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sábado, 24 de abril de 2010

Não chore por Wall Street

Paul Krugman
do New York Times


Na quinta-feira, o presidente Barack Obama foi a Manhattan, onde pediu a uma plateia composta em grande parte por pessoas de Wall Street para apoiar a reforma financeira. “Eu acredito”, ele declarou, “que essas reformas são, no final, não apenas do melhor interesse de nosso país, mas do melhor interesse do setor financeiro”.
Bem, eu gostaria que ele não tivesse dito isso –e não porque ele realmente precisa, por razões políticas, assumir uma postura populista, para se distanciar publicamente dos banqueiros. O fato é que Obama deve tentar fazer o que é melhor para o país –ponto. Se para isso for preciso prejudicar os banqueiros, tudo bem.
Mais do que isso, a reforma deve de fato prejudicar os banqueiros. Um conjunto crescente de análises sugere que um setor financeiro inchado está prejudicando a economia como um todo. Encolher esse setor não deixará Wall Street feliz, mas o que é ruim para Wall Street é bom para os Estados Unidos.
Mas as reformas atualmente na mesa –que eu apoio– podem acabar sendo boas para o setor financeiro tanto quanto para nós, porque elas lidam apenas com parte do problema: elas tornariam as finanças mais seguras, mas poderiam não tornar o setor financeiro menor.
E qual o problema com o setor financeiro? Começa pelo fato de que o setor financeiro moderno gera lucros e contracheques imensos, mas fornece poucos benefícios tangíveis.
Lembra do filme “Wall Street –Poder e Cobiça” de 1987, no qual Gordon Gekko declarava: ganância é bom? Segundo os padrões de hoje, Gekko era um amador. Nos anos que antecederam a crise de 2008, o setor financeiro foi responsável por um terço do total dos lucros domésticos –quase duas vezes a participação de duas décadas atrás.
Esses lucros eram justificados, eles nos diziam, porque o setor estava fazendo grandes coisas para a economia. Ele estava canalizando capital para usos produtivos; estava diluindo o risco; estava ampliando a estabilidade financeira. Nada disso era verdade. O capital não estava sendo canalizado para inovadores criadores de empregos, mas para uma bolha imobiliária insustentável; o risco foi concentrado, não diluído; e quando a bolha imobiliária estourou, o sistema financeiro supostamente estável implodiu, com a pior recessão global desde a Grande Depressão como dano colateral.
Então para que os banqueiros estavam ganhando tanto dinheiro? Minha posição, refletindo os esforços dos economistas financeiros para entender a catástrofe, é de que, principalmente, para apostar com o dinheiro dos outros. O setor financeiro fez grandes apostas arriscadas com fundos emprestados –apostas que deram retornos elevados até perderem– mas que só foram possíveis de ser tomados de forma barata porque os investidores não entendiam quão frágil era o setor.
E quanto aos muito falados benefícios da inovação financeira? Eu estou com os economistas Andrei Shleifer e Robert Vishny, que argumentaram em um recente trabalho que grande parte dessa inovação foi para criar a ilusão de segurança, fornecendo aos investidores “falsos substitutos” para ativos à moda antiga, como depósitos bancários. No final a ilusão acabou –e o resultado foi uma crise financeira desastrosa.
Em seu discurso de quinta-feira, a propósito, Obama insistiu –duas vezes– que a reforma financeira não limitaria a inovação. Que pena.
E aqui está o pior: após serem duramente atingidos logo após a crise, os lucros do setor financeiro estão subindo de novo. Parece bastante provável que o setor em breve voltará a jogar os mesmos jogos que nos colocaram nesta confusão.
E o que deve ser feito? Como eu disse, eu apoio as propostas de reforma do governo Obama e de seus aliados no Congresso. Entre outras coisas, seria uma vergonha ver a campanha antirreforma dos líderes republicanos –uma campanha marcada por uma desonestidade e hipocrisia de tirar o fôlego– ser bem-sucedida.
E essas reformas devem ser apenas o primeiro passo. Nós também precisamos reduzir o tamanho do setor financeiro
E não são apenas críticos de fora dizendo isto (não que haja algo errado com críticos de fora, que têm se mostrado muito mais certos do que as pessoas de dentro supostamente conhecedoras; veja o caso de Alan Greenspan). Uma proposta intrigante está prestes a ser apresentada por, quem diria, o Fundo Monetário Internacional. Em um estudo que vazou, preparado para uma reunião deste fim de semana, o fundo pede por um Imposto Sobre Atividade Financeira, um imposto sobre os lucros e remuneração do setor financeiro.
Esse imposto, argumenta o fundo, poderia “atenuar a excessiva tomada de risco”. Também poderia ajudar a “reduzir o tamanho do setor financeiro”, o que o fundo considera algo bom.
Na verdade, a proposta do FMI é bastante branda. Todavia, se ela caminha na direção da realidade, Wall Street se queixará.
Mas o fato é que estamos dedicando uma parcela grande demais de nossa riqueza, uma parcela grande demais do talento de nosso país, ao trabalho de conceber e vender esquemas financeiros complexos –esquemas que têm a tendência de destruir a economia. Dar um fim a este estado das coisas prejudicará o setor financeiro. E daí?
Tradução: George El Khouri Andolfato

segunda-feira, 22 de março de 2010

Câmara dos EUA aprova reforma no sistema de saúde

Da Reuters

WASHINGTON (Reuters) - A Câmara dos Representantes dos Estados Unidos deu aprovação final para a reforma no sistema de saúde do país no domingo, expandindo a cobertura para quase todos os norte-americanos e dando ao presidente Barack Obama uma vitória histórica.

Numa votação de 219 votos favoráveis e 212 contrários, os democratas da Câmara aprovaram as mudanças mais significativas nas políticas de saúde em quatro décadas. O projeto, já aprovado pelo Senado, vai agora para a sanção de Obama.

A reforma ampliará a cobertura para 32 milhões de norte-americanos, expandindo o plano de saúde do governo para os pobres, impondo novas taxas aos mais ricos e proibindo práticas de seguradoras como se recusar a atender pessoas com problemas médicos pré-existentes.

A votação põe fim a um ano de batalhas políticas com os republicanos, que consumiu o Congresso dos EUA e abalou as taxas de aprovação de Obama.
"Nesta noite, num momento em que especialistas diziam que não era mais possível, nos elevamos sobre o peso da nossa política", disse Obama no final da noite na Casa Branca.
"Essa lei não consertará tudo que afeta nosso sistema de saúde, mas certamente nos levará decisivamente na direção correta. É com isso que a mudança se parece", disse.

Os democratas na Câmara comemoraram quando o número de votos chegou a 216, total necessário para a aprovação, e gritaram: "Yes, we can" ("Sim, podemos"), slogan da campanha que elegeu Obama. Todos os republicanos se opuseram ao projeto e 34 democratas se juntaram a eles ao votarem contra a reforma.
(Reportagem adicional de Susan Heavey, Thomas Ferraro, Paul Simao e Caren Bohan).

Apenas para ilustrar, num país em que 50 milhões de americanos não têm sequer cobertura de saúde, uma carta de uma faxineira de 50 anos, Natoma Canfield, enviada à Casa Branca (cujo texto, em inglês pode ser lido aqui), onde narra o drama que vive para custear seu plano de saúde, pois é portadora de câncer (do blog do Brizola Neto):

“(…)minha companhia de seguro (de saúde) recebeu US$ 6075,24 em prêmios e pagou apenas US$ 935,32! Fui avisadade que meu prêmio para o próximo ano 2010 foi aumentado em mais de 40% )!!!! para US$ 8496,24 (US$$ 708,02 por mês) É a mesma companhia de seguros que paguei por 11 anos antes do câncer!

Eu preciso do seu projeto de reforma da Saúde para me ajudar! Eu simplesmente não posso mais pagar (…) Graças a este incrível aumento (…), janeiro será o meu último mês de cobertura.”