasil cresce para tornar-se uma nova potência econômica, a reputação do presidente brasileiro cresce de forma meteórica.
Hoje em dia muita gente vê o presidente como um herói do hemisfério sul e um importante contrapeso em relação a Washington, Bruxelas e Pequim. A revista de notícias norte-americana “Time” foi além, duas semanas atrás, ao afirmar que ele é “o líder político mais influente do mundo”, colocando-o à frente até mesmo do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. No Brasil, muita gente vê em Lula da Silva um candidato ao Prêmio Nobel da Paz.
E agora este homem, Luiz Inácio da Silva, 64, apelidado de “Lula”, que passou a infância em um cortiço como filho de pais analfabetos, conseguiu mais outra vitória política no exterior. Em uma reunião que foi uma verdadeira maratona política, ele negociou um acordo nuclear com a liderança iraniana. Na última segunda-feira, ele apareceu triunfante ao lado do primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan e do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Os três líderes chegaram a um acordo que eles acreditam que retirará da agenda internacional as previstas sanções da Organização da Nações Unidas (ONU) contra o Irã devido ao possível programa de armas nucleares do país. O Ocidente, que vinha fazendo pressões pela adoção de medidas punitivas mais duras contra o Irã, pareceu ter sido feito de bobo, e até ter sido pego de surpresa.
Mas o contra-ataque de Washington veio no dia seguinte, abrindo um novo capítulo nesta acalorada disputa nuclear, na qual Pequim, em especial, há muito vem resistindo a adotar uma abordagem mais dura. A secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton anunciou: “Nós chegamos a um acordo baseado em medidas fortes com a cooperação tanto da Rússia quanto da China”. O texto relativo às sanções planejadas contra o Irã foi enviado a todos os membros do Conselho de Segurança da ONU, incluindo o Brasil e a Turquia. Os dois países são membros eleitos para ocuparem durante dois anos esse conselho que têm 15 integrantes, e que precisa aceitar uma resolução com pelo menos nove votos para que esta possa ser implementada.
Os Estados Unidos mostram-se irredutíveis quanto às sanções
Clinton agradeceu especificamente a Lula pelos seus “esforços sinceros”. Mas a sua expressão indicava claramente que ela viu os esforços de lula mais como um impedimento do que como uma ajuda. “Nós estamos procurando o apoio da comunidade internacional a uma resolução composta de sanções fortes que, segundo o nosso ponto de vista, constituir-se-ão em uma mensagem muito clara a respeito daquilo que se espera do Irã”, afirmou Hillary Clinton.
Mas a abordagem menos confrontativa de Lula nesta disputa nuclear não seria muito mais promissora? Seria tão fácil assim desacelerar o “Lula Superstar”, que conta com o apoio da Turquia, um país membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan)? Quem quer que tenha acompanhado a carreira de Lula achará difícil acreditar nisso. Este homem sempre superou todas as resistências, e todos os cenários desfavoráveis com os quais se defrontou.
O pai dele abandonou a família quando Lula era bem novo, e a mãe mudou-se com os oito filhos do nordeste do Brasil para o sul industrializado, onde ela esperava aumentar as chances de sucesso da família. Lula só aprendeu a ler e a escrever aos dez anos de idade. Quando criança, ele ajudou a sustentar a família trabalhando como engraxate e vendedor de frutas, e também como operário de uma fábrica de tintas. Ele acabou conseguindo fazer um curso de torneiro mecânico. Quando Lula tinha 25 anos de idade, a mulher dele, Maria, e o seu filho ainda não nascido morreram porque a família não tinha condições de pagar por atendimento médico adequado.
Lula tornou-se politicamente ativo quando era jovem, ao ingressar em um sindicato e organizar greves ilegais na época da ditadura militar. Ele foi preso várias vezes na década de oitenta. Insatisfeito com os esquerdistas clássicos, ele fundou o seu próprio Partido dos Trabalhadores, que gradualmente transformou-se de um partido marxista em uma agremiação social-democrata. Ele concorreu três vezes, sem sucesso, à presidência, até que, na quarta vez, venceu a eleição presidencial de 2002 com uma vantagem significante sobre o seu adversário. Foram os indivíduos mais pobres que, em um país de extremos contrastes econômicos, depositaram as suas esperanças no carismático líder trabalhista. Quando Lula venceu a eleição, os indivíduos extremamente ricos, temendo que os seus bens fossem desapropriados, mantiveram os seus aviões a jato particulares abastecidos, prontos para decolar.
O herói dos pobres distanciou-se de revoluções
Mas aqueles que esperavam ou que temiam uma revolução no Brasil ficaram surpresos. Após tomar posse, Lula levou alguns dos membros do seu gabinete a uma favela, e lançou um programa de grande escala chamado “Fome Zero” para aliviar os sofrimentos dos desprivilegiados. Mas ele não assustou os mercados. Aumentos dos preços das commodities e uma política econômica moderna que enfatizou os investimentos estrangeiros, a educação nacional e recursos para treinamento ajudaram Lula a se reeleger em 2006.
O mandato dele termina em dezembro, e Lula não poderá disputar novamente a reeleição. Ele colocou a casa em ordem e cultivou uma potencial sucessora. Mas o presidente autoconfiante deseja evidentemente deixar também um legado político: ele considera uma missão sua transformar o Brasil, com a sua população de 196 milhões de habitantes, em uma grande potência mundial, bem como assegurar uma cadeira permanente para o seu país no Conselho de Segurança da ONU.
Lula reconheceu que manter boas relações com Washington, Londres e Moscou é algo que ajuda o Brasil a tentar alcançar essa meta. Mas ele sabe também que vínculos fortes com países como a China e a Índia, bem como o Oriente Médio e os países africanos, poderiam ser ainda mais importantes. Ele se considera um homem do “sul”, e um líder dos pobres e desfavorecidos. E, é claro, ele também reconhece as mudanças que estão ocorrendo. No ano passado, por exemplo, a República Popular da China ultrapassou os Estados Unidos como o maior parceiro comercial do Brasil pela primeira vez na história.
Lula é o único chefe de Estado que participou tanto do exclusivo Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, quanto do Fórum Social Mundial, que criticou a globalização, na cidade de Porto Alegre, no Brasil. Ele é um viajante infatigável, tendo visitado 25 países só na África, muitos países asiáticos e quase todos as nações da América Latina – levando sempre consigo uma delegação econômica. Lula prega incansavelmente a sua crença em um mundo multipolar. E, como Lula é um orador carismático e um “autêntico” líder trabalhista, multidões em todo o mundo o saúdam como se ele fosse um pop star. Na reunião de cúpula do G20 em 2009, em Londres, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que aparentemente é um fã de Lula, afirmou: “Eu adoro esse cara”.
No entanto, Obama não pode mais ter certeza de que Lula é de fato “o seu cara de confiança”. O brasileiro está ficando cada vez mais autoconfiante à medida que se distancia de Washington e, às vezes, chega até a buscar a confrontação com os norte-americanos.
Autoconfiança cada vez maior
O caso de Honduras é um exemplo dessa tendência. Os Estados Unidos, que sempre viram a América Central como o seu quintal, ficaram perplexos quando Lula concedeu abrigo ao presidente deposto Manual Zelaya na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa no ano passado e exigiu que tivesse uma voz no processo para solucionar o conflito. Ao recusar-se a reconhecer o novo presidente, Brasília se opôs ostensivamente a Obama.
Depois disso, as coisas aconteceram muito rapidamente. Lula viajou a Cuba, onde reuniu-se com Raul e Fidel Castro e pediu um fim imediato do embargo econômico norte-americano à ilha. Para a alegria dos seus anfitriões, ele comparou os críticos do regime que sofrem nas prisões de Havana a criminosos comuns. Lula também fez questão de aparecer junto ao presidente venezuelano Hugo Chávez, que não poupa críticas a Washington e que está amordaçando cada vez mais a imprensa no seu país. Em uma entrevista a “Der Spiegel”, Lula definiu o líder autocrático como “o melhor presidente da Venezuela em cem anos”.
E quando recebeu Ahmadinejad em Brasília alguns meses atrás, Lula cumprimentou o presidente iraniano pela sua suposta vitória eleitoral impecável e comparou o movimento oposicionista iraniano a torcedores de futebol frustrados. Ele afirmou que o Brasil também não permitiria que ninguém interferisse com o seu programa nuclear “obviamente pacífico”.
Apesar dessa aproximação, muita gente manifestou ceticismo quando Lula seguiu para Teerã a fim de negociar um acordo nuclear com a liderança iraniana, especialmente depois que os iranianos não demonstraram quase nenhuma disposição para ceder nos meses anteriores. Em uma entrevista coletiva à imprensa com Lula, o presidente russo Dmitry Medvedev disse que a probabilidade de um acordo mediado pelo Brasil seria de no máximo 30%. Lula retrucou, dizendo: “Eu diria que as chances são de 99%”. Lá estava novamente em evidência o ego pronunciado do astro político em ascensão. “Ele acredita ser um trabalhador milagroso que é capaz de obter sucesso onde outros fracassaram”, diz Michael Shifter, um especialista norte-americano em América Latina.
Vitória inédita ou fracasso?
Neste momento, só existem indícios circunstanciais de que uma “vitória inédita” foi alcançada em Teerã após 17 horas de negociações. É também possível que a reunião tenha sido, na verdade, aquilo que o jornal alemão “Frankfurter Allgemeine Zeitung” classificou como um “fracasso”, ou apenas mais uma forma encontrada pelos iranianos, que em outras ocasiões foram frequentemente evasivos, para novamente paralisarem as iniciativas internacionais contra o seu programa nuclear.
Autoridades da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) em Viena afirmaram cautelosamente que qualquer fato novo no sentido de que se chegue a um acordo nuclear se constitui em um progresso. Os inspetores da AIEA são responsáveis por inspecionar as instalações nucleares de todo o mundo em nome da ONU. Eles recentemente descobriram mais indícios de um programa iraniano ilegal de armas nucleares e pediram a Teerã que cooperasse mais. A avaliação dos especialistas da agência, cuja comunicação com
Teerã nunca foi interrompida e que jamais afirmaram algo que não fossem capazes de provar, terá agora muito peso. O fato de os iranianos só se disporem a apresentar o texto do acordo à AIEA “em uma semana” gerou dúvidas.
Os governos ocidentais têm manifestado muito ceticismo, e a resolução da ONU que Hillary Clinton tornou pública pouco depois do acordo de Teerã aparentemente deixou os israelenses preocupados. Alguns membros do governo de linha dura do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu estão criticando abertamente o acordo como sendo uma artimanha para aliviar a pressão internacional que é exercida sobre Teerã. O ministro israelense do comércio Benjamin Ben-Elieser afirma que Teerã está aparentemente “tentando novamente ludibriar o mundo inteiro”.
O acordo proporciona uma brecha ao Irã
O instituto norte-americano ISIS, que sempre defendeu uma solução negociada e que acredita que a “opção militar” para resolver a questão nuclear iraniana é impensável, fez uma análise inteligente do acordo Lula-Ahmadinejad-Erdogan. Na análise, os especialistas nucleares independentes do instituto divulgaram as suas preocupações e observaram os pontos fracos do texto do acordo que foi revelado até o momento.
Os iranianos só concordam em enviar 1.200 quilogramas do seu urânio de baixo teor de enriquecimento à Turquia, para receberem em troca combustível para o seu reator de pesquisas em Teerã. As dimensões do acordo correspondem àquelas de um outro acordo proposto pela AIEA em outubro do ano passado, segundo o qual mais de três quartos do urânio produzido no Irã seriam mandados para fora do país, fazendo desta forma com que a fabricação de uma bomba atômica se tornasse impossível. A ideia era que isso fosse uma medida fomentadora de confiança para proporcionar espaço para negociações.
No entanto, o acordo atual ignora o fato de que o Irã, após ter colocado em funcionamento as suas centrífugas em Natanz, aparentemente já conta com mais de 2.300 quilogramas de urânio. Em outras palavras, o acordo possibilitaria que Teerã ficasse com quase a metade desse material, que é um ingrediente básico para uma bomba nuclear, de forma que o Irã ainda contasse com matéria prima suficiente para atingir a “capacidade mínima” de fabricação de armas nucleares.
O acordo também proporciona uma brecha a Teerã: ele concede à liderança iraniana o direito de pegar o seu urânio de volta da Turquia se, na sua opinião, qualquer cláusula do texto oficial “não for cumprida”. E o mais importante é que o acordo não exige que Teerã suspenda o processo de enriquecimento de urânio. “Nós nem sonharíamos em fazer isso”, declarou uma autoridade iraniana. Mas é isso precisamente que a ONU exigiu inequivocamente com aquilo que a esta altura já são três rodadas de sanções.
Essas objeções todas não preocupam Lula. Ele demonstrou que não pode mais ser ignorado no cenário internacional. Na última terça-feira, os amigos do presidente brasileiro elogiavam os seus esforços no sentido de fomentar a paz durante a reunião de cúpula América Latina-União Europeia em Madri. A participação do presidente tinha como objetivo demonstrar que a “lula” possui vários braços. Ele provou que é capaz de nadar na companhia de grandes tubarões.
Por trás dos bastidores, o Lula Superstar gosta de falar sobre como obrigou os diplomatas brasileiros a abandonarem a “síndrome de vira-latas”, o seu termo para designar o profundamente arraigado complexo de inferioridade que os brasileiros demonstravam até recentemente em relação aos norte-americanos e aos europeus.
O fato ocorreu em 2003, na primeira aparição internacional importante de Lula, na reunião de cúpula do G8, em Evian, na França. Um grupo de pessoas estava sentado no saguão do hotel onde ocorria a conferência, aguardando o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. Quando os norte-americanos finalmente entraram no recinto, todos se levantaram – menos Lula, que ordenou ao seu ministro das Relações Exteriores que também permanecesse sentado. “Eu não participarei desta subserviência”, declarou o presidente brasileiro. “Afinal, ninguém se levantou quando eu entrei”.
http://noticias.bol.uol.com.br/internacional/2010/05/29/lula-salta-para-a-primeira-divisao-da-diplomacia-mundial.jhtm
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domingo, 23 de maio de 2010
Bresser Pereira: O Irã e o império decadente
Na Folha de São Paulo de 23.05.2010
via Blog do Nassif
Há algum tempo, o establishment mundial recebeu com um misto de irritação e descrença a notícia de que o presidente Lula se dispunha a intermediar a questão do Irã.
Na semana passada a diplomacia brasileira alcançou um êxito histórico em Teerã ao lograr que o governo nacionalista islâmico do Irã aceitasse o acordo sobre a troca de urânio pouco enriquecido por urânio enriquecido a 20% nos mesmos termos que as grandes potências e a AIEA(agência atômica da ONU) haviam proposto há seis meses.
Não obstante, alegando que o acordo não assegura que o Irã não utilizará o restante do urânio em seu poder para se tornar potência nuclear, os EUA conseguiram convencer as demais grandes potências a levar ao Conselho de Segurança da ONU a proposta de novas sanções ao Irã. E adicionaram mais uma “razão”: assim, evitam que seu aliado Israel bombardeie o Irã. Significa isso que o acordo de Teerã fracassou?
As razões para ignorar o acordo bem pensado e realizado não se sustentam. A recusa dos EUA de continuar a negociação a partir dele deixou mais uma vez claro que seu objetivo principal não é evitar que o Irã tenha a bomba, mas é desestabilizar seu governo.
Desde a Revolução Islâmica de 1979, os EUA vêm procurando derrubar o governo nacionalista iraniano. Primeiro, porque o regime seria fundamentalista; depois, porque ameaçaria Israel.
Nesse sentido, suas ações não se limitaram ao “soft power” e à diplomacia, mas foram militares. Em 1981, financiaram uma guerra mortífera do Iraque de Saddam Hussein contra o Irã, que durou quase dez anos e terminou com a derrota da coligação americano-iraquiana.
Agora, depois de haver invadido e submetido seu antigo aliado, voltam- se de novo contra o regime dos aiatolás e de seu boquirroto e autoritário presidente, Mahmoud Ahmadinejad.
Mostram, assim, coerência em sua política imperial de controle político-militar do Oriente Médio. O fato de a China ter concordado em assinar o pedido de mais sanções significaria que não usará seu poder de veto no Conselho de Segurança? É possível, mas não é provável. A China assinou o pedido para, neste momento, não aumentar seu contencioso com os EUA, que já é grande.
Por isso, é bem possível que o acordo de Teerã e as reações que está provocando levem os chineses, que não têm interesse em que os EUA e a Europa aumentem ainda mais seu poder no Oriente Médio, afinal a recusar seu voto às sanções.
Os EUA são um império em decadência que tenta ser imperial em uma fase da história mundial na qual os impérios não fazem mais sentido.
Os dois últimos grandes impérios foram o britânico e o soviético. Fracassaram por diferentes razões, mas principalmente porque hoje mesmo países mais atrasados são membros plenos da ONU e não aceitam a dominação imperial.
Não obstante, os EUA insistem em terem bases militares espalhadas em todo o mundo para “legitimar” a imposição de sua vontade. Sabemos, porém, que não é com armas, mas com bons argumentos e com concessões mútuas que haverá paz entre as nações.
*LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC).
http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2010/05/23/o-imperio-decadente/#more-63116
via Blog do Nassif
Há algum tempo, o establishment mundial recebeu com um misto de irritação e descrença a notícia de que o presidente Lula se dispunha a intermediar a questão do Irã.
Na semana passada a diplomacia brasileira alcançou um êxito histórico em Teerã ao lograr que o governo nacionalista islâmico do Irã aceitasse o acordo sobre a troca de urânio pouco enriquecido por urânio enriquecido a 20% nos mesmos termos que as grandes potências e a AIEA(agência atômica da ONU) haviam proposto há seis meses.
Não obstante, alegando que o acordo não assegura que o Irã não utilizará o restante do urânio em seu poder para se tornar potência nuclear, os EUA conseguiram convencer as demais grandes potências a levar ao Conselho de Segurança da ONU a proposta de novas sanções ao Irã. E adicionaram mais uma “razão”: assim, evitam que seu aliado Israel bombardeie o Irã. Significa isso que o acordo de Teerã fracassou?
As razões para ignorar o acordo bem pensado e realizado não se sustentam. A recusa dos EUA de continuar a negociação a partir dele deixou mais uma vez claro que seu objetivo principal não é evitar que o Irã tenha a bomba, mas é desestabilizar seu governo.
Desde a Revolução Islâmica de 1979, os EUA vêm procurando derrubar o governo nacionalista iraniano. Primeiro, porque o regime seria fundamentalista; depois, porque ameaçaria Israel.
Nesse sentido, suas ações não se limitaram ao “soft power” e à diplomacia, mas foram militares. Em 1981, financiaram uma guerra mortífera do Iraque de Saddam Hussein contra o Irã, que durou quase dez anos e terminou com a derrota da coligação americano-iraquiana.
Agora, depois de haver invadido e submetido seu antigo aliado, voltam- se de novo contra o regime dos aiatolás e de seu boquirroto e autoritário presidente, Mahmoud Ahmadinejad.
Mostram, assim, coerência em sua política imperial de controle político-militar do Oriente Médio. O fato de a China ter concordado em assinar o pedido de mais sanções significaria que não usará seu poder de veto no Conselho de Segurança? É possível, mas não é provável. A China assinou o pedido para, neste momento, não aumentar seu contencioso com os EUA, que já é grande.
Por isso, é bem possível que o acordo de Teerã e as reações que está provocando levem os chineses, que não têm interesse em que os EUA e a Europa aumentem ainda mais seu poder no Oriente Médio, afinal a recusar seu voto às sanções.
Os EUA são um império em decadência que tenta ser imperial em uma fase da história mundial na qual os impérios não fazem mais sentido.
Os dois últimos grandes impérios foram o britânico e o soviético. Fracassaram por diferentes razões, mas principalmente porque hoje mesmo países mais atrasados são membros plenos da ONU e não aceitam a dominação imperial.
Não obstante, os EUA insistem em terem bases militares espalhadas em todo o mundo para “legitimar” a imposição de sua vontade. Sabemos, porém, que não é com armas, mas com bons argumentos e com concessões mútuas que haverá paz entre as nações.
*LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA, professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (governo Sarney), da Administração e Reforma do Estado (primeiro governo FHC) e da Ciência e Tecnologia (segundo governo FHC).
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BBC Brasil: Não se pode pedir confiança ao Irã com ameaças, diz Amorim
O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, disse nesta sexta-feira, em entrevista à BBC Brasil, que as potências ocidentais não podem pedir confiança ao Irã e ao mesmo tempo "fazer ameaças".
"Esse acordo foi idealizado por eles (potências) como forma de se criar confiança. Bom, você não pode tentar criar confiança e ao mesmo tempo fazer ameaças", disse o chanceler, referindo-se à intensificação de um movimento a favor de sanções econômicas a Teerã.
Na entrevista, o chanceler se diz "desapontado" com a reação dos Estados Unidos e outros membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
"Esperamos que se dê pelo menos uma pausa nessa discussão (das sanções), enquanto se vê se esse curso (do acordo) funciona", disse.
O governo brasileiro tem argumentado que o acordo assinado na última segunda-feira com Irã e Turquia é o mesmo que foi apresentado em outubro passado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), com o apoio das grandes potências.
Já o governo americano argumenta que a quantidade de urânio no Irã aumentou significativamente desde então, colocando em xeque a validade do acordo assinado em Teerã.
Segundo Amorim, essa preocupação não foi apresentada oficialmente ao governo brasileiro nos contatos com as principais potências antes da visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Teerã.
"Na verdade, em algumas dessas comunicações, essas autoridades inclusive enfatizaram que o acordo seria uma oportunidade", afirma o ministro.
"Você sempre poderá encontrar outros problemas, outros defeitos, para justificar que a situação mudou", acrescenta.
Clique Entenda a polêmica sobre o programa nuclear iraniano
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Ceticismo
Na avaliação do ministro, o "ceticismo" das potências ocidentais acabou prejudicando as discussões sobre um acordo com o Irã.
Para Amorim, esses países "não acreditaram" que Brasil e Turquia conseguiriam chegar a um entendimento com o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad.
"Eles estavam provavelmente esperando que voltássemos do Irã de mãos vazias e que isso confirmaria que eles estavam certos, e que isso aumentaria a pressão pelas sanções", diz o ministro.
Assistir Veja a entrevista completa com o ministro das relações exteriores, Celso Amorim
"Eu acho que o ceticismo deles era tão grande com relação à possibilidade de a gente obter um acordo que nós não chegamos a esse ponto da discussão", acrescenta.
Contatos
Amorim se diz "esperançoso" de que a resolução com as sanções econômicas ao Irã não chegue a ser votada na ONU, mas nega que o Brasil esteja "buscando votos" contrários à medida.
"Não estamos cabalando voto pra nada. Esse não é nosso papel. E eu espero que nem cheguemos ao ponto de votar as sanções", afirma o ministro.
Nos últimos dias, Amorim conversou por telefone com ministros de países que estão no Conselho de Segurança e que, portanto, poderão votar a favor ou contra as sanções.
Segundo o ministro, o objetivo desses contatos é apenas o de "esclarecer" alguns pontos do acordo, e não de buscar aliados em uma possível votação, como chegou a ser cogitado.
Direitos humanos
Questionado sobre um possível papel do Brasil como interlocutor do Irã em assuntos de direitos humanos, Amorim disse que as questões não podem ser tratadas "todas de uma vez só".
A avaliação do ministro é de que o Brasil pode "dar uma palavrinha ou outra" sobre o assunto, mas não sair "com dedo em riste".
"Além disso, existem outras instâncias para isso, inclusive as multilaterais", disse.
Para o chanceler, "imperfeições" em direitos humanos "existem em muitos países", mas que "certos países, em certos momentos, são singularizados, por motivos que não têm a ver somente com direitos humanos".
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2010/05/100521_amorim_entrevista_fbdt.shtml
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quinta-feira, 20 de maio de 2010
Le Monde: O Sul emergente abre alas e pede passagem
Do blog do Azenha
Irã nuclear: o Sul emergente abre alas e pede passagem, na negociação
19/5/2010, “Opinion”, Le Monde, Paris
http://www.lemonde.fr/opinions/article/2010/05/19/nucleaire-iranien-le-sud-emergent-veut-sa-place-dans-la-negociation_1353888_3232.html
Tradução de Caia Fittipaldi
O Sul emergente já aparecera antes, em cena que provocou frisson e alarido no palco internacional, em domínios do meio ambiente e do comércio. Essa semana, inaugura nova etapa, importante sinal de o quanto aumenta o poder desses países.
Ei-los ativos em terreno que, até agora, permanecia como quase-monopólio das tradicionais “grandes potências”: a proliferação nuclear no Oriente Médio – ou, em resumo, a relação de forças numa região-chave para Europa e Estados Unidos.
Os livros de História guardarão a data – 2ª-feira, 17 de maio –, em que Brasil e Turquia apresentaram à ONU acordo negociado com Teerã, sobre uma das facetas da questão nuclear iraniana.
Pense-se o que se pensar sobre o texto que resultou dessa mediação turco-brasileira, a própria mediação, em estratégia de mostrar fato consumado – não foi mediação solicitada –, muda consideravelmente o quadro mundial. Ela quebra de facto o domínio até agora reservado aos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU: China, EUA, França, Grã-Bretanha e Rússia.
Endereçada exatamente a esses, a mensagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan é clara: nem pensem, em 2010, em porem-se a reinar só vocês, sobre uma ordem internacional na qual o peso das nações evolui a favor de países como os nossos (o Sul emergente estende-se do Egito à África do Sul, da Nigéria à Indonésia).
AMBIÇÕES POLÍTICAS LEGÍTIMAS
Para os que ainda não entenderam: Brasil e Turquia, segunda-feira passada, puseram os pontos nos “is”. São membros, sim, do grupo dito “5 +1”, ou “os Cinco” que, na ONU, discute a questão nuclear iraniana.
O grupo é constituído dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança acima citados, mais a Alemanha. Os cinco países acusam o Irã de descumprir compromissos internacionais e de ignorar várias Resoluções da ONU. Suspeitam que Teerã mantenha um programa de enriquecimento de urânio que parece ter uma única finalidade: militar.
As ambições políticas dos países do Sul são legítimas. Têm de ser acolhidas positivamente. Mas, no caso do dossiê iraniano, a desconfiança dos Cinco tem fundamento. Evidentemente, todos saudaram a iniciativa turco-brasileira como “um passo na direção certa”.
Simultaneamente, para marcar a desconfiança quanto à substância do acordo anunciado em Teerã, os Cinco já avisaram, na 3ª-feira, que manterão a pressão sobre o Irã. Trabalham agora num projeto de Resolução que prevê novas sanções contra a República Islâmica.
Têm razão. O documento turco-brasileiro propõe que uma parte – apenas uma parte – do urânio iraniano seja armazenada no exterior, em troca de combustível enriquecido só aproveitável para uso civil. Assim, não se impede o Irã de produzir o urânio mais potente de que carece para produzir arma nuclear.
Os iranianos já disseram, ontem: não pensam em suspender seu próprio programa de enriquecimento de urânio… Têm razão, pois, os Cinco, que exigem mais.
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Irã nuclear: o Sul emergente abre alas e pede passagem, na negociação
19/5/2010, “Opinion”, Le Monde, Paris
http://www.lemonde.fr/opinions/article/2010/05/19/nucleaire-iranien-le-sud-emergent-veut-sa-place-dans-la-negociation_1353888_3232.html
Tradução de Caia Fittipaldi
O Sul emergente já aparecera antes, em cena que provocou frisson e alarido no palco internacional, em domínios do meio ambiente e do comércio. Essa semana, inaugura nova etapa, importante sinal de o quanto aumenta o poder desses países.
Ei-los ativos em terreno que, até agora, permanecia como quase-monopólio das tradicionais “grandes potências”: a proliferação nuclear no Oriente Médio – ou, em resumo, a relação de forças numa região-chave para Europa e Estados Unidos.
Os livros de História guardarão a data – 2ª-feira, 17 de maio –, em que Brasil e Turquia apresentaram à ONU acordo negociado com Teerã, sobre uma das facetas da questão nuclear iraniana.
Pense-se o que se pensar sobre o texto que resultou dessa mediação turco-brasileira, a própria mediação, em estratégia de mostrar fato consumado – não foi mediação solicitada –, muda consideravelmente o quadro mundial. Ela quebra de facto o domínio até agora reservado aos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU: China, EUA, França, Grã-Bretanha e Rússia.
Endereçada exatamente a esses, a mensagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do primeiro-ministro Recep Tayyip Erdogan é clara: nem pensem, em 2010, em porem-se a reinar só vocês, sobre uma ordem internacional na qual o peso das nações evolui a favor de países como os nossos (o Sul emergente estende-se do Egito à África do Sul, da Nigéria à Indonésia).
AMBIÇÕES POLÍTICAS LEGÍTIMAS
Para os que ainda não entenderam: Brasil e Turquia, segunda-feira passada, puseram os pontos nos “is”. São membros, sim, do grupo dito “5 +1”, ou “os Cinco” que, na ONU, discute a questão nuclear iraniana.
O grupo é constituído dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança acima citados, mais a Alemanha. Os cinco países acusam o Irã de descumprir compromissos internacionais e de ignorar várias Resoluções da ONU. Suspeitam que Teerã mantenha um programa de enriquecimento de urânio que parece ter uma única finalidade: militar.
As ambições políticas dos países do Sul são legítimas. Têm de ser acolhidas positivamente. Mas, no caso do dossiê iraniano, a desconfiança dos Cinco tem fundamento. Evidentemente, todos saudaram a iniciativa turco-brasileira como “um passo na direção certa”.
Simultaneamente, para marcar a desconfiança quanto à substância do acordo anunciado em Teerã, os Cinco já avisaram, na 3ª-feira, que manterão a pressão sobre o Irã. Trabalham agora num projeto de Resolução que prevê novas sanções contra a República Islâmica.
Têm razão. O documento turco-brasileiro propõe que uma parte – apenas uma parte – do urânio iraniano seja armazenada no exterior, em troca de combustível enriquecido só aproveitável para uso civil. Assim, não se impede o Irã de produzir o urânio mais potente de que carece para produzir arma nuclear.
Os iranianos já disseram, ontem: não pensam em suspender seu próprio programa de enriquecimento de urânio… Têm razão, pois, os Cinco, que exigem mais.
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terça-feira, 11 de maio de 2010
Pobres fortaleceram economia brasileira, diz Lula ao receber prêmio da ONU por combate à fome
Do Portal UOL
Após receber o prêmio da ONU “Campeão do Mundo na Batalha Contra a Fome”, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira (10) que foi o consumo das classes menos favorecidas um dos responsáveis pelo fortalecimento da economia nacional, que se descolou do cenário internacional e sofreu menos com os efeitos da crise econômica mundial.
“A classes D e E do Norte e do Nordeste consumiram mais que as classes A e B do Sul e Sudeste, ou seja, os pobres foram à luta para comprar. (...) O que nós fizemos foi garantir um pouquinho para muita gente. E os pobres, que antes ficavam à margem, viraram gente de classe média e compraram coisas que só parte da classe media podia comprar”, destacou o presidente, durante a abertura da reunião Diálogo Brasil-África sobre Segurança Alimentar.
Mais uma vez, o presidente frisou que a soberania de uma nação só se conquista com a independência alimentar e que não se arrepende de ter alocado dinheiro aos mais pobres porque os programas assistenciais, na visão dele, não desestimulam os cidadãos a trabalhar, mas lhe dão força para trilhar suas vidas.
“Quem tem fome não pensa. A dor de estômago é maior do que muita gente imagina. E pessoa que têm fome não viram guerreiro, viram pedinte. A fome não faz guerreiro, faz o ser humano subserviente, humilhado e sem força para brigar contra seus algozes”, exemplificou.
Em seu discurso de improviso, Lula ressaltou que um dos “milagres” que aconteceram no Brasil, durante sua gestão, foi aumentar o valor do salário mínimo, que antes equivalia a 1,4 cesta básica e, atualmente, é avaliado em 2,4 cestas básicas. O presidente afirmou ainda que a “inflação está totalmente controlada”.
"Precisamos garantir a cada cidadão do país que ele possa ter o café da manhã, o almoço e o jantar de cada dia", continua Lula. "Se os dirigentes políticos no mundo não estiverem, cotidianamente, comprometidos com as pessoas que estão em piores situações em seu Estado, em seu país, fica mais difícil tomar decisão em benefício dos mais pobres. A verdade é que normalmente somos eleitos pelos mais pobres, mas quando ganhamos as eleições quem tem acesso aos gabinetes são os mais ricos."
Lula destacou a necessidade de reforma do Comitê de Segurança Alimentar, para que se torne mais representativo e que a cooperação com os países africanos deve ser ampliada após a aprovação do projeto de lei que deve encaminhar ao Congresso, permitindo que a Embrapa realize projetos países estrangeiros.
O mandatário defendeu ainda que os países mais ricos contribuam para melhoria na qualidade de vida e invistam em agricultura nos países africanos, pois, assim, eles passaram a ser “um mercado extraordinário de consumidores” para quem dispõe de produtos de alta tecnologia.
Cooperação Brasil-África
Já o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou que a Reunião Diálogo Brasil-África sobre Segurança Alimentar, Combate à Fome e Desenvolvimento Rural, no Itamaraty, pode levar à execução de medidas que reduzam as dificuldades enfrentadas pelos países em desenvolvimento no mercado externo.
“Esta aproximação nos tornará mais fortes para enfrentar as distorções no comércio internacional”, afirmou ele, referindo-se à existência de barreiras comerciais e imposições de subsídios principalmente sobre os produtos agropecuários.
Em seguida, Amorim afirmou que é um grande orgulho “copatrocinar” um evento como esse. “A África sempre esteve no nosso coração e no nosso espírito. Hoje temos grandes investimentos na África”. O chanceler lembrou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou mais de 20 países africanos em busca de ampliar relações multilaterais.
Participam da reunião hoje, no Itamaraty, representantes dos países africanos, ministros e especialistas. Eles discutirão alternativas para a promoção da agricultura, da segurança alimentar e do desenvolvimento rural a fim de intensificar a cooperação entre o Brasil e os países africanos.
De acordo com o Itamaraty, a cooperação técnica com a África tem aumentado nos últimos anos. Apenas os países africanos recebem atualmente cerca de 60% dos recursos da Agência Brasileira de Cooperação (ABC). Há 50 projetos na área de segurança alimentar operados pela ABC, em 18 países africanos.
Fome Zero na África
O diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Jacques Diouf, elogiou hoje (10) o programa Fome Zero. Segundo ele, o programa deve ser exportado para os países africanos com o objetivo de garantir a segurança alimentar e a qualidade de vida para quem vive nesses países. De acordo com Diouf, a FAO garante os financiamentos e a tecnologia necessários para a execução dos projetos.
“A intenção de executar versões do Fome Zero é importante para o desenvolvimento e levar adiante a experiência e a tecnologia desse programa para avançar nos projetos de segurança alimentar”, disse Diouf, que participa da Reunião Diálogo Brasil-África sobre Segurança Alimentar, Combate à Fome e Desenvolvimento Rural, no Itamaraty.
De acordo com o diretor-geral da FAO, programas como o Fome Zero são um exemplo para o resto do mundo. “Essa iniciativa tem reduzido a pobreza e estimulado uma série de ações. Já reduziu em 28% a fome, de 2004 a 2006”, disse ele.
*Com informações da Agência Brasil
Fonte: http://noticias.uol.com.br/politica/2010/05/10/pobres-fortaleceram-economia-brasileira-diz-lula-ao-receber-premio-da-onu-por-combate-a-fome.jhtm
Após receber o prêmio da ONU “Campeão do Mundo na Batalha Contra a Fome”, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta segunda-feira (10) que foi o consumo das classes menos favorecidas um dos responsáveis pelo fortalecimento da economia nacional, que se descolou do cenário internacional e sofreu menos com os efeitos da crise econômica mundial.
“A classes D e E do Norte e do Nordeste consumiram mais que as classes A e B do Sul e Sudeste, ou seja, os pobres foram à luta para comprar. (...) O que nós fizemos foi garantir um pouquinho para muita gente. E os pobres, que antes ficavam à margem, viraram gente de classe média e compraram coisas que só parte da classe media podia comprar”, destacou o presidente, durante a abertura da reunião Diálogo Brasil-África sobre Segurança Alimentar.
Mais uma vez, o presidente frisou que a soberania de uma nação só se conquista com a independência alimentar e que não se arrepende de ter alocado dinheiro aos mais pobres porque os programas assistenciais, na visão dele, não desestimulam os cidadãos a trabalhar, mas lhe dão força para trilhar suas vidas.
“Quem tem fome não pensa. A dor de estômago é maior do que muita gente imagina. E pessoa que têm fome não viram guerreiro, viram pedinte. A fome não faz guerreiro, faz o ser humano subserviente, humilhado e sem força para brigar contra seus algozes”, exemplificou.
Em seu discurso de improviso, Lula ressaltou que um dos “milagres” que aconteceram no Brasil, durante sua gestão, foi aumentar o valor do salário mínimo, que antes equivalia a 1,4 cesta básica e, atualmente, é avaliado em 2,4 cestas básicas. O presidente afirmou ainda que a “inflação está totalmente controlada”.
"Precisamos garantir a cada cidadão do país que ele possa ter o café da manhã, o almoço e o jantar de cada dia", continua Lula. "Se os dirigentes políticos no mundo não estiverem, cotidianamente, comprometidos com as pessoas que estão em piores situações em seu Estado, em seu país, fica mais difícil tomar decisão em benefício dos mais pobres. A verdade é que normalmente somos eleitos pelos mais pobres, mas quando ganhamos as eleições quem tem acesso aos gabinetes são os mais ricos."
Lula destacou a necessidade de reforma do Comitê de Segurança Alimentar, para que se torne mais representativo e que a cooperação com os países africanos deve ser ampliada após a aprovação do projeto de lei que deve encaminhar ao Congresso, permitindo que a Embrapa realize projetos países estrangeiros.
O mandatário defendeu ainda que os países mais ricos contribuam para melhoria na qualidade de vida e invistam em agricultura nos países africanos, pois, assim, eles passaram a ser “um mercado extraordinário de consumidores” para quem dispõe de produtos de alta tecnologia.
Cooperação Brasil-África
Já o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, afirmou que a Reunião Diálogo Brasil-África sobre Segurança Alimentar, Combate à Fome e Desenvolvimento Rural, no Itamaraty, pode levar à execução de medidas que reduzam as dificuldades enfrentadas pelos países em desenvolvimento no mercado externo.
“Esta aproximação nos tornará mais fortes para enfrentar as distorções no comércio internacional”, afirmou ele, referindo-se à existência de barreiras comerciais e imposições de subsídios principalmente sobre os produtos agropecuários.
Em seguida, Amorim afirmou que é um grande orgulho “copatrocinar” um evento como esse. “A África sempre esteve no nosso coração e no nosso espírito. Hoje temos grandes investimentos na África”. O chanceler lembrou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou mais de 20 países africanos em busca de ampliar relações multilaterais.
Participam da reunião hoje, no Itamaraty, representantes dos países africanos, ministros e especialistas. Eles discutirão alternativas para a promoção da agricultura, da segurança alimentar e do desenvolvimento rural a fim de intensificar a cooperação entre o Brasil e os países africanos.
De acordo com o Itamaraty, a cooperação técnica com a África tem aumentado nos últimos anos. Apenas os países africanos recebem atualmente cerca de 60% dos recursos da Agência Brasileira de Cooperação (ABC). Há 50 projetos na área de segurança alimentar operados pela ABC, em 18 países africanos.
Fome Zero na África
O diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), Jacques Diouf, elogiou hoje (10) o programa Fome Zero. Segundo ele, o programa deve ser exportado para os países africanos com o objetivo de garantir a segurança alimentar e a qualidade de vida para quem vive nesses países. De acordo com Diouf, a FAO garante os financiamentos e a tecnologia necessários para a execução dos projetos.
“A intenção de executar versões do Fome Zero é importante para o desenvolvimento e levar adiante a experiência e a tecnologia desse programa para avançar nos projetos de segurança alimentar”, disse Diouf, que participa da Reunião Diálogo Brasil-África sobre Segurança Alimentar, Combate à Fome e Desenvolvimento Rural, no Itamaraty.
De acordo com o diretor-geral da FAO, programas como o Fome Zero são um exemplo para o resto do mundo. “Essa iniciativa tem reduzido a pobreza e estimulado uma série de ações. Já reduziu em 28% a fome, de 2004 a 2006”, disse ele.
*Com informações da Agência Brasil
Fonte: http://noticias.uol.com.br/politica/2010/05/10/pobres-fortaleceram-economia-brasileira-diz-lula-ao-receber-premio-da-onu-por-combate-a-fome.jhtm
quarta-feira, 5 de maio de 2010
Irã aceita mediação do Brasil em acordo nuclear com potências
Do Portal Terra
O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, concordou "em princípio" com uma mediação do Brasil para ressuscitar um acordo apoiado pela ONU para a troca de combustível nuclear com potências mundiais, informou a agência de notícias semioficial iraniana Fars nesta quarta-feira.
As potências veem o acordo como uma forma de retirar boa parte do urânio de baixo enriquecimento do Irã, o que minimizaria o risco desse material ser usado para armas atômicas. Pelo acordo, o Irã receberia combustível especialmente processado para manter funcionando seu programa de medicina nuclear.
Mas a proposta tem encontrado dificuldades por conta da insistência do Irã de realizar a troca somente em seu território, em vez de enviar o material para o exterior primeiro.
"Em uma conversa por telefone com seu colega venezuelano, Ahmadinejad concordou em princípio com a mediação do Brasil no acordo de troca de combustível nuclear", disse a Fars, citando um comunicado divulgado pelo gabinete do presidente iraniano.
A ideia do acordo surgiu em negociações conduzidas em outubro do ano passado pelo órgão regulador de energia nuclear da ONU, que pedia que o Irã enviasse 1.200 kg de seu urânio de baixo enriquecimento - o suficiente para a fabricação de uma bomba se enriquecido no patamar necessário - para a França e para a Rússia, onde seria convertido em combustível para um reator de pesquisas em Teerã, que fabrica isótopos para o tratamento do câncer.
As potências se recusaram a reescrever o acordo para atender as exigências iranianas. Os Estados Unidos pressionam o Conselho de Segurança da ONU para apoiar uma quarta rodada de sanções internacionais contra o Irã nas próximas semanas. O objetivo é levar o Irã a reduzir suas atividades de enriquecimento de urânio.
O Irã afirma que seu programa de energia nuclear tem o único objetivo de gerar eletricidade, mas o fato de o país não declarar atividades atômicas sensíveis para a ONU e manter as restrições às inspeções das Nações Unidas tem diminuído a confiança no exterior.
Alguns membros não-permanentes do Conselho de Segurança, como Brasil e Turquia, tem buscado ressuscitar o acordo de troca de combustível na tentativa de evitar a imposição de novas sanções à República Islâmica.
O Brasil afirma ser favorável a ressuscitar o compromisso pelo qual o Irã exportaria seu urânio para outro país em troca do combustível nuclear que o país afirma ser necessário para manter seu reator em Teerã funcionando.
Não ficou claro se Ahmadinejad aceitou que a troca seja feita num terceiro país, o que representaria uma grande mudança na posição iraniana. "Ahmadinejad também disse que as questões técnicas devem ser discutidas em Teerã", disse a Fars.
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O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, concordou "em princípio" com uma mediação do Brasil para ressuscitar um acordo apoiado pela ONU para a troca de combustível nuclear com potências mundiais, informou a agência de notícias semioficial iraniana Fars nesta quarta-feira.
As potências veem o acordo como uma forma de retirar boa parte do urânio de baixo enriquecimento do Irã, o que minimizaria o risco desse material ser usado para armas atômicas. Pelo acordo, o Irã receberia combustível especialmente processado para manter funcionando seu programa de medicina nuclear.
Mas a proposta tem encontrado dificuldades por conta da insistência do Irã de realizar a troca somente em seu território, em vez de enviar o material para o exterior primeiro.
"Em uma conversa por telefone com seu colega venezuelano, Ahmadinejad concordou em princípio com a mediação do Brasil no acordo de troca de combustível nuclear", disse a Fars, citando um comunicado divulgado pelo gabinete do presidente iraniano.
A ideia do acordo surgiu em negociações conduzidas em outubro do ano passado pelo órgão regulador de energia nuclear da ONU, que pedia que o Irã enviasse 1.200 kg de seu urânio de baixo enriquecimento - o suficiente para a fabricação de uma bomba se enriquecido no patamar necessário - para a França e para a Rússia, onde seria convertido em combustível para um reator de pesquisas em Teerã, que fabrica isótopos para o tratamento do câncer.
As potências se recusaram a reescrever o acordo para atender as exigências iranianas. Os Estados Unidos pressionam o Conselho de Segurança da ONU para apoiar uma quarta rodada de sanções internacionais contra o Irã nas próximas semanas. O objetivo é levar o Irã a reduzir suas atividades de enriquecimento de urânio.
O Irã afirma que seu programa de energia nuclear tem o único objetivo de gerar eletricidade, mas o fato de o país não declarar atividades atômicas sensíveis para a ONU e manter as restrições às inspeções das Nações Unidas tem diminuído a confiança no exterior.
Alguns membros não-permanentes do Conselho de Segurança, como Brasil e Turquia, tem buscado ressuscitar o acordo de troca de combustível na tentativa de evitar a imposição de novas sanções à República Islâmica.
O Brasil afirma ser favorável a ressuscitar o compromisso pelo qual o Irã exportaria seu urânio para outro país em troca do combustível nuclear que o país afirma ser necessário para manter seu reator em Teerã funcionando.
Não ficou claro se Ahmadinejad aceitou que a troca seja feita num terceiro país, o que representaria uma grande mudança na posição iraniana. "Ahmadinejad também disse que as questões técnicas devem ser discutidas em Teerã", disse a Fars.
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sábado, 24 de abril de 2010
BBC Brasil: Bird vê 'avanços dramáticos' em redução da pobreza no Brasil
Apesar de ainda ter uma das mais altas taxas de desigualdade do mundo, o Brasil conseguiu avanços "dramáticos" em redução da pobreza e distribuição de renda, diz um relatório com indicadores de desenvolvimento divulgado nesta terça-feira pelo Banco Mundial (Bird).
"Enquanto as desigualdades de renda se agravaram na maioria dos países de renda média, o Brasil assistiu a avanços dramáticos tanto em redução da pobreza quanto em distribuição de renda", diz um trecho do documento."A desigualdade permanece entre as mais altas do mundo, mas os avanços recentes mostram que nem sempre o desenvolvimento precisa vir acompanhado de desigualdade", diz o texto sobre o Brasil.
Segundo os indicadores do Bird, a taxa de pobreza do Brasil caiu de 41% no início da década de 90 para entre 33% e 34% em 1995. Depois de se manter nesse nível até 2003, a taxa de pobreza apresentou declínio constante, caindo para 25,6% em 2006.
O documento diz que as taxas de pobreza extrema seguiram padrão semelhante, caindo de 14,5% em 2003 para 9,1% em 2006.
"A redução do número de pessoas vivendo na pobreza foi acompanhada por um declínio na desigualdade de renda", diz o relatório.
De acordo com o Bird, fatores como inflação baixa e programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, tiveram papel importante nesse desempenho.
Outros indicadores
O relatório também destaca os avanços registrados pelo Brasil em outros indicadores sociais, como a redução da taxa de mortalidade infantil, que passou de 56 para 22 em cada mil no período entre 1990 e 2008, em parte devido a melhores índices de vacinação.
Segundo o documento, o Brasil registrou ainda uma rápida redução nos índices de trabalho infantil e aumentou os níveis de frequência escolar.
O relatório traz dados sobre o cumprimento das Metas do Milênio, estabelecidas pelas Nações Unidas em 2000. Elas preveem melhoras em vários indicadores até 2015.
De acordo com o Bird, dez anos depois do lançamento da iniciativa, o progresso tem sido desigual e somente pouco mais da metade dos países com dados disponíveis está no caminho para atingir as metas.
"Cerca de 41% das pessoas em nações de baixa e média renda vivem em países que não devem atingir as metas. E 12% vivem nos 60 países sobre os quais não há dados suficientes para medir o progresso", diz o relatório.
No entanto, segundo o Bird, houve progressos consideráveis nesses 10 anos e, apesar da crise econômica e financeira, "a meta de reduzir pela metade a proporção de pessoas vivendo na extrema pobreza ainda pode ser alcançada em diversas regiões em desenvolvimento".
sábado, 10 de abril de 2010
India Times: Lula, “o cara”
do blog do Azenha
Why Lula Is The Man
Shobhan Saxena, Apr 9, 2010, 12.00am IST
do Times da Índia, via twitter do Tão Gomes Pinto
Brasília — Recentemente, a secretária de Estado dos Estados Unidos Hillary Clinton pressionou o presidente brasileiro Lula da Silva para que o Brasil se juntasse aos Estados Unidos na imposição de novas sanções contra o Irã. Lula rebateu Clinton dizendo que “não é prudente empurrar o Irã contra a parede”. Não é o que Clinton gostaria de ter ouvido de um país que tem um dos assentos não permanentes no Conselho de Segurança das Nações Unidas e faz lobby por um assento permanente.
Subsequentemente, em Tel Aviv, Lula chocou líderes israelenses por se negar a visitar o túmulo do pai do sionismo, Theodore Herzl. Em maio, Lula vai ao Irã para se encontrar com o presidente Ahmadinejad, uma decisão que jornais dos Estados Unidos descreveram como “não representativa de um país que aspira ser considerado um igual entre os líderes do mundo”. Lula está agindo como um líder mundial?
Caçoado pelos comentaristas do Brasil por sua gramática imprecisa, Lula se tornou um hit no palco mundial com seu estilo de homem comum. Na cúpula financeira sobre a crise global em Londres, no ano passado, ao ver Lula o presidente Barack Obama gritou: “Lá está o meu cara. Eu amo esse cara. Ele é o político mais popular da terra”. As declarações de Obama foram feitas apenas alguns dias depois do brasileiro ter atribuído a crise global ao “comportamente irracional dos brancos de olhos azuis que antes da crise pareciam saber tudo sobre economia”. As declarações de Lula fizeram a elite brasileira ranger os dentes.
A nove meses de deixar o poder, Lula viaja o mundo atacando a ONU pelo “sistema de castas”, o mundo rico em Copenhagen e em campanha por um maior papel global para “poderes emergentes” e pregando o “diálogo” com o Irã. Isso fez alguns observadores ocidentais se perguntarem se ele está seguindo os passos de Hugo Chávez como “gladiador da batalha antiimperialista”.
Nada mais distante da realidade. Lula se tornou um herói em casa e um estadista no mundo por razões genuínas. No Brasil, sua taxa de aprovação está em 76%, um recorde para um presidente em fim de mandato. Sua conquistas domésticas foram sem precedentes: desde 2003, ele mais que dobrou o salário mínimo para o equivalente a 300 dólares, ajudou a tirar 20 milhões de brasileiros da pobreza e derrubou a dívida pública para 35% do PIB (de 55%). No ano passado, os reais brasileiros foram a quinta moeda com melhor performance do mundo, a inflação caiu para 4% e o país navegou pela crise econômica mundial quase sem danos.
Graças aos programas sociais de Lula, os maiores beneficiários do crescimento foram os pobres para os quais o presidente, que cresceu engraxando sapatos e dividindo um quarto com a mãe e oito irmãos, é um símbolo de esperança. A popularidade de Lula é tão grande que ele até recebeu crédito pela descoberta de petróleo na costa do Brasil.
O país pode se tornar em breve o terceiro maior produtor de petróleo do mundo e Lula já anunciou planos para gastar a renda do petróleo com programas contra a pobreza.
Naturalmente, Lula cometeu erros. Houve escândalos no governo e ele tem sido criticado pela esquerda do Partido dos Trabalhadores por ter se movido “muito para o Centro”. Mas ninguém questiona sua maior conquista: o posicionamento do Brasil no mundo. Lula converteu o músculo econômico em influência global ao promover o comércio “sul-sul” e crescentes ligações políticas com países em desenvolvimento. O que explica suas posições sobre o Irã, com o qual o comércio do Brasil cresceu 40% desde 2003. A química com Ahmadinejad é tão boa que Obama pediu ao Brasil que medie as relações do Irã com os Estados Unidos, algo que Lula adoraria fazer. Na passagem por Tel Aviv, Lula sugeriu “alguem com neutralidade” para mediar o processo de paz no Oriente Médio. E ele não queria dizer Tony Blair.
Uma vez caçoado pela elite que bebe caipirinha em Copacabana, que “temia” que Lula poderia envergonhar o Brasil no exterior, o ex-operário metalúrgico tem demonstrando um domínio sólido da política externa. Durante seu primeiro mandato, ele trabalhou por relações mais próximas com a Índia, a China e a África do Sul.
Hoje a China, não os Estados Unidos, é o maior parceiro comercial do Brasil. Jogando um papel crucial na criação da IBSA e da BASIC, dois grupos envolvendo o Brasil, a Índia, a China e a África do Sul, Lula se tornou a voz mais forte das nações emergentes em questões globais como as mudanças do clima e a crise financeira. Com o movimento dos não-alinhados morto, esses grupos se tornaram a voz da Ásia, da África e da América Latina em questões globais. Descrevendo Lula como “uma referência para os países emergentes e também para o mundo em desenvolvimento”, em 2009 um importante jornal francês escolheu Lula como “homem do ano”.
Lula é o homem do momento porque ele seguiu uma fórmula simples, a de reforçar a economia doméstica, desligando o sistema financeiro do Brasil dos Estados Unidos, cultivando relações com países emergentes e seguindo uma política externa independente. E é por isso que ele pode falar o que quer em qualquer assunto.
Chamem de sorte, mas a falta de líderes carismáticos em outras nações emergentes também ajudou. Hoje, a China e a Índia são lideradas por tecnocratas, não por líderes de massa, a África do Sul não produziu um líder conhecido desde Nelson Mandela e o presidente da Rússia Vladimir Putin não tem as credenciais democráticas. Neste cenário, Lula agarrou a oportunidade com as duas mãos. Um líder indiano com imaginação poderia ter escrito este papel para si próprio.
Why Lula Is The Man
Shobhan Saxena, Apr 9, 2010, 12.00am IST
do Times da Índia, via twitter do Tão Gomes Pinto
Brasília — Recentemente, a secretária de Estado dos Estados Unidos Hillary Clinton pressionou o presidente brasileiro Lula da Silva para que o Brasil se juntasse aos Estados Unidos na imposição de novas sanções contra o Irã. Lula rebateu Clinton dizendo que “não é prudente empurrar o Irã contra a parede”. Não é o que Clinton gostaria de ter ouvido de um país que tem um dos assentos não permanentes no Conselho de Segurança das Nações Unidas e faz lobby por um assento permanente.
Subsequentemente, em Tel Aviv, Lula chocou líderes israelenses por se negar a visitar o túmulo do pai do sionismo, Theodore Herzl. Em maio, Lula vai ao Irã para se encontrar com o presidente Ahmadinejad, uma decisão que jornais dos Estados Unidos descreveram como “não representativa de um país que aspira ser considerado um igual entre os líderes do mundo”. Lula está agindo como um líder mundial?
Caçoado pelos comentaristas do Brasil por sua gramática imprecisa, Lula se tornou um hit no palco mundial com seu estilo de homem comum. Na cúpula financeira sobre a crise global em Londres, no ano passado, ao ver Lula o presidente Barack Obama gritou: “Lá está o meu cara. Eu amo esse cara. Ele é o político mais popular da terra”. As declarações de Obama foram feitas apenas alguns dias depois do brasileiro ter atribuído a crise global ao “comportamente irracional dos brancos de olhos azuis que antes da crise pareciam saber tudo sobre economia”. As declarações de Lula fizeram a elite brasileira ranger os dentes.
A nove meses de deixar o poder, Lula viaja o mundo atacando a ONU pelo “sistema de castas”, o mundo rico em Copenhagen e em campanha por um maior papel global para “poderes emergentes” e pregando o “diálogo” com o Irã. Isso fez alguns observadores ocidentais se perguntarem se ele está seguindo os passos de Hugo Chávez como “gladiador da batalha antiimperialista”.
Nada mais distante da realidade. Lula se tornou um herói em casa e um estadista no mundo por razões genuínas. No Brasil, sua taxa de aprovação está em 76%, um recorde para um presidente em fim de mandato. Sua conquistas domésticas foram sem precedentes: desde 2003, ele mais que dobrou o salário mínimo para o equivalente a 300 dólares, ajudou a tirar 20 milhões de brasileiros da pobreza e derrubou a dívida pública para 35% do PIB (de 55%). No ano passado, os reais brasileiros foram a quinta moeda com melhor performance do mundo, a inflação caiu para 4% e o país navegou pela crise econômica mundial quase sem danos.
Graças aos programas sociais de Lula, os maiores beneficiários do crescimento foram os pobres para os quais o presidente, que cresceu engraxando sapatos e dividindo um quarto com a mãe e oito irmãos, é um símbolo de esperança. A popularidade de Lula é tão grande que ele até recebeu crédito pela descoberta de petróleo na costa do Brasil.
O país pode se tornar em breve o terceiro maior produtor de petróleo do mundo e Lula já anunciou planos para gastar a renda do petróleo com programas contra a pobreza.
Naturalmente, Lula cometeu erros. Houve escândalos no governo e ele tem sido criticado pela esquerda do Partido dos Trabalhadores por ter se movido “muito para o Centro”. Mas ninguém questiona sua maior conquista: o posicionamento do Brasil no mundo. Lula converteu o músculo econômico em influência global ao promover o comércio “sul-sul” e crescentes ligações políticas com países em desenvolvimento. O que explica suas posições sobre o Irã, com o qual o comércio do Brasil cresceu 40% desde 2003. A química com Ahmadinejad é tão boa que Obama pediu ao Brasil que medie as relações do Irã com os Estados Unidos, algo que Lula adoraria fazer. Na passagem por Tel Aviv, Lula sugeriu “alguem com neutralidade” para mediar o processo de paz no Oriente Médio. E ele não queria dizer Tony Blair.
Uma vez caçoado pela elite que bebe caipirinha em Copacabana, que “temia” que Lula poderia envergonhar o Brasil no exterior, o ex-operário metalúrgico tem demonstrando um domínio sólido da política externa. Durante seu primeiro mandato, ele trabalhou por relações mais próximas com a Índia, a China e a África do Sul.
Hoje a China, não os Estados Unidos, é o maior parceiro comercial do Brasil. Jogando um papel crucial na criação da IBSA e da BASIC, dois grupos envolvendo o Brasil, a Índia, a China e a África do Sul, Lula se tornou a voz mais forte das nações emergentes em questões globais como as mudanças do clima e a crise financeira. Com o movimento dos não-alinhados morto, esses grupos se tornaram a voz da Ásia, da África e da América Latina em questões globais. Descrevendo Lula como “uma referência para os países emergentes e também para o mundo em desenvolvimento”, em 2009 um importante jornal francês escolheu Lula como “homem do ano”.
Lula é o homem do momento porque ele seguiu uma fórmula simples, a de reforçar a economia doméstica, desligando o sistema financeiro do Brasil dos Estados Unidos, cultivando relações com países emergentes e seguindo uma política externa independente. E é por isso que ele pode falar o que quer em qualquer assunto.
Chamem de sorte, mas a falta de líderes carismáticos em outras nações emergentes também ajudou. Hoje, a China e a Índia são lideradas por tecnocratas, não por líderes de massa, a África do Sul não produziu um líder conhecido desde Nelson Mandela e o presidente da Rússia Vladimir Putin não tem as credenciais democráticas. Neste cenário, Lula agarrou a oportunidade com as duas mãos. Um líder indiano com imaginação poderia ter escrito este papel para si próprio.
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quinta-feira, 25 de março de 2010
Folha de São Paulo: Prefeitura de SP ataca relatório da ONU que elogia PT
ANTÔNIO GOIS
DA SUCURSAL DO RIO
Um relatório sobre a cidade de São Paulo encomendado pelo UN-Habitat (Programa das Nações Unidas sobre Assentamentos Humanos) gerou uma crise com a Prefeitura de São Paulo. Sua divulgação, prevista para ontem no 5º Fórum Urbano Mundial, foi suspensa.
O texto elogia a política habitacional de Marta Suplicy (PT) e critica, sem citar nomes, seus sucessores José Serra (PSDB) e Gilberto Kassab (DEM).
Após ter acesso a um rascunho do relatório "São Paulo: um Conto de Duas Cidades", a superintendente de habitação popular da prefeitura, Elisabete França, enviou e-mail ao chefe da divisão de pesquisas do UN-Habitat, Eduardo Moreno, reclamando que o texto, do consultor independente Christopher Horwood, "mais parece um panfleto político do que um estudo técnico".
O UN-Habitat recuou. Alberto Paranhos, autoridade principal do escritório para América Latina e Caribe, disse que será marcada nova data, mas só após o autor do texto apresentar suas críticas à prefeitura e ouvir suas considerações.
"Não temos problema em criticar, mas adotamos como prática apresentar as críticas antes para dar direito de réplica e ter certeza de que o que está escrito é verdadeiro. No caso desse documento, quando descobrimos que ele já estava sendo impresso, suspendemos o processo. Mas algumas cópias acabaram sendo divulgadas", afirmou Paranhos.
A Folha foi um dos veículos a ter acesso ao relatório. Os quatro primeiros capítulos trazem dados de uma pesquisa feita em parceria com a Fundação Seade, vinculada ao governo de São Paulo. No quinto parágrafo, é feita uma análise das políticas públicas habitacionais.
O texto diz que a gestão Marta "marcou importante era na política habitacional de São Paulo", citando positivamente a criação das Zonas Especiais de Interesse Social, o programa Bairro Legal e os Centros Educacionais Unificados.
O documento afirma que os sucessores da petista não deram continuidade a algumas dessas políticas e que especialistas consultados "concordam que as autoridades municipais não estão cientes ou comprometidas com a melhoria das condições de vida em cortiços e favelas".
A Folha tentou entrar em contato com Horwood, mas não conseguiu localizá-lo.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2503201027.htm
Clique aqui para ir ao relatório da UN-Habitat...
Ou aqui...
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quarta-feira, 24 de março de 2010
Por Lula, Índia abriria mão de indicar candidato a secretário-geral da ONU, diz diplomata
Do Portal UOL
Após a derrota de seu candidato para o sul-coreano Ban Ki-moon em 2007, o governo indiano avalia que terá no ano que vem mais chances de indicar o próximo secretário-geral das Nações Unidas. Mas se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estiver entre os postulantes, abriria mão da disputa por ver nele a personificação dos países emergentes e da capacidade de mediação entre ricos e pobres, disse ao UOL Notícias um diplomata ligado à Índia e à ONU.
De acordo com ele, a derrota de Shashi Tharoor – atual ministro indiano das Relações Exteriores e ex-subsecretário de Comunicação da ONU – sinalizou que o Sul da Ásia, onde a Índia é a principal potência, será decisivo na próxima indicação nas Nações Unidas, prevista para o fim de 2011. Depois de três mandatos de africanos (um com o egípcio Boutros Boutros-Ghalli e dois com o ganês Kofi Annan), a Ásia teria a primazia de reconduzir Ban ao cargo ou de apontar outro representante.
“Sabemos que essa não é uma disputa fácil, mas o governo da Índia já sinalizou ao presidente Lula que, se ele estiver disposto, contaria com o apoio do Sul da Ásia”, disse o diplomata. “Não se trata de desistir de indicar um indiano. Isso apenas ficaria mais para a frente. O presidente provavelmente teria de ter o apoio da América Latina se quiser ser candidato, para que no futuro isso seja retribuído ao Sul da Ásia.”
O diplomata, que pediu para não ser identificado, disse que o assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, e o ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Samuel Pinheiro Guimarães, foram informados sobre a sinalização indiana. Procurados pela reportagem, não foram encontrados.
Na eleição de 2007, Tharoor começou a disputa como favorito, mas o apoio a Ban foi maior. Mais tarde, veículos de imprensa europeus informaram que os Estados Unidos – durante o governo de George W.Bush – vetaram o indiano para evitar rusgas com o rival Paquistão e por preferirem um diplomata mais discreto, como sul-coreano. A China, que tem tensões fronteiriças com a Índia, se absteve.
O secretário-geral é indicado pela Assembleia-Geral depois de recomendação do Conselho de Segurança, formado por cinco membros permanentes: EUA, Grã-Bretanha, França, China e Rússia. As reuniões do grupo para discutir a indicação são secretas e somam também seus nove membros rotativos.
Para dar apoio ou retirá-lo, os países dão votos de “estímulo” ou de desencorajamento” no conselho. O nome só pode ser aprovado se todos os membros permanentes não impedirem e pelo menos quatro outros derem suporte.
Para o diplomata, Tharoor ainda poderia se candidatar mais adiante – apesar de ter deixado a ONU depois da derrota – porque ainda é muito jovem: tem apenas 44 anos de idade. O último latino-americano a ocupar o cargo foi o peruano Javier Pérez de Cuellar, entre 1982 e 1991.
Os membros permanentes do Conselho de Segurança evitam indicar candidatos a secretário-geral para não concentrar poder. O Brasil, assim como a Índia, pleiteiam a ampliação do grupo, formado no contexto da Segunda Guerra Mundial. África do Sul, Alemanha, Japão e Austrália também fazem pressão diplomática para entrar no clube.
Recusa ou falta de apoio?
Depois de o nome de Lula ser lançado pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy, em uma reunião do G20, o governo brasileiro rejeitou as especulações. À mídia europeia, diplomatas das Nações Unidas disseram que o brasileiro correria risco de veto dos EUA e da Grã-Bretanha por sua aproximação com o Irã.
Em maio, em retribuição à visita do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, Lula visitará o país – que faz parte do Sul da Ásia – apesar das tensões internacionais por conta dos riscos de o regime teocrático buscar enriquecimento de urânio. Potências ocidentais dizem o objetivo disso é obter armas atômicas, o que Teerã rejeita.
Apesar do reconhecimento internacional por sua defesa dos países emergentes, em especial africanos, asiáticos e latino-americanos, Lula recebeu críticas internacionalmente por declarações sobre regimes quase tão controversos quanto o do Irã, como a Venezuela sob o presidente Hugo Chávez e Cuba, dos irmãos Fidel e Raúl Castro.
Antes de morrer em um atentado terrorista no Iraque em 2003, o diplomata Sérgio Viera de Mello, Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, era cotado como favorito a suceder o ex-secretário-geral Kofi Annan.
http://noticias.uol.com.br/politica/2010/03/24/por-lula-india-abriria-mao-de-indicar-candidato-a-secretario-geral-da-onu-diz-diplomata.jhtm
Maurício Savarese
Do UOL Notícias
Do UOL Notícias
Em São Paulo
Após a derrota de seu candidato para o sul-coreano Ban Ki-moon em 2007, o governo indiano avalia que terá no ano que vem mais chances de indicar o próximo secretário-geral das Nações Unidas. Mas se o presidente Luiz Inácio Lula da Silva estiver entre os postulantes, abriria mão da disputa por ver nele a personificação dos países emergentes e da capacidade de mediação entre ricos e pobres, disse ao UOL Notícias um diplomata ligado à Índia e à ONU.
De acordo com ele, a derrota de Shashi Tharoor – atual ministro indiano das Relações Exteriores e ex-subsecretário de Comunicação da ONU – sinalizou que o Sul da Ásia, onde a Índia é a principal potência, será decisivo na próxima indicação nas Nações Unidas, prevista para o fim de 2011. Depois de três mandatos de africanos (um com o egípcio Boutros Boutros-Ghalli e dois com o ganês Kofi Annan), a Ásia teria a primazia de reconduzir Ban ao cargo ou de apontar outro representante.
“Sabemos que essa não é uma disputa fácil, mas o governo da Índia já sinalizou ao presidente Lula que, se ele estiver disposto, contaria com o apoio do Sul da Ásia”, disse o diplomata. “Não se trata de desistir de indicar um indiano. Isso apenas ficaria mais para a frente. O presidente provavelmente teria de ter o apoio da América Latina se quiser ser candidato, para que no futuro isso seja retribuído ao Sul da Ásia.”
O diplomata, que pediu para não ser identificado, disse que o assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, e o ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Samuel Pinheiro Guimarães, foram informados sobre a sinalização indiana. Procurados pela reportagem, não foram encontrados.
O secretário-geral é indicado pela Assembleia-Geral depois de recomendação do Conselho de Segurança, formado por cinco membros permanentes: EUA, Grã-Bretanha, França, China e Rússia. As reuniões do grupo para discutir a indicação são secretas e somam também seus nove membros rotativos.
Para dar apoio ou retirá-lo, os países dão votos de “estímulo” ou de desencorajamento” no conselho. O nome só pode ser aprovado se todos os membros permanentes não impedirem e pelo menos quatro outros derem suporte.
Para o diplomata, Tharoor ainda poderia se candidatar mais adiante – apesar de ter deixado a ONU depois da derrota – porque ainda é muito jovem: tem apenas 44 anos de idade. O último latino-americano a ocupar o cargo foi o peruano Javier Pérez de Cuellar, entre 1982 e 1991.
Recusa ou falta de apoio?
Depois de o nome de Lula ser lançado pelo presidente francês, Nicolas Sarkozy, em uma reunião do G20, o governo brasileiro rejeitou as especulações. À mídia europeia, diplomatas das Nações Unidas disseram que o brasileiro correria risco de veto dos EUA e da Grã-Bretanha por sua aproximação com o Irã.
Em maio, em retribuição à visita do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, Lula visitará o país – que faz parte do Sul da Ásia – apesar das tensões internacionais por conta dos riscos de o regime teocrático buscar enriquecimento de urânio. Potências ocidentais dizem o objetivo disso é obter armas atômicas, o que Teerã rejeita.
Apesar do reconhecimento internacional por sua defesa dos países emergentes, em especial africanos, asiáticos e latino-americanos, Lula recebeu críticas internacionalmente por declarações sobre regimes quase tão controversos quanto o do Irã, como a Venezuela sob o presidente Hugo Chávez e Cuba, dos irmãos Fidel e Raúl Castro.
Antes de morrer em um atentado terrorista no Iraque em 2003, o diplomata Sérgio Viera de Mello, Alto Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, era cotado como favorito a suceder o ex-secretário-geral Kofi Annan.
http://noticias.uol.com.br/politica/2010/03/24/por-lula-india-abriria-mao-de-indicar-candidato-a-secretario-geral-da-onu-diz-diplomata.jhtm
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terça-feira, 9 de março de 2010
Irã espera que China resista a pressão por sanções
No tabuleiro de xadrez que é a política internacional, o lance agora é do Irã que apela para aliados regionais, como a China, a manutenção de posturas independentes em relação a pressões do Ocidente, liderado pelos EUA e Israel, que não vêem com bons olhos um país islâmico dominar o círculo do urânio, inclusive teconologia de lançamento de vetores com alcances cada vez maiores. Principalmente quando este país diz, por intermédio de seu representante, que quer varrer Israel do mapa e nega a existência do holocausto judeu na segunda guerra. Apesar de critérios compensatórios serem elementos importantes nestas relações, eles não são tão simples de se entender e, normalmente vêm combinados com outros fatores, que podem ser políticos e econômicos e aí, com relação à China, vai na conta dos EUA o apoio ao Tibet e a Taiwan e a crítica permanente à violação dos direitos humanos no país comunista. Não se pode esquecer que o Irã é fornecedor de petróleo para a China e uma peça importante para impedir uma presença mais efetiva dos EUA naquela região. Mas os EUA também têm seus alidados...
TEERÃ (Reuters) - O governo do Irã disse nesta terça-feira esperar que a China não ceda às pressões por novas sanções contra a República Islâmica por seu programa nuclear que os EUA e seus aliados esperam aprovar no Conselho de Segurança da ONU.
"A China é um grande país que goza de poder suficiente para tomar suas próprias decisões independentemente de ser pressionado pela América", disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã Ramin Mehmanparast numa entrevista coletiva em Teerã.
"Claro que as nossas expectativas de um país tão grande... são que eles adotem suas políticas internacionais de forma independente e apenas observem seus próprios interesses nacionais", acrescentou o porta-voz, citando a relação próxima entre Irã e China.
O Ministério do Exterior da China disse no domingo que novas sanções contra o Irã não resolveriam o impasse sobre o programa nuclear do país, que o Ocidente afirma ter como propósito a construção de armas nucleares. Teerã alega que seu interesse é apenas gerar eletricidade.
Os Estados Unidos e outras potências ocidentais querem que a China aprove uma resolução da ONU impondo novas sanções ao Irã, que é um importante fornecedor de petróleo para a China. O governo de Pequim já demonstrou outras vezes ser contra as sanções.
O esboço de um documento proposto pelo Ocidente pede o bloqueio de mais contas iranianas no exterior, mas não inclui medidas contra as indústrias de petróleo e gás do país.
A China é um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança de ONU que têm direito a de veto.
(Reportagem de Reza Derakhshi)
TEERÃ (Reuters) - O governo do Irã disse nesta terça-feira esperar que a China não ceda às pressões por novas sanções contra a República Islâmica por seu programa nuclear que os EUA e seus aliados esperam aprovar no Conselho de Segurança da ONU.
"A China é um grande país que goza de poder suficiente para tomar suas próprias decisões independentemente de ser pressionado pela América", disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã Ramin Mehmanparast numa entrevista coletiva em Teerã.
"Claro que as nossas expectativas de um país tão grande... são que eles adotem suas políticas internacionais de forma independente e apenas observem seus próprios interesses nacionais", acrescentou o porta-voz, citando a relação próxima entre Irã e China.
O Ministério do Exterior da China disse no domingo que novas sanções contra o Irã não resolveriam o impasse sobre o programa nuclear do país, que o Ocidente afirma ter como propósito a construção de armas nucleares. Teerã alega que seu interesse é apenas gerar eletricidade.
Os Estados Unidos e outras potências ocidentais querem que a China aprove uma resolução da ONU impondo novas sanções ao Irã, que é um importante fornecedor de petróleo para a China. O governo de Pequim já demonstrou outras vezes ser contra as sanções.
O esboço de um documento proposto pelo Ocidente pede o bloqueio de mais contas iranianas no exterior, mas não inclui medidas contra as indústrias de petróleo e gás do país.
A China é um dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança de ONU que têm direito a de veto.
(Reportagem de Reza Derakhshi)
terça-feira, 2 de março de 2010
China mantém abordagem diplomática ao Irã
Da Reuters
Por Chris Buckley
PEQUIM (Reuters) - A China reiterou que a diplomacia é a melhor forma de resolver o impasse em torno do programa nuclear iraniano, enquanto diplomatas dos EUA chegavam a Pequim para discutir as ambições nucleares de Teerã e da Coreia do Norte.
O subsecretário de Estado James Steinberg é a principal autoridade dos EUA a visitar Pequim desde a onda de atritos entre os dois países por causa de questões relativas a censura na Internet, comércio, venda de armas a Taiwan e liberdades no Tibet.
Washington e outros governos ocidentais querem o apoio da China para novas sanções da ONU ao Irã, por causa das suspeitas de que o país estaria desenvolvendo armas nucleares -- intenção que Teerã nega reiteradamente possuir.
Dos cinco países com poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, a China é o mais resistente ao uso de sanções contra o Irã, argumentando que a diplomacia poderia resolver a questão.
Qin Gang, porta-voz da chancelaria chinesa, sugeriu na terça-feira que Pequim vai levar o tempo que for necessário na negociação. "Acreditamos que ainda há margem para esforços diplomáticos, e que as partes envolvidas devem intensificar esses esforços", afirmou Qin a jornalistas.
Analistas e autoridades estrangeiras dizem que a China irá resistir a eventuais sanções que ameacem a oferta de petróleo e os investimentos chineses no Irã, mas a maioria acredita que Pequim aceitaria sanções mais "engessadas", com efeito mais simbólico do que prático.
O Irã foi no ano passado a terceira principal fonte de petróleo importado para a China.
De acordo com Philip Crowley, porta-voz do Departamento de Estado, Steinberg deve discutir também a questão da Coreia do Norte, cujo arsenal nuclear alarma os vizinhos do regime comunista e também os EUA.
Os cinco países envolvidos nas negociações nucleares com Pyongyang tentam retomar o processo, abandonado por iniciativa norte-coreana há um ano. Em geral, a Coreia do Norte impõe condições para retomar o diálogo, em especial o fim das sanções da ONU e uma negociação direta com Washington para a assinatura de um tratado que paz que substitua o armistício que encerrou a Guerra da Coreia (1950-53).
Washington espera que a visita de Steinberg e do diretor de assuntos asiáticos do Conselho de Segurança Nacional, Jeffrey Bader, leve a uma melhora nas relações sino-americanas.
"Passamos por um caminho um pouco acidentado, e acho que há um interesse tanto dentro dos Estados Unidos quanto na China de normalizar as coisas assim que possível", disse Crowley a jornalistas.
Por Chris Buckley
PEQUIM (Reuters) - A China reiterou que a diplomacia é a melhor forma de resolver o impasse em torno do programa nuclear iraniano, enquanto diplomatas dos EUA chegavam a Pequim para discutir as ambições nucleares de Teerã e da Coreia do Norte.
O subsecretário de Estado James Steinberg é a principal autoridade dos EUA a visitar Pequim desde a onda de atritos entre os dois países por causa de questões relativas a censura na Internet, comércio, venda de armas a Taiwan e liberdades no Tibet.
Washington e outros governos ocidentais querem o apoio da China para novas sanções da ONU ao Irã, por causa das suspeitas de que o país estaria desenvolvendo armas nucleares -- intenção que Teerã nega reiteradamente possuir.
Dos cinco países com poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, a China é o mais resistente ao uso de sanções contra o Irã, argumentando que a diplomacia poderia resolver a questão.
Qin Gang, porta-voz da chancelaria chinesa, sugeriu na terça-feira que Pequim vai levar o tempo que for necessário na negociação. "Acreditamos que ainda há margem para esforços diplomáticos, e que as partes envolvidas devem intensificar esses esforços", afirmou Qin a jornalistas.
Analistas e autoridades estrangeiras dizem que a China irá resistir a eventuais sanções que ameacem a oferta de petróleo e os investimentos chineses no Irã, mas a maioria acredita que Pequim aceitaria sanções mais "engessadas", com efeito mais simbólico do que prático.
O Irã foi no ano passado a terceira principal fonte de petróleo importado para a China.
De acordo com Philip Crowley, porta-voz do Departamento de Estado, Steinberg deve discutir também a questão da Coreia do Norte, cujo arsenal nuclear alarma os vizinhos do regime comunista e também os EUA.
Os cinco países envolvidos nas negociações nucleares com Pyongyang tentam retomar o processo, abandonado por iniciativa norte-coreana há um ano. Em geral, a Coreia do Norte impõe condições para retomar o diálogo, em especial o fim das sanções da ONU e uma negociação direta com Washington para a assinatura de um tratado que paz que substitua o armistício que encerrou a Guerra da Coreia (1950-53).
Washington espera que a visita de Steinberg e do diretor de assuntos asiáticos do Conselho de Segurança Nacional, Jeffrey Bader, leve a uma melhora nas relações sino-americanas.
"Passamos por um caminho um pouco acidentado, e acho que há um interesse tanto dentro dos Estados Unidos quanto na China de normalizar as coisas assim que possível", disse Crowley a jornalistas.
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sábado, 27 de fevereiro de 2010
Erros diplomáticos de Israel provocam alarme
Financial Times
À primeira vista, a morte violenta de um dirigente do Hamas em Dubai, no mês passado, pareceria ter pouco em comum com a altura dos sofás no Ministério das Relações Exteriores de Israel. Ou as recentes ameaças do ministro das Relações Exteriores de Israel contra o presidente da Síria. Ou a recusa rude de um alto funcionário israelense em receber um grupo de legisladores americanos na semana passada.
Mas há um tema que os liga: todos falam da capacidade de Israel de irritar seus vizinhos, antagonizar seus aliados e aprofundar o isolamento do país. Em um momento em que Israel já está diplomaticamente na defensiva por todo o mundo e cambaleando da reação negativa internacional contra a guerra na Faixa de Gaza no ano passado, é um hábito que está começando a alarmar muitas pessoas, inclusive dentro do próprio Israel.
Há, é claro, uma boa chance de que o assassinato de Mahmoud al Mabhouh nunca seja conclusivamente ligado ao serviço secreto de Israel. Mas a suposição predominante de que os assassinos foram de fato enviados pelo Mossad –utilizando passaportes britânicos, irlandeses, alemães e franceses para a viagem– já estremeceu os laços de Israel com esses países aliados europeus.
Israel não tem relacionamento oficial com Dubai que poderia estragar. Mas o emirado é um dos países árabes considerados “moderados” por Israel, e forma um bloco potencialmente importante na aliança contra o Irã. Em outras palavras, não é um campo de batalha ideal para a guerra secreta de Israel contra os militantes palestinos.
A aliança estratégica crucial de Israel com a Turquia, por sua vez, está abalada pelo recente caso “Sofagate”. Em uma ação que enfureceu tanto o governo quanto a opinião pública turca, o embaixador turco foi instruído pelo vice-ministro das Relações Exteriores de Israel a se sentar em um sofá baixo, em uma aparente tentativa de humilhar o emissário diante da mídia israelense. Danny Ayalon foi posteriormente forçado a pedir desculpas, mas há pouca dúvida de que o episódio causou um dano duradouro a uma das alianças mais importantes de Israel.
O incidente não foi um caso isolado. Sob Avigdor Lieberman, o ministro das Relações Exteriores e líder do partido de extrema direita Yisrael Beiteinu, Israel parece ter abraçado uma escola de diplomacia que gosta de fala rude e gestos provocadores. Em sua mais recente explosão, Lieberman alertou o presidente sírio de que ele e sua família seriam derrubados do poder caso ocorra outra guerra entre os dois países.
Isso ocorreu após outra decisão igualmente danosa na semana passada, desta vez por parte de Ayalon, de se recusar a se encontrar com uma delegação visitante de legisladores americanos. Isso ocorreu porque os legisladores –representando a maior e mais importante aliado de Israel– viajavam com um grupo de lobby judeu de esquerda, visto por alguns membros da direita de Israel como críticos demais da política israelense.
Alguns israelenses estão claramente desesperados com esta série de gols contras diplomáticos. É um desdobramento ainda mais enigmático dado que Israel está plenamente ciente dos riscos que corre com uma reação negativa internacional. Muitos israelenses estão convencidos de que seu país é vítima de uma campanha de “deslegitimização” comandada por grupos palestinos e ativistas anti-Israel de todo o mundo. Eles ficaram profundamente enfurecidos com os esforços, mais notadamente no Reino Unido, de processar políticos e soldados israelenses por supostos crimes de guerra. Eles temem pedidos de boicote. E rejeitam firmemente a onda de condenação internacional e protestos provocada pela guerra do ano passado na Faixa de Gaza.
Por trás de tudo isso há o medo de que Israel no final será tratado como um Estado pária, como a África do Sul da época do apartheid, com todas as consequências que poderiam resultar: nenhum cantor israelense no concurso anual da canção Eurovision, nenhuma laranja de Jaffa nos pratos europeus e nenhum apoio europeu e americano às políticas israelenses na ONU.
É um cenário que permanece fantasioso. O apoio a Israel é sólido nos Estados Unidos e entre a maioria dos governos europeus.
Mas Israel teme, acertadamente, que está perdendo a solidariedade de grande parte da opinião pública ocidental. O cultivo cuidadoso dos laços diplomáticos de Israel com seus aliados não é tema para manchetes dramáticas. Mas os laços servem mais aos interesses de longo prazo do Estado judeu do que um militante palestino morto em um quarto de hotel em Dubai.
http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/fintimes/2010/02/25/erros-diplomaticos-de-israel-provocam-alarme.jhtm
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domingo, 14 de fevereiro de 2010
Afeganistão: mais um "Quagmire" americano?
"Quagmire", que corresponde a "atoleiro", "pantano", e o significado para a atuacao dos EUA no Afeganistao, tendo em vista os esforcos para combater o Taleban naquela regiao. E entendimento corrente que as acoes nao estao surtindo os efeitos desejados, que seriam a erradicacao dos terroristas e a pacificacao do pais. O artigo e de Mikhail Gorbachov publicado no New York Times.
Por Mikhail Gorbachev*
O Afeganistão está um caos, com tensões crescentes e pessoas morrendo diariamente. Muitas delas -inclusive mulheres, crianças e idosos- não têm nada em comum com terroristas ou militantes.
O governo está perdendo o controle do território: das 34 províncias, o Taleban controla uma dúzia. A produção e exportação de narcóticos está crescendo. Há um verdadeiro perigo de desestabilização estendendo-se para países vizinhos, inclusive para as repúblicas da Asia Central e o Paquistão.
Precisamos compreender por que isso está acontecendo e o que ainda pode ser feito para mudar o rumo de uma situação quase desastrosa. A recente conferência em Londres com representantes de muitos países e organizações internacionais é um primeiro passo em uma nova direção.
Após preparos diligentes, os delegados em Londres adotaram decisões que podem ajudar a mudar as coisas –mas apenas se a experiência das últimas três décadas for reavaliada, e suas lições, aprendidas.
Em 1979, a União Soviética enviou tropas ao Afeganistão, justificando a medida não apenas pelo desejo de ajudar elementos amigos, mas também pela necessidade de estabilizar um país vizinho. O maior erro foi não compreender a complexidade do Afeganistão –os diferentes grupos étnicos, clãs e tribos, suas tradições únicas e mínima governança. O resultado foi o oposto do que se pretendia: instabilidade ainda maior, uma guerra com milhares de vítimas e consequências perigosas para nosso próprio país. Além disso, o Ocidente, particularmente os EUA, botaram lenha na fogueira no espírito da Guerra Fria; estavam dispostos a apoiar qualquer um contra a União Soviética, sem pensar nas possíveis consequências de longo prazo.
Como parte da perestroica, em meados da década de 80, a nova liderança soviética tirou conclusões novas dos problemas no Afeganistão. Fizemos duas decisões cruciais. Primeiro, estabelecemos a meta de retirar nossas tropas. Segundo, decidimos trabalhar com todas as partes no conflito e com os governos envolvidos para alcançar uma reconciliação nacional no país. A ideia era tornar o Afeganistão um país neutro e pacífico que não ameaçasse ninguém.
Olhando para trás, ainda acredito que era um caminho adequado e responsável. Tenho certeza que, se tivéssemos tido sucesso, muitos problemas e desastres teriam sido evitados. Nossa nova política não era apenas uma declaração; durante meu mandato, trabalhamos duro e de boa fé para implementá-lo. Para ter sucesso, precisávamos de cooperação sincera e responsável de todas as partes. O governo afegão estava disposto a ceder e esforçou-se para alcançar a reconciliação. Em uma série de regiões, as coisas começaram a melhorar.
Contudo, o Paquistão, particularmente seu alto escalão, e os EUA impediram todas as frentes de progresso. Eles queriam uma coisa: a retirada das tropas soviéticas, que achavam que os deixaria em pleno controle. Ao negar o menor apoio ao governo do presidente Muhammad Najibulla, Boris Yeltsin fez o jogo deles quando assumiu.
Nos anos 90, o mundo parecia indiferente ao Afeganistão. Naquela década, o governo caiu nas mãos do Taleban, que tornou o Afeganistão um porto seguro para os fundamentalistas islâmicos e uma incubadora do terrorismo. O dia 11 de setembro foi um despertar brutal para os líderes ocidentais. Mesmo assim, contudo, o Ocidente fez uma decisão que não foi bem pensada e portando se provou falha.
Após expulsar o governo do Taleban, os EUA acharam que a vitória militar, alcançada a pouco custo, era final e que tinha basicamente resolvido o antigo problema. O sucesso inicial foi provavelmente uma razão porque os americanos esperavam um “passeio no parque” no Iraque, dando o passo fatal de adotar a estratégia militar no país também. Enquanto isso, eles construíram uma fachada democrática no Afeganistão, guardada pela força de assistência de segurança internacional, ou seja, as tropas da Otan. Progressivamente, a Otan buscou assumir o papel de uma polícia global.
O resto é história. O caminho militar no Afeganistão se provou cada vez menos sustentável. Era um segredo que todos sabiam; até mesmo o embaixador dos EUA disse isso, em telegramas recentemente divulgados.
Várias vezes nos últimos meses me perguntaram o que eu recomendava ao presidente Obama, que herdou essa confusão de seu predecessor. Minha resposta tem sido a mesma: uma solução política e a retirada dos soldados. Isso requer uma estratégia de reconciliação nacional.
Agora, finalmente, uma estratégia muito similar à que oferecemos há mais de duas décadas e que nossos parceiros recusaram foi apresentada na reunião em Londres: a reconciliação, envolvendo na reconstrução todos os elementos mais razoáveis e enfatizando uma solução política e não militar.
O enviado da ONU no Afeganistão disse em recente entrevista que era necessária a desmilitarização de toda a estratégia no Afeganistão. Que vergonha que isso não foi dito e feito há muito tempo!
As chances de sucesso –sucesso, e não “vitória” militar- são, na melhor das hipóteses, de 50%. Houve alguns contatos com certos elementos do Taleban. Mais precisa ser feito para incluir o Irã no processo; muito trabalho duro precisa ser feito com os paquistaneses.
A Rússia pode se tornar uma parte importante do processo de acordo afegão. O Ocidente deve apreciar a posição que os líderes russos estão tomando no Afeganistão. Longe de se vangloriar e deixar o Ocidente encarar a questão sozinho enquanto lavamos nossas mãos, a Rússia está pronta a cooperar com o Ocidente porque compreende que é de seu maior interesse combater as ameaças vindas do Afeganistão.
A Rússia está correta em perguntar por que, durante os anos de presença militar norte-americana e da Otan no Afeganistão, nada ou pouco foi feito para deter a produção de narcóticos, que fluem em grandes quantidades para a Rússia pelas fronteiras porosas do país e ameaçam a saúde de nossa nação. A Rússia também está certa em exigir acesso a oportunidades econômicas no Afeganistão, inclusive a reconstrução de dezenas de projetos construídos com nossa ajuda e depois destruídos durante os anos 90.
A Rússia é vizinha do Afeganistão e seus interesses devem ser levados em conta. A lógica parece evidente, mas algumas vezes é preciso um lembrete.
Quero acreditar que uma nova fase esteja surgindo para o Afeganistão, um raio de esperança para seus milhões de habitantes que sofrem há tanto tempo. A chance está aí, mas é preciso muito para aproveitar a nova oportunidade: realismo, persistência e, por fim, honestidade, ao aprender com os erros feitos no passado, além da capacidade de agir com base nesse conhecimento.
*Mikhail Gorbachov foi o último presidente da extinta União Soviética e um dos responsáveis pelo fim da guerra fria. Ambientalista, Gorbachov já foi agraciado com o prêmio Nobel da paz.
Por Mikhail Gorbachev*
O Afeganistão está um caos, com tensões crescentes e pessoas morrendo diariamente. Muitas delas -inclusive mulheres, crianças e idosos- não têm nada em comum com terroristas ou militantes.
O governo está perdendo o controle do território: das 34 províncias, o Taleban controla uma dúzia. A produção e exportação de narcóticos está crescendo. Há um verdadeiro perigo de desestabilização estendendo-se para países vizinhos, inclusive para as repúblicas da Asia Central e o Paquistão.
Precisamos compreender por que isso está acontecendo e o que ainda pode ser feito para mudar o rumo de uma situação quase desastrosa. A recente conferência em Londres com representantes de muitos países e organizações internacionais é um primeiro passo em uma nova direção.
Após preparos diligentes, os delegados em Londres adotaram decisões que podem ajudar a mudar as coisas –mas apenas se a experiência das últimas três décadas for reavaliada, e suas lições, aprendidas.
Em 1979, a União Soviética enviou tropas ao Afeganistão, justificando a medida não apenas pelo desejo de ajudar elementos amigos, mas também pela necessidade de estabilizar um país vizinho. O maior erro foi não compreender a complexidade do Afeganistão –os diferentes grupos étnicos, clãs e tribos, suas tradições únicas e mínima governança. O resultado foi o oposto do que se pretendia: instabilidade ainda maior, uma guerra com milhares de vítimas e consequências perigosas para nosso próprio país. Além disso, o Ocidente, particularmente os EUA, botaram lenha na fogueira no espírito da Guerra Fria; estavam dispostos a apoiar qualquer um contra a União Soviética, sem pensar nas possíveis consequências de longo prazo.
Como parte da perestroica, em meados da década de 80, a nova liderança soviética tirou conclusões novas dos problemas no Afeganistão. Fizemos duas decisões cruciais. Primeiro, estabelecemos a meta de retirar nossas tropas. Segundo, decidimos trabalhar com todas as partes no conflito e com os governos envolvidos para alcançar uma reconciliação nacional no país. A ideia era tornar o Afeganistão um país neutro e pacífico que não ameaçasse ninguém.
Olhando para trás, ainda acredito que era um caminho adequado e responsável. Tenho certeza que, se tivéssemos tido sucesso, muitos problemas e desastres teriam sido evitados. Nossa nova política não era apenas uma declaração; durante meu mandato, trabalhamos duro e de boa fé para implementá-lo. Para ter sucesso, precisávamos de cooperação sincera e responsável de todas as partes. O governo afegão estava disposto a ceder e esforçou-se para alcançar a reconciliação. Em uma série de regiões, as coisas começaram a melhorar.
Contudo, o Paquistão, particularmente seu alto escalão, e os EUA impediram todas as frentes de progresso. Eles queriam uma coisa: a retirada das tropas soviéticas, que achavam que os deixaria em pleno controle. Ao negar o menor apoio ao governo do presidente Muhammad Najibulla, Boris Yeltsin fez o jogo deles quando assumiu.
Nos anos 90, o mundo parecia indiferente ao Afeganistão. Naquela década, o governo caiu nas mãos do Taleban, que tornou o Afeganistão um porto seguro para os fundamentalistas islâmicos e uma incubadora do terrorismo. O dia 11 de setembro foi um despertar brutal para os líderes ocidentais. Mesmo assim, contudo, o Ocidente fez uma decisão que não foi bem pensada e portando se provou falha.
Após expulsar o governo do Taleban, os EUA acharam que a vitória militar, alcançada a pouco custo, era final e que tinha basicamente resolvido o antigo problema. O sucesso inicial foi provavelmente uma razão porque os americanos esperavam um “passeio no parque” no Iraque, dando o passo fatal de adotar a estratégia militar no país também. Enquanto isso, eles construíram uma fachada democrática no Afeganistão, guardada pela força de assistência de segurança internacional, ou seja, as tropas da Otan. Progressivamente, a Otan buscou assumir o papel de uma polícia global.
Ofensiva dos EUA contra o Taleban no Afeganistão
O resto é história. O caminho militar no Afeganistão se provou cada vez menos sustentável. Era um segredo que todos sabiam; até mesmo o embaixador dos EUA disse isso, em telegramas recentemente divulgados.
Várias vezes nos últimos meses me perguntaram o que eu recomendava ao presidente Obama, que herdou essa confusão de seu predecessor. Minha resposta tem sido a mesma: uma solução política e a retirada dos soldados. Isso requer uma estratégia de reconciliação nacional.
Agora, finalmente, uma estratégia muito similar à que oferecemos há mais de duas décadas e que nossos parceiros recusaram foi apresentada na reunião em Londres: a reconciliação, envolvendo na reconstrução todos os elementos mais razoáveis e enfatizando uma solução política e não militar.
O enviado da ONU no Afeganistão disse em recente entrevista que era necessária a desmilitarização de toda a estratégia no Afeganistão. Que vergonha que isso não foi dito e feito há muito tempo!
As chances de sucesso –sucesso, e não “vitória” militar- são, na melhor das hipóteses, de 50%. Houve alguns contatos com certos elementos do Taleban. Mais precisa ser feito para incluir o Irã no processo; muito trabalho duro precisa ser feito com os paquistaneses.
A Rússia pode se tornar uma parte importante do processo de acordo afegão. O Ocidente deve apreciar a posição que os líderes russos estão tomando no Afeganistão. Longe de se vangloriar e deixar o Ocidente encarar a questão sozinho enquanto lavamos nossas mãos, a Rússia está pronta a cooperar com o Ocidente porque compreende que é de seu maior interesse combater as ameaças vindas do Afeganistão.
A Rússia está correta em perguntar por que, durante os anos de presença militar norte-americana e da Otan no Afeganistão, nada ou pouco foi feito para deter a produção de narcóticos, que fluem em grandes quantidades para a Rússia pelas fronteiras porosas do país e ameaçam a saúde de nossa nação. A Rússia também está certa em exigir acesso a oportunidades econômicas no Afeganistão, inclusive a reconstrução de dezenas de projetos construídos com nossa ajuda e depois destruídos durante os anos 90.
A Rússia é vizinha do Afeganistão e seus interesses devem ser levados em conta. A lógica parece evidente, mas algumas vezes é preciso um lembrete.
Quero acreditar que uma nova fase esteja surgindo para o Afeganistão, um raio de esperança para seus milhões de habitantes que sofrem há tanto tempo. A chance está aí, mas é preciso muito para aproveitar a nova oportunidade: realismo, persistência e, por fim, honestidade, ao aprender com os erros feitos no passado, além da capacidade de agir com base nesse conhecimento.
*Mikhail Gorbachov foi o último presidente da extinta União Soviética e um dos responsáveis pelo fim da guerra fria. Ambientalista, Gorbachov já foi agraciado com o prêmio Nobel da paz.
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