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terça-feira, 8 de junho de 2010

A Impotência dos EUA, a BP, Israel e o Irã.

A BP deixa jorrar milhares de barris de petróleo nas proximidades da costa dos EUA há mais de um mês (e deve continuar por um bom tempo) provocando o maior desastre ecológico que se tem notícia, e até agora só birra do Obama e uma multa de US$ 65 milhões. Israel ataca barcos de ajuda humanitária, assassina integrantes de ONGs, desenvolve um programa nuclear subterrâneo, não assina o tratado de não proliferação nuclear, tentou vender a tecnologia para o regime do apartheid da África do Sul, cria um gueto em Gaza e nenhum pio da Hillary. Por sinal, após as críticas contundentes da mídia mundial a providência foi passar o "setembro negro" à exaustão nos canais de tv. E o Irã, tenham certeza, após demonizado no Ocidente, ainda que diga que não vai mais enriquecer urânio a 20%, ainda que tenha soberania e direito de fazê-lo, ainda que jogue todos os seus artefatos de produção de material nuclear no oceano, vai sofrer com a tentativa de imposição de sanções econômicas pelos EUA. Uma pergunta: Afinal, porque os EUA querem tanto impor sanções ao Irã? Aos amigos tudo, aos inimigos os rigores da lei (no caso, da lei deles - o governo dos EUA). Com tanta hipocrisia em jogo não dá pra não pensar que a implantação do multilateralismo nas relações internacionais se faz urgente, como um passo intermediário para instituições de direito internacional que um dia, quem sabe, venham a ter alguma eficácia frente aos poderes econômicos e militares que hoje indicam "gerentões" para essas mesmas instituições, garantindo assim que não serão importundados ou contrariados quando da imposição de seus interesses. Em relação ao caso da British Petroleum, é interessante observar as semelhanças com o caso da bolha especulativa que detonou a crise de 2008. Em ambas o interesse público está em último plano e apenas os ganhos privados estão em evidência. Resultado: prejuízo. Porque se a solidariedade não existe nas relações, vira anarquia. E onde poucos ganham sobram injustiça e sofrimento.

Vazamento exibe impotência do Estado diante de empresas
Do Terra Magazine
Carlos Drummond
De Campinas (SP)

O jorro descontrolado de petróleo do poço da British Petroleum desde 20 de abril no fundo do Golfo do México, observável a qualquer momento pela internet, simboliza bem a absoluta impotência do governo mais poderoso do mundo diante da empresa responsável pelo maior desastre ecológico da história. Cada quatro dias de vazamento equivalem, segundo os cálculos mais pessimistas, a um desastre igual ao do rompimento do navio petroleiro Exxon Valdez, da Exxon Mobil, em 1989, agora a segunda maior catástrofe ecológica. O mundo, estático, assiste a uma demonstração inédita da capacidade de destruição de uma única empresa.

A pressa em retirar plataforma de exploração para recolocá-lo em outro local teria provocado o desastre. Outras causas são apontadas: um suposto defeito na fabricação do equipamento de perfuração e também o lobby pesado da BP. Unida a outras grandes companhias petrolíferas, teria envolvido órgãos do governo e instituições reguladoras de modo a obter um afrouxamento das normas e das exigências de segurança e de proteção ambiental.

No cômputo das responsabilidades, inclua-se uma decisão presidencial. O desastre põe na conta de Barack Obama o endosso ao frenesi de exploração de petróleo de George W. Bush, prócer da liberdade quase absoluta concedida a empresas e bancos. O atual presidente dos Estados Unidos, em vez de conter a exploração desregrada, ampliou a área marítima permitida para perfuração de poços de petróleo e a cada dia paga o preço político dessa decisão.

O nome da British Petroleum inclui-se agora na longa lista de gigantes empresariais e financeiros que contaram com uma liberdade de ação muito acima do que recomendariam cuidados mínimos de proteção da sociedade. A mesma liberdade que tiveram AIG, Lehman Brothers, J.P. Morgan, Citibank, Goldman Sachs e outros protagonistas da crise de 2008-2009, maior catástrofe financeira desde a que antecedeu a Grande Depressão da década de 1930.

sábado, 29 de maio de 2010

Lula pela Der Spiegel

Enquanto aqui na terrinha a grande(?) mídia baixa o sarrafo no metalúrgico, ou, no mínimo, cobre os avanços do governo com uma "certa" má vontade, pra dizer o de menos, lá fora, ao que parece, a cobertura é bem mais isenta, até porque não existe uma Dona Judith (ANJ)  pra afirmar que imprensa tem que tomar o lugar de oposição fragilizada em nome da democracia. Isto prá não falar nos famosos "embaixadores de pijama" do governo FHC, chamados às pressas por algumas emissoras de tv para defender os interesses americanos, principalmente agora com a madame Hillary a fazer biquinho.


Lula salta para a primeira divisão da diplomacia mundial
Erich Follath e Jens Glüsing

Transpirando autoconfiança, o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva está elevando o status global do seu país ao protagonizar um número cada vez maior de iniciativas na área de política internacional. Na mais recente dessas ações, ele convenceu o Irã a concordar com um polêmico acordo nuclear. Poderia este acordo proporcionar uma oportunidade para que sejam evitadas sanções e guerra?

Ele foi acusado de ser muitas coisas no passado, incluindo um comunista, um proletário grosseiro e um alcoólatra. Mas a época dessas acusações acabou há muito tempo. À medida que o Brasil cresce para tornar-se uma nova potência econômica, a reputação do presidente brasileiro cresce de forma meteórica.

Hoje em dia muita gente vê o presidente como um herói do hemisfério sul e um importante contrapeso em relação a Washington, Bruxelas e Pequim. A revista de notícias norte-americana “Time” foi além, duas semanas atrás, ao afirmar que ele é “o líder político mais influente do mundo”, colocando-o à frente até mesmo do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama. No Brasil, muita gente vê em Lula da Silva um candidato ao Prêmio Nobel da Paz.

E agora este homem, Luiz Inácio da Silva, 64, apelidado de “Lula”, que passou a infância em um cortiço como filho de pais analfabetos, conseguiu mais outra vitória política no exterior. Em uma reunião que foi uma verdadeira maratona política, ele negociou um acordo nuclear com a liderança iraniana. Na última segunda-feira, ele apareceu triunfante ao lado do primeiro-ministro turco Recep Tayyip Erdogan e do presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. Os três líderes chegaram a um acordo que eles acreditam que retirará da agenda internacional as previstas sanções da Organização da Nações Unidas (ONU) contra o Irã devido ao possível programa de armas nucleares do país. O Ocidente, que vinha fazendo pressões pela adoção de medidas punitivas mais duras contra o Irã, pareceu ter sido feito de bobo, e até ter sido pego de surpresa.

Mas o contra-ataque de Washington veio no dia seguinte, abrindo um novo capítulo nesta acalorada disputa nuclear, na qual Pequim, em especial, há muito vem resistindo a adotar uma abordagem mais dura. A secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton anunciou: “Nós chegamos a um acordo baseado em medidas fortes com a cooperação tanto da Rússia quanto da China”. O texto relativo às sanções planejadas contra o Irã foi enviado a todos os membros do Conselho de Segurança da ONU, incluindo o Brasil e a Turquia. Os dois países são membros eleitos para ocuparem durante dois anos esse conselho que têm 15 integrantes, e que precisa aceitar uma resolução com pelo menos nove votos para que esta possa ser implementada.

Os Estados Unidos mostram-se irredutíveis quanto às sanções
Clinton agradeceu especificamente a Lula pelos seus “esforços sinceros”. Mas a sua expressão indicava claramente que ela viu os esforços de lula mais como um impedimento do que como uma ajuda. “Nós estamos procurando o apoio da comunidade internacional a uma resolução composta de sanções fortes que, segundo o nosso ponto de vista, constituir-se-ão em uma mensagem muito clara a respeito daquilo que se espera do Irã”, afirmou Hillary Clinton.

Mas a abordagem menos confrontativa de Lula nesta disputa nuclear não seria muito mais promissora? Seria tão fácil assim desacelerar o “Lula Superstar”, que conta com o apoio da Turquia, um país membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan)? Quem quer que tenha acompanhado a carreira de Lula achará difícil acreditar nisso. Este homem sempre superou todas as resistências, e todos os cenários desfavoráveis com os quais se defrontou.

O pai dele abandonou a família quando Lula era bem novo, e a mãe mudou-se com os oito filhos do nordeste do Brasil para o sul industrializado, onde ela esperava aumentar as chances de sucesso da família. Lula só aprendeu a ler e a escrever aos dez anos de idade. Quando criança, ele ajudou a sustentar a família trabalhando como engraxate e vendedor de frutas, e também como operário de uma fábrica de tintas. Ele acabou conseguindo fazer um curso de torneiro mecânico. Quando Lula tinha 25 anos de idade, a mulher dele, Maria, e o seu filho ainda não nascido morreram porque a família não tinha condições de pagar por atendimento médico adequado.

Lula tornou-se politicamente ativo quando era jovem, ao ingressar em um sindicato e organizar greves ilegais na época da ditadura militar. Ele foi preso várias vezes na década de oitenta. Insatisfeito com os esquerdistas clássicos, ele fundou o seu próprio Partido dos Trabalhadores, que gradualmente transformou-se de um partido marxista em uma agremiação social-democrata. Ele concorreu três vezes, sem sucesso, à presidência, até que, na quarta vez, venceu a eleição presidencial de 2002 com uma vantagem significante sobre o seu adversário. Foram os indivíduos mais pobres que, em um país de extremos contrastes econômicos, depositaram as suas esperanças no carismático líder trabalhista. Quando Lula venceu a eleição, os indivíduos extremamente ricos, temendo que os seus bens fossem desapropriados, mantiveram os seus aviões a jato particulares abastecidos, prontos para decolar.

O herói dos pobres distanciou-se de revoluções
Mas aqueles que esperavam ou que temiam uma revolução no Brasil ficaram surpresos. Após tomar posse, Lula levou alguns dos membros do seu gabinete a uma favela, e lançou um programa de grande escala chamado “Fome Zero” para aliviar os sofrimentos dos desprivilegiados. Mas ele não assustou os mercados. Aumentos dos preços das commodities e uma política econômica moderna que enfatizou os investimentos estrangeiros, a educação nacional e recursos para treinamento ajudaram Lula a se reeleger em 2006.

O mandato dele termina em dezembro, e Lula não poderá disputar novamente a reeleição. Ele colocou a casa em ordem e cultivou uma potencial sucessora. Mas o presidente autoconfiante deseja evidentemente deixar também um legado político: ele considera uma missão sua transformar o Brasil, com a sua população de 196 milhões de habitantes, em uma grande potência mundial, bem como assegurar uma cadeira permanente para o seu país no Conselho de Segurança da ONU.

Lula reconheceu que manter boas relações com Washington, Londres e Moscou é algo que ajuda o Brasil a tentar alcançar essa meta. Mas ele sabe também que vínculos fortes com países como a China e a Índia, bem como o Oriente Médio e os países africanos, poderiam ser ainda mais importantes. Ele se considera um homem do “sul”, e um líder dos pobres e desfavorecidos. E, é claro, ele também reconhece as mudanças que estão ocorrendo. No ano passado, por exemplo, a República Popular da China ultrapassou os Estados Unidos como o maior parceiro comercial do Brasil pela primeira vez na história.

Lula é o único chefe de Estado que participou tanto do exclusivo Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, quanto do Fórum Social Mundial, que criticou a globalização, na cidade de Porto Alegre, no Brasil. Ele é um viajante infatigável, tendo visitado 25 países só na África, muitos países asiáticos e quase todos as nações da América Latina – levando sempre consigo uma delegação econômica. Lula prega incansavelmente a sua crença em um mundo multipolar. E, como Lula é um orador carismático e um “autêntico” líder trabalhista, multidões em todo o mundo o saúdam como se ele fosse um pop star. Na reunião de cúpula do G20 em 2009, em Londres, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que aparentemente é um fã de Lula, afirmou: “Eu adoro esse cara”.

No entanto, Obama não pode mais ter certeza de que Lula é de fato “o seu cara de confiança”. O brasileiro está ficando cada vez mais autoconfiante à medida que se distancia de Washington e, às vezes, chega até a buscar a confrontação com os norte-americanos.

Autoconfiança cada vez maior
O caso de Honduras é um exemplo dessa tendência. Os Estados Unidos, que sempre viram a América Central como o seu quintal, ficaram perplexos quando Lula concedeu abrigo ao presidente deposto Manual Zelaya na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa no ano passado e exigiu que tivesse uma voz no processo para solucionar o conflito. Ao recusar-se a reconhecer o novo presidente, Brasília se opôs ostensivamente a Obama.

Depois disso, as coisas aconteceram muito rapidamente. Lula viajou a Cuba, onde reuniu-se com Raul e Fidel Castro e pediu um fim imediato do embargo econômico norte-americano à ilha. Para a alegria dos seus anfitriões, ele comparou os críticos do regime que sofrem nas prisões de Havana a criminosos comuns. Lula também fez questão de aparecer junto ao presidente venezuelano Hugo Chávez, que não poupa críticas a Washington e que está amordaçando cada vez mais a imprensa no seu país. Em uma entrevista a “Der Spiegel”, Lula definiu o líder autocrático como “o melhor presidente da Venezuela em cem anos”.

E quando recebeu Ahmadinejad em Brasília alguns meses atrás, Lula cumprimentou o presidente iraniano pela sua suposta vitória eleitoral impecável e comparou o movimento oposicionista iraniano a torcedores de futebol frustrados. Ele afirmou que o Brasil também não permitiria que ninguém interferisse com o seu programa nuclear “obviamente pacífico”.

Apesar dessa aproximação, muita gente manifestou ceticismo quando Lula seguiu para Teerã a fim de negociar um acordo nuclear com a liderança iraniana, especialmente depois que os iranianos não demonstraram quase nenhuma disposição para ceder nos meses anteriores. Em uma entrevista coletiva à imprensa com Lula, o presidente russo Dmitry Medvedev disse que a probabilidade de um acordo mediado pelo Brasil seria de no máximo 30%. Lula retrucou, dizendo: “Eu diria que as chances são de 99%”. Lá estava novamente em evidência o ego pronunciado do astro político em ascensão. “Ele acredita ser um trabalhador milagroso que é capaz de obter sucesso onde outros fracassaram”, diz Michael Shifter, um especialista norte-americano em América Latina.

Vitória inédita ou fracasso?
Neste momento, só existem indícios circunstanciais de que uma “vitória inédita” foi alcançada em Teerã após 17 horas de negociações. É também possível que a reunião tenha sido, na verdade, aquilo que o jornal alemão “Frankfurter Allgemeine Zeitung” classificou como um “fracasso”, ou apenas mais uma forma encontrada pelos iranianos, que em outras ocasiões foram frequentemente evasivos, para novamente paralisarem as iniciativas internacionais contra o seu programa nuclear.

Autoridades da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) em Viena afirmaram cautelosamente que qualquer fato novo no sentido de que se chegue a um acordo nuclear se constitui em um progresso. Os inspetores da AIEA são responsáveis por inspecionar as instalações nucleares de todo o mundo em nome da ONU. Eles recentemente descobriram mais indícios de um programa iraniano ilegal de armas nucleares e pediram a Teerã que cooperasse mais. A avaliação dos especialistas da agência, cuja comunicação com

Teerã nunca foi interrompida e que jamais afirmaram algo que não fossem capazes de provar, terá agora muito peso. O fato de os iranianos só se disporem a apresentar o texto do acordo à AIEA “em uma semana” gerou dúvidas.

Os governos ocidentais têm manifestado muito ceticismo, e a resolução da ONU que Hillary Clinton tornou pública pouco depois do acordo de Teerã aparentemente deixou os israelenses preocupados. Alguns membros do governo de linha dura do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu estão criticando abertamente o acordo como sendo uma artimanha para aliviar a pressão internacional que é exercida sobre Teerã. O ministro israelense do comércio Benjamin Ben-Elieser afirma que Teerã está aparentemente “tentando novamente ludibriar o mundo inteiro”.

O acordo proporciona uma brecha ao Irã
O instituto norte-americano ISIS, que sempre defendeu uma solução negociada e que acredita que a “opção militar” para resolver a questão nuclear iraniana é impensável, fez uma análise inteligente do acordo Lula-Ahmadinejad-Erdogan. Na análise, os especialistas nucleares independentes do instituto divulgaram as suas preocupações e observaram os pontos fracos do texto do acordo que foi revelado até o momento.
Os iranianos só concordam em enviar 1.200 quilogramas do seu urânio de baixo teor de enriquecimento à Turquia, para receberem em troca combustível para o seu reator de pesquisas em Teerã. As dimensões do acordo correspondem àquelas de um outro acordo proposto pela AIEA em outubro do ano passado, segundo o qual mais de três quartos do urânio produzido no Irã seriam mandados para fora do país, fazendo desta forma com que a fabricação de uma bomba atômica se tornasse impossível. A ideia era que isso fosse uma medida fomentadora de confiança para proporcionar espaço para negociações.

No entanto, o acordo atual ignora o fato de que o Irã, após ter colocado em funcionamento as suas centrífugas em Natanz, aparentemente já conta com mais de 2.300 quilogramas de urânio. Em outras palavras, o acordo possibilitaria que Teerã ficasse com quase a metade desse material, que é um ingrediente básico para uma bomba nuclear, de forma que o Irã ainda contasse com matéria prima suficiente para atingir a “capacidade mínima” de fabricação de armas nucleares.

O acordo também proporciona uma brecha a Teerã: ele concede à liderança iraniana o direito de pegar o seu urânio de volta da Turquia se, na sua opinião, qualquer cláusula do texto oficial “não for cumprida”. E o mais importante é que o acordo não exige que Teerã suspenda o processo de enriquecimento de urânio. “Nós nem sonharíamos em fazer isso”, declarou uma autoridade iraniana. Mas é isso precisamente que a ONU exigiu inequivocamente com aquilo que a esta altura já são três rodadas de sanções.

Essas objeções todas não preocupam Lula. Ele demonstrou que não pode mais ser ignorado no cenário internacional. Na última terça-feira, os amigos do presidente brasileiro elogiavam os seus esforços no sentido de fomentar a paz durante a reunião de cúpula América Latina-União Europeia em Madri. A participação do presidente tinha como objetivo demonstrar que a “lula” possui vários braços. Ele provou que é capaz de nadar na companhia de grandes tubarões.

Por trás dos bastidores, o Lula Superstar gosta de falar sobre como obrigou os diplomatas brasileiros a abandonarem a “síndrome de vira-latas”, o seu termo para designar o profundamente arraigado complexo de inferioridade que os brasileiros demonstravam até recentemente em relação aos norte-americanos e aos europeus.

O fato ocorreu em 2003, na primeira aparição internacional importante de Lula, na reunião de cúpula do G8, em Evian, na França. Um grupo de pessoas estava sentado no saguão do hotel onde ocorria a conferência, aguardando o então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. Quando os norte-americanos finalmente entraram no recinto, todos se levantaram – menos Lula, que ordenou ao seu ministro das Relações Exteriores que também permanecesse sentado. “Eu não participarei desta subserviência”, declarou o presidente brasileiro. “Afinal, ninguém se levantou quando eu entrei”.

http://noticias.bol.uol.com.br/internacional/2010/05/29/lula-salta-para-a-primeira-divisao-da-diplomacia-mundial.jhtm

sábado, 24 de abril de 2010

Não chore por Wall Street

Paul Krugman
do New York Times


Na quinta-feira, o presidente Barack Obama foi a Manhattan, onde pediu a uma plateia composta em grande parte por pessoas de Wall Street para apoiar a reforma financeira. “Eu acredito”, ele declarou, “que essas reformas são, no final, não apenas do melhor interesse de nosso país, mas do melhor interesse do setor financeiro”.
Bem, eu gostaria que ele não tivesse dito isso –e não porque ele realmente precisa, por razões políticas, assumir uma postura populista, para se distanciar publicamente dos banqueiros. O fato é que Obama deve tentar fazer o que é melhor para o país –ponto. Se para isso for preciso prejudicar os banqueiros, tudo bem.
Mais do que isso, a reforma deve de fato prejudicar os banqueiros. Um conjunto crescente de análises sugere que um setor financeiro inchado está prejudicando a economia como um todo. Encolher esse setor não deixará Wall Street feliz, mas o que é ruim para Wall Street é bom para os Estados Unidos.
Mas as reformas atualmente na mesa –que eu apoio– podem acabar sendo boas para o setor financeiro tanto quanto para nós, porque elas lidam apenas com parte do problema: elas tornariam as finanças mais seguras, mas poderiam não tornar o setor financeiro menor.
E qual o problema com o setor financeiro? Começa pelo fato de que o setor financeiro moderno gera lucros e contracheques imensos, mas fornece poucos benefícios tangíveis.
Lembra do filme “Wall Street –Poder e Cobiça” de 1987, no qual Gordon Gekko declarava: ganância é bom? Segundo os padrões de hoje, Gekko era um amador. Nos anos que antecederam a crise de 2008, o setor financeiro foi responsável por um terço do total dos lucros domésticos –quase duas vezes a participação de duas décadas atrás.
Esses lucros eram justificados, eles nos diziam, porque o setor estava fazendo grandes coisas para a economia. Ele estava canalizando capital para usos produtivos; estava diluindo o risco; estava ampliando a estabilidade financeira. Nada disso era verdade. O capital não estava sendo canalizado para inovadores criadores de empregos, mas para uma bolha imobiliária insustentável; o risco foi concentrado, não diluído; e quando a bolha imobiliária estourou, o sistema financeiro supostamente estável implodiu, com a pior recessão global desde a Grande Depressão como dano colateral.
Então para que os banqueiros estavam ganhando tanto dinheiro? Minha posição, refletindo os esforços dos economistas financeiros para entender a catástrofe, é de que, principalmente, para apostar com o dinheiro dos outros. O setor financeiro fez grandes apostas arriscadas com fundos emprestados –apostas que deram retornos elevados até perderem– mas que só foram possíveis de ser tomados de forma barata porque os investidores não entendiam quão frágil era o setor.
E quanto aos muito falados benefícios da inovação financeira? Eu estou com os economistas Andrei Shleifer e Robert Vishny, que argumentaram em um recente trabalho que grande parte dessa inovação foi para criar a ilusão de segurança, fornecendo aos investidores “falsos substitutos” para ativos à moda antiga, como depósitos bancários. No final a ilusão acabou –e o resultado foi uma crise financeira desastrosa.
Em seu discurso de quinta-feira, a propósito, Obama insistiu –duas vezes– que a reforma financeira não limitaria a inovação. Que pena.
E aqui está o pior: após serem duramente atingidos logo após a crise, os lucros do setor financeiro estão subindo de novo. Parece bastante provável que o setor em breve voltará a jogar os mesmos jogos que nos colocaram nesta confusão.
E o que deve ser feito? Como eu disse, eu apoio as propostas de reforma do governo Obama e de seus aliados no Congresso. Entre outras coisas, seria uma vergonha ver a campanha antirreforma dos líderes republicanos –uma campanha marcada por uma desonestidade e hipocrisia de tirar o fôlego– ser bem-sucedida.
E essas reformas devem ser apenas o primeiro passo. Nós também precisamos reduzir o tamanho do setor financeiro
E não são apenas críticos de fora dizendo isto (não que haja algo errado com críticos de fora, que têm se mostrado muito mais certos do que as pessoas de dentro supostamente conhecedoras; veja o caso de Alan Greenspan). Uma proposta intrigante está prestes a ser apresentada por, quem diria, o Fundo Monetário Internacional. Em um estudo que vazou, preparado para uma reunião deste fim de semana, o fundo pede por um Imposto Sobre Atividade Financeira, um imposto sobre os lucros e remuneração do setor financeiro.
Esse imposto, argumenta o fundo, poderia “atenuar a excessiva tomada de risco”. Também poderia ajudar a “reduzir o tamanho do setor financeiro”, o que o fundo considera algo bom.
Na verdade, a proposta do FMI é bastante branda. Todavia, se ela caminha na direção da realidade, Wall Street se queixará.
Mas o fato é que estamos dedicando uma parcela grande demais de nossa riqueza, uma parcela grande demais do talento de nosso país, ao trabalho de conceber e vender esquemas financeiros complexos –esquemas que têm a tendência de destruir a economia. Dar um fim a este estado das coisas prejudicará o setor financeiro. E daí?
Tradução: George El Khouri Andolfato

quarta-feira, 31 de março de 2010

Noam Chomsky: Um evento 'lamentável' a leste de Jerusalém

Noam Chomsky
Do The New York Times
Via Terra Magazine
Mais uma vez o ponto de ignição é Jerusalém Oriental, tomada por Israel na guerra de 1967 - desta vez, a questão gira em torno de um condomínio de 1.600 de apartamentos na vizinhança de Ramat Shlomo. E mais uma vez o resultado foi a morte de palestinos por israelenses.
No dia 9 de março, o Ministro do Interior de Israel anunciou um novo projeto durante a visita do vice-presidente dos Estados Unidos, Joseph R. Biden, a terras israelenses. O Presidente Barack Obama havia pedido que fosse refreada a expansão de assentamentos em território ocupado.
A reação foi intensa e imediata. O Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, pediu desculpas publicamente pela 'lamentável' ocasião, mas insistiu que Israel poderia construir livremente em Jerusalém Oriental e em outros pontos dos territórios que deseja anexar.
Biden teve uma conversa fechada com Netanyahu, invocando as preocupações das forças armadas norte-americanas com o fracasso em resolver a questão do conflito entre Israel e Palestina, segundo relata a imprensa Israelense.
"O que você está fazendo prejudica a segurança de nossas tropas que estão no Iraque, Afeganistão e Paquistão", teria dito Biden a Netanyahu. "Isso é uma ameaça para nós e para a paz na região."
No dia 16 de março, o general David H. Petraeus, chefe do Comando Central americano, levantou essas preocupações para o Comitê das Forças Armadas no Senado: "O conflito fomenta o sentimento antiamericano, pois suscita um suposto favoritismo a Israel."
Uma semana mais tarde, Netanyahu e Obama encontraram-se na Casa Branca para uma conversa mais tarde denominada de "litigiosa".
Netanyahu mantém uma posição firme com relação aos assentamentos. E ele não faz questão de reconhecer a viabilidade de um estado palestino. Essa intransigência afeta de forma negativa a credibilidade dos Estados Unidos.
Ocorreu um contratempo parecido, há 20 anos, também envolvendo os assentamentos, que levou o então presidente George H.W. Bush a impor sanções limitadas a Israel, em resposta ao comportamento petulante e insultuoso do Primeiro Ministro Yitzhak Shamir, que foi rapidamente substituído. A questão continua se a administração Obama está disposta a tomar medidas, mesmo que mais abrandadas, como fez Bush pai.
A situação agora é mais séria. Com Israel, os setores ultranacionalistas e religiosos emergem com uma perspectiva estreita e limitada. E as forças armadas dos EUA têm no histórico algumas guerras pouco populares na região.
Em maio passado, em Washington, Obama encontrou-se com Netanyahu e Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina. Os encontros, juntamente com o discurso de Obama no Cairo em junho, foram interpretados como um divisor de águas para a política norte-americana com relação ao Oriente Médio.
Se olharmos mais de perto, há algumas reservas.
A interação entre os EUA e Israel - com Abbas deixado de lado - gerou duas expressões: "Estado palestino" e "crescimento natural de assentamentos." Vamos atentar a elas individualmente.
Obama, não há dúvidas, pronunciou as palavras "estado palestino", ecoando o discurso do presidente George W. Bush. Em contraste, a plataforma (não revisada) de 1999 do partido de situação em Israel, o Likud de Netanyahu, "rejeita ostensivamente o estado árabe palestino a oeste do rio Jordão".
É importante também lembrar que o governo de Netanyahu em 1996 foi o primeiro em Israel a utilizar a expressão "estado palestino". O governo concordara que os palestinos tinham o direito de chamar de "estado" os fragmentos da Palestina que lhes sobraram se assim desejassem - ou poderiam chamar também de "frango frito".
Em maio passado, a posição de Washington fora apresentada de forma mais impositiva com a declaração da Secretária de Estado, Hillary Clinton, rejeitando as "expectativas de crescimento natural" para a política oficial americana que se opunha à criação de novos assentamentos.
Netanyahu e quase todos os políticos israelenses insistem em permitir o dito "crescimento natural", reclamando que os Estados Unidos não estão honrando a palavra de Bush que autorizou essa expansão, dentro da sua "visão" do estado palestino.
A formulação Obama-Clinton não é novidade. Ela repete o discurso do Guia Bush para o Estado Palestino, estipulando que, na Fase I, Israel "deve cessar toda a atividade de assentamentos, em concordância com o relatório do ex-senador George J. Mitchell, incluindo o crescimento natural de assentamentos".
No Cairo, Obama manteve seu estilo "tabula rasa" - com pouca substância, mas apresentado de forma atraente que permite aos ouvintes preencher as lacunas com as informações de sua preferência.
Obama reverberou a "visão" de Bush de uma estado palestino, sem dizer explicitamente sua opinião.
Obama declarou: "Os Estados Unidos não aceitam a legitimidade da multiplicação contínua dos assentamentos israelenses". As palavras mais importantes da declaração são "legitimidade" e "contínua".
Por omissão, Obama indicou que aceita a "visão" de Bush. Os numerosos projetos israelenses de assentamento e infraestrutura na Cisjordânia são implicitamente "legítimos", reafirmando que a expressão "estado palestino", no que tange as sobras de território, significa mesmo "frango frito".
Em novembro último, Netanyahu decretou uma suspensão de 10 meses na nova construção, com muitas isenções e excluindo completamente a Grande Jerusalém, onde a desapropriação das áreas árabes e a construção de assentamentos judaicos, como o projeto Rabat Shlomo, continuem a largos passos.
Esses projetos são duplamente ilegais: Como os assentamentos, eles violam a lei internacional - e, em Jerusalém, as resoluções do Conselho de Segurança específico.
Em Jerusalém na época, Hillary Clinton parabenizou as concessões "sem precedentes" de Netanyahu para a construção (ilegal), gerando uma onda de raiva e zombaria por grande parte do mundo.
A administração Obama defende a "reconceitualização" do conflito no Oriente Médio, articulada mais claramente em março último pelo membro do Comitê de Relações Estrangeiras do Senado, John Kerry.
Israel deve ser integrado aos estados árabes "moderados", aliados dos Estados Unidos, confrontando o Irã e fornecendo meios para a dominação dos EUA nas regiões férteis em produção de energia vital. Com esse modelo, é possível que alguns assentamentos do eixo Israel-Palestina possam ser acomodados.
Enquanto isso, as relações entre os Estados Unidos e Israel se aprofundam. A cooperação próxima da inteligência dos dois países já dura meio século.
As parceiras tecnológicas entre os EUA e Israel nunca estiveram melhores. A Intel, por exemplo, vai adicionar uma instalação gigantesca à fábrica de Kiryat Gat para implementar uma redução revolucionária ao tamanho dos chips que fabrica.
Os laços entre a indústria militar americana e israelense continuam especialmente próximos, tanto que Israel está mudando suas instalações de desenvolvimento e produção para os Estados Unidos onde o acesso à ajuda militar americana e aos mercados é facilitada. Israel também vislumbra a possibilidade de transferir a produção de veículos blindados para os Estados Unidos, apesar dos protestos de milhares de trabalhadores israelenses que perderão seus empregos.
As relações também beneficiam os produtores militares norte-americanos - duplamente, porque os fornecedores norte-americanos de armas financiadas pelo governo americano e enviadas a Israel, que já são por si só muito lucrativas, também funcionam como "propaganda" para induzir as ditaduras árabes ricas (as chamadas "moderadas") a comprar grandes quantidades de equipamento militar menos sofisticado.
Israel também continua a fornecer aos EUA uma base militar localizada estrategicamente para o pré-posicionamento de armas e outras funções - mais recentemente, em janeiro, quando o exército norte-americano aumentou para "o dobro do valor de equipamento militar de emergência que mantém estocado em solo israelense", chegando a US$ 800 milhões.
"Mísseis, veículos blindados, munição aérea e armamentos em geral já são armazenados no país", relata a publicação Defense News.
Esses são alguns dos vantajosos serviços que Israel tem oferecido às forças armadas dos EUA e o domínio global, bem como para a economia de alta tecnologia dos Estados Unidos.
Eles dão certa tolerância para que Israel desafie algumas ordens de Washington - apesar de que Israel estaria correndo um sério risco se abusasse da sorte, como mostra a história. A arrogância de Ramat Shlomo certamente provocou quem não deveria.
Israel só poder ir até onde os EUA permitirem. Os Estados Unidos foram por muito tempo um participante direto até dos crimes israelenses que tanto condena - com algumas reservas, claro. O que não sabemos ainda é se essa farsa vai continuar.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Uri Avnery: A Arma do Juízo Final

Da Agência Carta Maior
Por Uri Avnery

A arma do juízo final

Não há pior pesadelo para os judeus norte-americanos do que serem acusados de pôr a segurança de Israel acima da segurança dos EUA. Se Obama decidir reagir e ativar sua arma do juízo final – a acusação de que Israel põe em risco a vida de soldados dos EUA – as consequências serão catastróficas para Israel.
Já é lugar comum que, quem não aprende com a história, está condenado a repetir erros.

Há 1942 anos, os judeus revoltaram-se contra o Império Romano na província chamada Palestina. Considerado em retrospectiva, parece loucura. A Palestina era parte pequena e insignificante do império planetário que acabava de impor uma derrota acachapante ao poder rival – o Império dos Partos (a Pérsia) – e vencera também uma grande rebelião na Britânia. Que chances teria a revolta dos judeus?

Sabe Deus o que passaria pela cabeça dos Zelotes. Mataram os líderes moderados, que alertavam contra provocar o império, e ganharam prestígio entre a população judaica local. Confiavam em Deus. Talvez confiassem também nos judeus de Roma e acreditassem que a influência deles sobre o Senado conseguiria segurar o imperador, Nero. Talvez tivessem ouvido dizer que Nero estava enfraquecido, a beira de ser derrubado.

Sabe-se como acabou: depois de três anos de luta, os rebeldes foram esmagados, Jerusalém caiu e o templo foi reduzido a cinzas. Os últimos Zelotes suicidaram-se, em Massada.

Os sionistas bem que tentaram aprender com a história. Agiram de modo racional, não provocaram as grandes potências, trabalharam para obter o que fosse possível em cada caso. Fizeram concessões e cada concessão serviu-lhe de base para andar adiante. Inteligentemente usaram o radicalismo de seus adversários e conquistaram a simpatia do mundo.

Mas desde o início da ocupação, a mente dos sionistas parece mergulhada em trevas. O culto de Massada tornou-se dominante. Promessas divinas voltam a desempenhar função importante no discurso público em Israel. Partes significativas do público seguem hoje os novos zelotes.

E a fase seguinte também já começa a repetir-se: os líderes de Israel estão começando a rebelar-se contra a nova Roma.

O que começou como insulto ao vice-presidente dos EUA já se converte agora em algo muito maior. O camundongo pariu um elefante.

Nos últimos tempos, o governo de ultra direita em Jerusalém começou a tratar o presidente Obama com mal disfarçado desprezo. Os medos que ainda havia em Jerusalém no começo de seu governo dissiparam-se. Para eles, Obama é uma pantera negra de papel. Até desistiu de exigir verdadeiro congelamento das construções nas colônias. Cada vez que lhe cuspiram na cara, Obama comentou que começava a chover.

Agora, ostensivamente de repente, a paciência esgotou-se. Obama, seu vice-presidente e seus principais assessores condenam, cada dia com mais severidade, o governo de Netanyahu. A secretária de Estado Hillary Clinton impôs um ultimato: Netanyahu tem de por fim a toda e qualquer construção nas colônias, também em Jerusalém Leste; tem de começar a negociar os problemas centrais do conflito, inclusive Jerusalém Leste, e mais.

Surpresa total em Israel. Foi como se Obama cruzasse o Rubicão, quase como o exército egípcio cruzou o canal de Suez em 1973. Netanyahu deu ordem para mobilizar todas as reservas de Israel nos EUA e avançar todos os blindados diplomáticos. Todas as organizações de judeus nos EUA receberam ordens de unir-se à campanha. O AIPAC fez soar as cornetas de chifre de carneiro e ordenou que seus soldados, no Senado e na Câmara, atacassem a Casa Branca.

Parecia que ia começar a batalha decisiva. Os líderes israelenses tinham certeza de que derrotariam Obama. Mas então, de repente, ouviu-se um som estranho: o som da arma do juízo final. O homem que decidiu ativá-la é inimigo de novo tipo, que ainda não se vira em Israel.

David Petraeus é o oficial mais popular do exército dos EUA. General de quatro estrelas, filho de um capitão do mar holandês que emigrou para os EUA quando seu país foi ocupado pelos nazistas e lá viveu toda a vida, desde a infância. Foi “distinguished cadet” na academia militar de West Point e primeiro colocado na Escola de Alto Comando do Exército. Como comandante em combate, só colheu elogios. Escreveu sua tese de doutoramento (sobre as lições do Vietnã) em Princeton e trabalhou como professor-assistente na cátedra de Relações Internacionais na Academia Militar dos EUA.

No Iraque, comandou as forças em Mossul, a cidade mais problemática de todo o país. Concluiu que, para derrotar aqueles inimigos, os EUA tinham de conquistar corações e mentes da população civil, ganhar aliados locais e gastar mais dinheiro que munição. A população local conhecia-o como “Rei David”. Seu sucesso foi considerado tão significativo, que seus métodos incorporaram-se à doutrina oficial do exército dos EUA.

Sua estrela ascendeu rapidamente. Foi nomeado comandante das forças da coalizão no Iraque e logo se tornou chefe do Comando Central do exército dos EUA, que cobre todo o Oriente Médio exceto Israel e Palestina (os quais ‘pertencem’ ao comando norte-americano na Europa).

Quando Petraeus fala, o povo dos EUA ouve. Como pensador de questões militares, não tem rivais.

Essa semana, Petraeus enviou mensagem claríssima: depois de examinar os problemas de sua Área de Responsabilidade [ing. Area Of Responsibility, AOR] – que inclui, além de outros setores, o Afeganistão, o Paquistão, o Irã, o Iraque e o Iêmen – chegou ao que chamou de “causas de raiz da instabilidade” na região. O primeiro item dessa lista é o conflito Israel-Palestina.

No relatório que Petraeus encaminhou ao Comitê das Forças Armadas, lê-se:

“As intermináveis hostilidades entre Israel e alguns de seus vizinhos implicam desafios específicos à nossa habilidade para obter avanço no rumo de nossos interesses na AOR. (...) O conflito fomenta o sentimento anti-norte-americano, porque se percebe que os EUA favorecem Israel. A fúria dos árabes motivada pela questão palestina limita a força e a profundidade das parcerias que os EUA construam com governos e povos na AOR e enfraquece a legitimidade de regimes moderados no mundo árabe. Simultaneamente, al-Qaeda e outros grupos militantes exploram essa fúria e assim mobilizam apoios. O conflito [Israel-Palestina] também faz crescer a influência do Irã no mundo árabe, mediante seus clientes, o Hizbollah libanês e o Hamás.”

Como se não bastasse, Petraeus enviou seus oficiais para que apresentasse essas conclusões ao Conselho dos Comandantes do Estado-Maior.

Em outras palavras: a paz entre palestinos e israelenses não é questão específica de dois grupos, mas assunto que envolve o superior interesse nacional dos EUA. Isso significa que os EUA têm de alterar o apoio cego que tem dado ao governo israelense e deve impor a Solução de Dois Estados.

O argumento, como tal, não é novo. Muitos especialistas já disseram aproximadamente a mesma coisa. (Imediatamente depois dos ataques de 11/9, escrevi também nessa direção e previ que os EUA teriam de mudar suas políticas. Daquela vez, nada aconteceu.) Mas agora, a mesma ideia aparece em documento oficial redigido pelo comandante norte-americano responsável.

O governo Netanyahu imediatamente entrou em modo de redução de danos. Os porta-vozes disseram que Petraeus tenta impor sua visão estreita; que nada entende de questões políticas; que o argumento é falho. Nem por isso conseguiram impedir que, em Jerusalém, muitos começassem a suar frio.

Todos sabemos que o lobby pró-Israel domina sem limites o sistema político nos EUA. Isso, ou quase isso. Todos os políticos e altos funcionários norte-americanos morrem de medo dele. O menor desvio do roteiro prescrito pelo AIPAC, implica suicídio político.

Mas há um ponto fraco na armadura desse Golias político. Como Aquiles no calcanhar, esse descomunal lobby pró-Israel tem um ponto vulnerável o qual, se atingido, pode neutralizar todo o seu poder.

Boa ilustração desse fenômeno é o caso Jonathan Pollard (relacionados a eventos ocorridos em 1983-1984). Esse judeu-norte-americano era empregado de uma importante agência de serviços de inteligência e espionava para Israel. Para os israelenses, era herói nacional, um judeu que cumpria seus deveres de judeu. Mas para a comunidade de inteligência dos EUA, não passava de um traidor que pôs em risco a vida de vários agentes norte-americanos. Não satisfeitos com as penalidades de rotina, os EUA induziram a corte de justiça a condená-lo à morte [1]. Desde então, todos os presidentes dos EUA têm recusado os repetidos pedidos do governo de Israel para que a sentença seja comutada. Até agora, nenhum presidente norte-americano atreveu-se a confrontar os altos setores da inteligência dos EUA, para os quais Pollard é criminoso e merece a sentença de morte.

O aspecto mais significativo desse caso faz lembrar o famoso comentário de Sherlock Holmes, sobre cachorros que não latiram certa noite. No caso Pollard, o AIPAC não latiu. Silêncio. Toda a comunidade dos judeus norte-americanos manteve-se (e assim continua até hoje, 25 anos depois!) calada. O AIPAC jamais defendeu Pollard.

Por quê? Porque a maioria dos judeus norte-americanos está sempre disposta a fazer absolutamente tudo – tudo! – pelo governo de Israel. Com uma única exceção: jamais farão coisa alguma que dê a impressão de ferir a segurança dos EUA. Basta que suba a bandeira da segurança, e todos os judeus, como todos os norte-americanos, perfilam-se e batem continência. A espada de Dâmocles da suspeita de deslealdade pende sobre as cabeças dos judeus norte-americanos. Não há pior pesadelo para eles do que serem acusados de pôr a segurança de Israel acima da segurança dos EUA. Exatamente por isso, é vitalmente importante para os judeus norte-americanos repetirem eternamente, sem descanso, o mantra que reza que os interesses de Israel são idênticos aos interesses dos EUA.

E então, agora, aparece o mais importante general do exército dos EUA e diz que não está sendo bem assim. Que, hoje, a política do atual governo de Israel está, sim, fazendo aumentar o risco de vida que os soldados norte-americanos enfrentam no Iraque e no Afeganistão.

Por enquanto, o assunto tem aparecido só marginalmente, em comentários de especialistas e não está, ainda, na grande mídia. Mas a espada já saiu da bainha – e os judeus norte-americanos já tremem, hoje, só de ouvir o rugido ainda distante desse terremoto.

Essa semana, um cunhado de Netanyahu usou a versão israelense de nossa arma do juízo final. Declarou que Obama seria “antissemita”. O jornal oficial do partido Shas garante que Obama, de fato, é muçulmano. Representam a direita radical e seus aliados; já escreveram que “Hussein Obama, negro que odeia judeus, tem de ser derrotado nas próximas eleições parlamentares e, depois, na próxima eleição presidencial.”

(Importante pesquisa feita em Israel e publicada ontem mostra que os israelenses não acreditam nessas insinuações: a vasta maioria entende que Obama dá tratamento justo a Israel. De fato, os números de aprovação de Obama são mais altos que os de Netanyahu.)

Mas se Obama decidir reagir e ativar sua arma do juízo final – a acusação de que Israel põe em risco a vida dos soldados dos EUA – as consequências serão catastróficas para Israel.

Por hora, parece ter sido disparado um tiro que os destróiers dão para ‘acordar’ a marujada e sinalizar para que outro navio faça o que foi instruído a fazer. O aviso é bem claro. Ainda que a crise atual amaine, não há dúvida de que voltará a incendiar-se outras e outras vezes, enquanto perdurar no poder, em Israel, a atual coalizão de governo.

Quando o filme Hurt Locker foi premiado no concurso Oscar-2010, todo o público norte-americano estava unido na preocupação com a vida dos seus soldados no Oriente Médio. Se esse público convencer-se de que Israel o está apunhalando pelas costas, será desastre completo para Netanyahu. E não só para ele.

Nota
[1] Para conhecer esse lado da história, ver “Why Pollard Should Never Be Released (The Traitor)”, The New Yorker Magazine, 18/1/1999, pp. 26-33, em http://www.freerepublic.com/focus/fr/576453/posts .

A defesa de Pollard está claramente exposta em http://www.jonathanpollard.org/ .

O artigo original, em inglês, pode ser lido em:
http://zope.gush-shalom.org/home/en/channels/avnery/1269137362

Tradução: Caia Fitipaldi

Uri Avnery é jornalista, membro fundador do Gush Shalom (Bloco da Paz israelense).

Câmara dos EUA aprova reforma no sistema de saúde

Da Reuters

WASHINGTON (Reuters) - A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos deu aprovação final para a reforma no sistema de saúde do país no domingo, expandindo a cobertura para quase todos os norte-americanos e dando ao presidente Barack Obama uma vitória histórica.

Numa votação de 219 votos favoráveis e 212 contrários, os democratas da Câmara aprovaram as mudanças mais significativas nas políticas de saúde em quatro décadas. O projeto, já aprovado pelo Senado, vai agora para a sanção de Obama.

A reforma ampliará a cobertura para 32 milhões de norte-americanos, expandindo o plano de saúde do governo para os pobres, impondo novas taxas aos mais ricos e proibindo práticas de seguradoras como se recusar a atender pessoas com problemas médicos pré-existentes.

A votação põe fim a um ano de batalhas políticas com os republicanos, que consumiu o Congresso dos EUA e abalou as taxas de aprovação de Obama.
"Nesta noite, num momento em que especialistas diziam que não era mais possível, nos elevamos sobre o peso da nossa política", disse Obama no final da noite na Casa Branca.
"Essa lei não consertará tudo que afeta nosso sistema de saúde, mas certamente nos levará decisivamente na direção correta. É com isso que a mudança se parece", disse.

Os democratas na Câmara comemoraram quando o número de votos chegou a 216, total necessário para a aprovação, e gritaram: "Yes, we can" ("Sim, podemos"), slogan da campanha que elegeu Obama. Todos os republicanos se opuseram ao projeto e 34 democratas se juntaram a eles ao votarem contra a reforma.
(Reportagem adicional de Susan Heavey, Thomas Ferraro, Paul Simao e Caren Bohan).

Apenas para ilustrar, num país em que 50 milhões de americanos não têm sequer cobertura de saúde, uma carta de uma faxineira de 50 anos, Natoma Canfield, enviada à Casa Branca (cujo texto, em inglês pode ser lido aqui), onde narra o drama que vive para custear seu plano de saúde, pois é portadora de câncer (do blog do Brizola Neto):

“(…)minha companhia de seguro (de saúde) recebeu US$ 6075,24 em prêmios e pagou apenas US$ 935,32! Fui avisadade que meu prêmio para o próximo ano 2010 foi aumentado em mais de 40% )!!!! para US$ 8496,24 (US$$ 708,02 por mês) É a mesma companhia de seguros que paguei por 11 anos antes do câncer!

Eu preciso do seu projeto de reforma da Saúde para me ajudar! Eu simplesmente não posso mais pagar (…) Graças a este incrível aumento (…), janeiro será o meu último mês de cobertura.”


sábado, 13 de fevereiro de 2010

Nova Direita cresce nos EUA

El Pais
Do Portal UOL

Antonio Caño

Em Washington o movimento conservador em ascensão rompeu os moldes do republicanismo e lembra o caráter racista e fanático do fascismo

Se alguém acredita que a dupla Bush-Cheney é a versão mais extrema do conservadorismo americano, é possível que logo comprove que está errado. O movimento conservador em desenvolvimento nos últimos meses nos EUA, alimentado pelo rancor de uma classe média empobrecida e pela ambição de uma nova classe política pós-partidária, rompeu os moldes do republicanismo tradicional e lembra o caráter racista, nacionalista e fanático do fascismo. Por enquanto só lhe falta o ingrediente da violência.

O último sinal de alarme foi a recente reunião do movimento Tea Party em Nashville (Tennessee), e o discurso de seu líder mais visível, Sarah Palin, que levou o populismo ao grau de elogiar a ignorância como mostra de autenticidade e de destacar como maior qualidade política de Scott Brown, o recém-eleito senador por Massachusetts, o fato de ser "simplesmente um homem com uma camionete".

Palin é aclamada por seus seguidores pela simplicidade de seu expediente acadêmico, uma simples graduação em jornalismo pela modesta Universidade de Wyoming, contra os títulos da Ivy League que Barack Obama acumula em Columbia e Harvard. O próprio Brown ganhou adeptos pela virilidade abertamente exibida na revista "Cosmopolitan", contra o refinamento pudico dos políticos tradicionais.
A nação dos Tea Party se mostra, com efeito, convencida de ter implementado uma revolução contra a oligarquia de Washington semelhante à que no século 18 expulsou os colonialistas britânicos. De repente, os republicanos com mais "pedigree" estão em perigo diante dessa onda. O governador da Flórida, Charlie Crist, um moderado que no ano passado gozava de 70% de popularidade, hoje se vê superado nas pesquisas por um jovem desconhecido ultrarreligioso chamado Marco Rubio. Até John McCain, o indiscutível vice-rei do Arizona, hoje está seriamente ameaçado por J. D. Hayworth, um charlatão de uma rádio local que, na definição do "New York Times", "todo dia ataca, e nem sempre nesta ordem, a imigração ilegal, a perda de patriotismo no país e tudo o que Obama faz".

Todas as manhãs surge entre as fileiras do Tea Party algum desconhecido que em meia hora da demagogia mais radical ganha 10 pontos nas pesquisas. "O movimento está amadurecendo", afirma Judson Phillips, um dos fundadores desse fenômeno. "As manifestações estavam bem para o ano passado, mas este ano é preciso mudar as coisas, este ano temos de ganhar."

Ganhar o quê? Para conduzir o país aonde? Alguns conservadores moderados e cultos, como Peggy Noonan ou David Brooks, afirmam que não há nada a temer, que esses grupos são enraizados nas tradições libertárias dos EUA e que sua contribuição servirá para dinamizar a vida política do país.

É possível. Certamente, a hostilidade que este movimento manifesta em relação a Obama não se afasta muito da que a esquerda exibiu contra Bush - devem-se lembrar as menções a seu vício em álcool ou sua suposta indigência intelectual - e cabe perfeitamente, portanto, no jogo da democracia.

Mas de um ponto de vista europeu, no que está acontecendo hoje nos EUA, se observa algo mais que isso. Um dos oradores em Nashville afirmou com convicção que "o nascimento de Cristo está melhor documentado que o de Obama". "É africano", gritou uma mulher da platéia. Por trás dessa campanha que nega ao presidente sua cidadania norte-americana, parece esconder-se tanto um sentimento ultranacionalista quanto uma rejeição a sua raça.

Ninguém fala nos EUA sobre esse último fator. Para os que apoiam Obama, pode parecer vantagismo recorrer ao grito de racismo cada vez que se critica o presidente. Seus inimigos, é claro, não admitem esse pecado, por mais que na reunião de Nashville se escutasse só uma voz negra, obviamente exibida para ocultar o caráter puramente branco do movimento. Esse novo conservadorismo reúne muito da frustração do homem branco acumulada desde a liberação feminina, os direitos civis, de todas as leis para a igualdade que foram reduzindo o poder do setor social eternamente dominante. Esse homem branco que tampouco se viu favorecido pelos bons contatos, as amizades úteis, o dinheiro fácil, e que foi engrossando nas últimas décadas uma classe média que foi o orgulho da nação nos anos 1950, mas que foi impiedosamente maltratada pela última revolução tecnológica e a recente crise econômica.

Essa classe média branca ferida dispara contra o que está mais perto: os imigrantes, as minorias raciais, os dirigentes políticos. Tenta reduzir a concorrência, que considera injusta, e pretende que os EUA sejam só para os verdadeiros americanos. Busca a salvação em novas doutrinas, e atende à voz maternal de Palin e aos alaridos patrióticos dos locutores de rádio. Glenn Beck ou Rush Limbaugh se transformam assim nos Walter Conkrite dos novos tempos.

Os conservadores americanos não creem que haja qualquer perigo. Confiam cegamente na força integradora dessa democracia e em sua capacidade indestrutível de conter qualquer ameaça. Mas, de uma óptica europeia, essa combinação de demagogia, racismo, nacionalismo e xenofobia, assumida por uma classe média ferida e agitada, é uma receita muito conhecida e ainda temida. É verdade que o novo movimento conservador americano se orgulha sua defesa da liberdade e ainda não parece compatível com um governo que não garantisse o respeito ao indivíduo. Mas o aroma de Nashville semeia dúvidas, traz más sensações, assusta.

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terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O Egoísmo dos Bancos

O texto é de Thomas Friedman, colunista de assuntos internacionais do New York Times, e revela seu apoio às políticas de Barack Obama para evitar que novos "incidentes" como o de 2008 voltem a ocorrer no sistema financeiro americano.

 

 

Somente adultos, por favor


Thomas L. Friedman
Talvez seja só eu, mas nas últimas semanas achei a política americana particularmente irritante. Nossa economia ainda está muito frágil, mas não daria para perceber isso pela forma que a classe política está agindo. Somos como um paciente que acaba de sair da UTI e está sentando na cama pela primeira vez quando, subitamente, todos os médicos e enfermeiros começam a discutir ao lado da cama. Um deles joga um estetoscópio para longe; outro ameaça desligar todos os monitores a não ser que as contas do hospital sejam pagas até o meio dia; e o tempo todo o paciente está pensando: “Vocês estão loucos? Estou apenas começando a me recuperar. Vocês não entendem como seria fácil eu ter uma recaída? Não há adultos aqui?”
Algumas vezes você se pergunta: será que estamos em casa sozinhos? Obviamente as elites políticas e financeiras a quem damos autoridade frequentemente agem com base em interesses pessoais. Mas ainda temos muito que avançar para sairmos da bagunça em que entramos e, se nossas elites não se comportarem com maior senso de bem comum, podemos ver nossa economia dar outro mergulho com salto mortal.
Dov Seidman, diretor executivo da LRN, que ajuda empresas a construírem culturas éticas, gosta de falar em dois tipos de valores: “valores de ocasião” e “valores sustentáveis”. Os líderes, empresas ou indivíduos guiados por valores de ocasião agem conforme o momento, não importa os interesses maiores de suas comunidades. Um banqueiro que assina uma hipoteca para alguém que sabe que não poderá pagar a dívida no longo prazo está agindo com valores de ocasião, dizendo: “Não estarei mais aqui quando a conta aparecer.”
As pessoas inspiradas por valores sustentáveis agem de forma exatamente oposta, dizendo: “Nunca vou embora. Estarei sempre aqui. Portanto, preciso me comportar de uma forma que sustente meus empregados, meus clientes, meus fornecedores, meu ambiente, meu país e as futuras gerações.”
Ultimamente, vimos uma explosão de pessoas pensando apenas em valores de ocasião. Em geral, apóio as propostas que o presidente Barack Obama expôs na semana passada para impedir os bancos de se tornarem grandes demais para falirem e para proteger os contribuintes dos bancos que entram em colapso especulando excessivamente e que depois esperam que livremos a cara deles. Mas a forma como o presidente revelou suas propostas –“Se esses sujeitos querem briga, essa briga estou disposto a ter”- me fez sentir como se ele estivesse procurando uma forma de falar mal dos bancos logo após a perda dos democratas em Massachusetts, para marcar alguns pontos políticos baratos no lugar de iniciar uma discussão nacional séria sobre uma questão incrivelmente complexa.
Obama é tão melhor quando ele pega uma questão quente e enrolada, como direitos civis ou reforma bancária, e fala ao país como a um adulto. Ele é tão melhor quando nos deixa mais inteligentes do que raivosos. Entrar em guerra com os bancos para tirar um rápido prazer de popularidade após uma perda eleitoral só vai funcionar contra ele e contra nós. Vai fazer os bancos emprestarem ainda menos e retardar ainda mais a recuperação.
Isso dito, uma parte de mim não culpa o presidente. O comportamento de alguns importantes bancos de Wall Street, particularmente do Goldman Sachs, foi extremamente egoísta. Os contribuintes norte-americanos seguraram o Goldman ao salvarem um de seus maiores devedores, a AIG. Em qualquer cálculo justo, o Tesouro americano deveria ter uma fatia do Goldman hoje. Por anos, o Goldman foi o exemplo maior de bancos que se comportavam com base em valores de ocasião –explorando o que quer que uma ocasião ou regra permitissem.
Obama também tentou criar uma comissão bipartidária para criar um plano para reduzir a dívida nacional –um plano que causaria dor aos dois partidos cortando alguns programas e aumentando alguns impostos. Contudo, o líder republicano, senador Mitch McConnnell, disse que o partido não ia cooperar com qualquer comissão que propusesse o aumento de impostos. E alguns democratas liberais rejeitaram cortar seus programas favoritos. Isso é que é altruísmo pelo país.

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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O Discurso do Estado da Uniao de Barack Obama

No seu discurso do Estado da Uniao, em que apresenta as propostas de governo e prioridades a nacao via Congresso Americano, o Presidente dos EUA, Barack Obama, deu o tom das iniciativas que deverao nortear as acoes durante o seu mandato para este ano, sendo destaque a necessidade urgente de geracao de empregos e uma nova postura perante o sistema financeiro e os grandes investidores, bem diferente da adotada pelos Republicanos que priorizaram os cortes de impostos para os mais ricos, quando no final do discurso ele pontuou: "Continuaremos cortando impostos para as famílias de classe média - mas não para as companhias petrolíferas, não para os bancos de Wall Street, não para quem ganha mais de 250 mil dólares por ano. Não podemos pagar por isso". E isso que os americanos chamam de "guinada a esquerda"...





WASHINGTON, EUA — Em seu primeiro discurso do Estado da União, o presidente americano, Barack Obama, afirmou que a criação de empregos será sua prioridade número um em 2010, numa tentativa de reacender a confiança da população em sua promessa de mudanças, após seu primeiro ano na Casa Branca.

Obama admitiu que seu governo sofreu alguns revezes ao longo de 2009 - alguns merecidos, ponderou. Falando num tom confiante, entretanto, prometeu: "nós não vamos desistir. Eu não desisto, vamos começar do zero", referindo-se às diferentes crises que enfrenta dentro e fora dos Estados Unidos.

Em um longo discurso de 68 minutos, pontuado por entusiasmados aplausos, o presidente expôs seus planos e prioridades para 2010, pediu colaboração entre republicanos e democratas para avançar reformas e dedicou grande parte do tempo à economia e a questões domésticas, afirmando que sua missão agora é ajudar a classe média alquebrada pela crise.

Além disso, fez uma avaliação de sua própria performance à frente do governo, que em um ano deixou de ser aprovada pela maioria dos americanos para afundar em níveis preocupantes de popularidade abaixo de 50%. No entanto, pediu apoio para levar adiante iniciativas arriscadas politicamente, como a reforma da saúde.

"Fiz minha campanha com uma promessa de mudança - uma mudança na qual podemos acreditar, dizia o slogan", disse Obama, evocando os dias de sua histórica campanha eleitoral.

"Neste exato momento, eu sei que muitos americanos não têm certeza se ainda podem acreditar em mudanças - ou, pelo menos, se eu serei capaz de fazê-las", estimou, acrescentando, em tom lacônico: "as mudanças não vieram rápido o suficiente".

No entanto, indicou, "nunca estive tão esperançoso sobre o futuro dos EUA quanto estou hoje. Apesar de nossas dificuldades, nossa união é forte. Nós não desistimos. Nós não deixamos o medo ou as divisões deprimirem nosso espírito".

Obama listou uma série de propostas e iniciativas, mas o ambiente político nos Estados Unidos este ano - com as eleições legislativas de novembro - é tão tenso, que dificilmente será possível contar com o apoio necessário para levar adiante tantas promessas.

Falando sobre a polêmica reforma do sistema de saúde que tenta aprovar no Congresso - uma semana depois de ter perdido a maioria democrata no Senado -, Obama prometeu não "abandonar" sua luta para concretizar a iniciativa.

"Depois de quase um século de governos democratas e republicanos, estamos muito próximos de conseguir" aprovar a reforma da saúde.

Ao mesmo tempo, afirmou que as ações de seu governo evitaram que o país afundasse em uma depressão semelhante à da década de 30.

"Quando cheguei ao governo, no meio desta crise, percebi que se nçao agíssemos poderíamos enfrentar outra recessão. E nós agimos imediatamente", disse Obama. "Há dois milhões de americanos trabalhando agora, que não estariam trabalhando" se não fosse pelo pacote aprovado pelo governo para reativar a economia.

Obama também falou sobre o resgate de vários bancos de investimento, responsabilizados pelo quase colapso do sistema financeiro.

"Nossa tarefa mais urgente ao assumir o governo era ajudar os mesmos bancos que haviam criado essa crise", disse. "Eu odiei isso, você odiou isso, mas quando eu concorri à presidência, prometi que não faria apenas o que fosse popular, mas também o que fosse necessário".

O presidente pediu ao Congresso que aprove "sem demora" uma outra lei, anunciada na noite desta quarta-feira, para estimular a criação de empregos, e afirmou que se o projeto apresentado não for forte o suficiente para recuperar o mercado de trabalho - que perdeu sete milhões de empregos nos últimos dois anos - ele o vetará até que o texto esteja de acordo com as necessidades do país.

"Os empregos precisam ser nosso foco número um em 2010", declarou Obama, anunciando que destinará 30 bilhões de dólares do dinheiro devolvido pelos bancos resgatados pelo governo no auge da crise, em 2008, para financiar crédito para as pequenas empresas, incentivando assim a criação de novos postos de trabalho.

Obama disse também que o país precisa dobrar o volume de exportações nos próximos cinco anos, o que abriria cerca de duas milhões de novas vagas. No entanto, entre tantos pedidos feitos ao Congresso, a análise de eventuais novos acordos comerciais não estava entre eles.

Obama só falou de política externa nos últimos minutos de seu discurso, claramente dominado pelas preocupações econômicas do governo, e não entrou em muitos detalhes. Rapidamente, alertou que o Irã enfrentará "crescentes consequências" se insistir em avançar seu programa nuclear.

Além disso, indicou que a Coreia do Norte estava cada vez mais isolada devido à insistência de manter armas nucleares.

Obama pediu à população que apóie as forças dos Estados Unidos no Afeganistão, e destacou que as tropas de combate americanas que ainda estão no Iraque voltarão para casa até o fim de agosto de 2010.
(...)

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sábado, 23 de janeiro de 2010

PAINEL INTERNACIONAL





Obama endurece a relação com os bancos após derrota em Massachusetts

Em Washington (EUA)A posição mais dura na regulamentação financeira, apresentada pelo presidente Barack Obama na quinta-feira, refletia a mudança no clima político, a recuperação das fortunas dos grandes bancos após serem resgatados pelos contribuintes e uma mudança no poder dentro do governo, com um distanciamento daqueles que eram vistos como mais solidários com Wall Street.

Ao pedir por novos limites ao tamanho dos grandes bancos e sua capacidade de fazer apostas de risco, Obama desferiu um golpe público em Wall Street pela terceira vez na semana, ressaltando o imperativo para que ele e seu partido adotem um tom mais populista, especialmente após a vitória republicana na terça-feira, na eleição para a cadeira no Senado em Massachusetts.

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, participa de anúncio sobre novas regras para os bancos socorridos pelo governo ao lado do vice-presidente, Joe Biden

Ao anunciar suas propostas na quinta-feira na Casa Branca, Obama disse que se o setor financeiro quiser lutar a respeito das novas restrições, essa é uma luta que ele está pronto para travar.

A nova abordagem foi bem recebida pela equipe política da Casa Branca e pelo vice-presidente, Joe Biden, e apresentada por uma equipe econômica menos entusiasmada sob ordens de Obama.

Também foi uma vitória para Paul Volcker, o ex-presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) e consultor externo de Obama. Até quinta-feira, quando estava ao lado do presidente no anúncio da nova política pela Casa Branca, Volcker estava de fora do processo de tomada de decisão do governo. Ele expressava de forma cada vez mais pública a necessidade do governo de reprimir o que descrevia como o mesmo tipo de operações que a de um cassino por parte dos grandes bancos que quase destruíram o sistema financeiro.

Ao adotar a posição mais dura, Obama deixou de lado uma abordagem mais limitada à regulamentação que vinha sendo defendida desde o ano passado por sua equipe econômica, liderada pelo secretário do Tesouro, Timothy Geithner

Obama eleva Tom contra Banqueiros e aponta "Decisoes Idiotas"




Do Portal Terra

O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse nesta sexta-feira querer implantar novas regulações financeiras para proteger os contribuintes de "decisões idiotas" tomadas por bancos.

"Será uma briga, vocês assistam. Eu garanto a vocês que quando começarmos a reforma do (sistema) regulatório financeiro, tentando mudar as regras para prevenir o que causou tanta dor de cabeça em todo o país, haverá algumas pessoas que dirão 'por que ele está interferindo na indústria financeira?'".

"Só quero ter algumas regras para que quando esses caras tomarem decisões idiotas vocês não terminem pagando a conta. Não me importo em ter uma briga", afirmou Obama, que foi aplaudido durante evento em Elyria, no Estado americano de Ohio.