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quarta-feira, 31 de março de 2010

Noam Chomsky: Um evento 'lamentável' a leste de Jerusalém

Noam Chomsky
Do The New York Times
Via Terra Magazine
Mais uma vez o ponto de ignição é Jerusalém Oriental, tomada por Israel na guerra de 1967 - desta vez, a questão gira em torno de um condomínio de 1.600 de apartamentos na vizinhança de Ramat Shlomo. E mais uma vez o resultado foi a morte de palestinos por israelenses.
No dia 9 de março, o Ministro do Interior de Israel anunciou um novo projeto durante a visita do vice-presidente dos Estados Unidos, Joseph R. Biden, a terras israelenses. O Presidente Barack Obama havia pedido que fosse refreada a expansão de assentamentos em território ocupado.
A reação foi intensa e imediata. O Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, pediu desculpas publicamente pela 'lamentável' ocasião, mas insistiu que Israel poderia construir livremente em Jerusalém Oriental e em outros pontos dos territórios que deseja anexar.
Biden teve uma conversa fechada com Netanyahu, invocando as preocupações das forças armadas norte-americanas com o fracasso em resolver a questão do conflito entre Israel e Palestina, segundo relata a imprensa Israelense.
"O que você está fazendo prejudica a segurança de nossas tropas que estão no Iraque, Afeganistão e Paquistão", teria dito Biden a Netanyahu. "Isso é uma ameaça para nós e para a paz na região."
No dia 16 de março, o general David H. Petraeus, chefe do Comando Central americano, levantou essas preocupações para o Comitê das Forças Armadas no Senado: "O conflito fomenta o sentimento antiamericano, pois suscita um suposto favoritismo a Israel."
Uma semana mais tarde, Netanyahu e Obama encontraram-se na Casa Branca para uma conversa mais tarde denominada de "litigiosa".
Netanyahu mantém uma posição firme com relação aos assentamentos. E ele não faz questão de reconhecer a viabilidade de um estado palestino. Essa intransigência afeta de forma negativa a credibilidade dos Estados Unidos.
Ocorreu um contratempo parecido, há 20 anos, também envolvendo os assentamentos, que levou o então presidente George H.W. Bush a impor sanções limitadas a Israel, em resposta ao comportamento petulante e insultuoso do Primeiro Ministro Yitzhak Shamir, que foi rapidamente substituído. A questão continua se a administração Obama está disposta a tomar medidas, mesmo que mais abrandadas, como fez Bush pai.
A situação agora é mais séria. Com Israel, os setores ultranacionalistas e religiosos emergem com uma perspectiva estreita e limitada. E as forças armadas dos EUA têm no histórico algumas guerras pouco populares na região.
Em maio passado, em Washington, Obama encontrou-se com Netanyahu e Mahmoud Abbas, presidente da Autoridade Palestina. Os encontros, juntamente com o discurso de Obama no Cairo em junho, foram interpretados como um divisor de águas para a política norte-americana com relação ao Oriente Médio.
Se olharmos mais de perto, há algumas reservas.
A interação entre os EUA e Israel - com Abbas deixado de lado - gerou duas expressões: "Estado palestino" e "crescimento natural de assentamentos." Vamos atentar a elas individualmente.
Obama, não há dúvidas, pronunciou as palavras "estado palestino", ecoando o discurso do presidente George W. Bush. Em contraste, a plataforma (não revisada) de 1999 do partido de situação em Israel, o Likud de Netanyahu, "rejeita ostensivamente o estado árabe palestino a oeste do rio Jordão".
É importante também lembrar que o governo de Netanyahu em 1996 foi o primeiro em Israel a utilizar a expressão "estado palestino". O governo concordara que os palestinos tinham o direito de chamar de "estado" os fragmentos da Palestina que lhes sobraram se assim desejassem - ou poderiam chamar também de "frango frito".
Em maio passado, a posição de Washington fora apresentada de forma mais impositiva com a declaração da Secretária de Estado, Hillary Clinton, rejeitando as "expectativas de crescimento natural" para a política oficial americana que se opunha à criação de novos assentamentos.
Netanyahu e quase todos os políticos israelenses insistem em permitir o dito "crescimento natural", reclamando que os Estados Unidos não estão honrando a palavra de Bush que autorizou essa expansão, dentro da sua "visão" do estado palestino.
A formulação Obama-Clinton não é novidade. Ela repete o discurso do Guia Bush para o Estado Palestino, estipulando que, na Fase I, Israel "deve cessar toda a atividade de assentamentos, em concordância com o relatório do ex-senador George J. Mitchell, incluindo o crescimento natural de assentamentos".
No Cairo, Obama manteve seu estilo "tabula rasa" - com pouca substância, mas apresentado de forma atraente que permite aos ouvintes preencher as lacunas com as informações de sua preferência.
Obama reverberou a "visão" de Bush de uma estado palestino, sem dizer explicitamente sua opinião.
Obama declarou: "Os Estados Unidos não aceitam a legitimidade da multiplicação contínua dos assentamentos israelenses". As palavras mais importantes da declaração são "legitimidade" e "contínua".
Por omissão, Obama indicou que aceita a "visão" de Bush. Os numerosos projetos israelenses de assentamento e infraestrutura na Cisjordânia são implicitamente "legítimos", reafirmando que a expressão "estado palestino", no que tange as sobras de território, significa mesmo "frango frito".
Em novembro último, Netanyahu decretou uma suspensão de 10 meses na nova construção, com muitas isenções e excluindo completamente a Grande Jerusalém, onde a desapropriação das áreas árabes e a construção de assentamentos judaicos, como o projeto Rabat Shlomo, continuem a largos passos.
Esses projetos são duplamente ilegais: Como os assentamentos, eles violam a lei internacional - e, em Jerusalém, as resoluções do Conselho de Segurança específico.
Em Jerusalém na época, Hillary Clinton parabenizou as concessões "sem precedentes" de Netanyahu para a construção (ilegal), gerando uma onda de raiva e zombaria por grande parte do mundo.
A administração Obama defende a "reconceitualização" do conflito no Oriente Médio, articulada mais claramente em março último pelo membro do Comitê de Relações Estrangeiras do Senado, John Kerry.
Israel deve ser integrado aos estados árabes "moderados", aliados dos Estados Unidos, confrontando o Irã e fornecendo meios para a dominação dos EUA nas regiões férteis em produção de energia vital. Com esse modelo, é possível que alguns assentamentos do eixo Israel-Palestina possam ser acomodados.
Enquanto isso, as relações entre os Estados Unidos e Israel se aprofundam. A cooperação próxima da inteligência dos dois países já dura meio século.
As parceiras tecnológicas entre os EUA e Israel nunca estiveram melhores. A Intel, por exemplo, vai adicionar uma instalação gigantesca à fábrica de Kiryat Gat para implementar uma redução revolucionária ao tamanho dos chips que fabrica.
Os laços entre a indústria militar americana e israelense continuam especialmente próximos, tanto que Israel está mudando suas instalações de desenvolvimento e produção para os Estados Unidos onde o acesso à ajuda militar americana e aos mercados é facilitada. Israel também vislumbra a possibilidade de transferir a produção de veículos blindados para os Estados Unidos, apesar dos protestos de milhares de trabalhadores israelenses que perderão seus empregos.
As relações também beneficiam os produtores militares norte-americanos - duplamente, porque os fornecedores norte-americanos de armas financiadas pelo governo americano e enviadas a Israel, que já são por si só muito lucrativas, também funcionam como "propaganda" para induzir as ditaduras árabes ricas (as chamadas "moderadas") a comprar grandes quantidades de equipamento militar menos sofisticado.
Israel também continua a fornecer aos EUA uma base militar localizada estrategicamente para o pré-posicionamento de armas e outras funções - mais recentemente, em janeiro, quando o exército norte-americano aumentou para "o dobro do valor de equipamento militar de emergência que mantém estocado em solo israelense", chegando a US$ 800 milhões.
"Mísseis, veículos blindados, munição aérea e armamentos em geral já são armazenados no país", relata a publicação Defense News.
Esses são alguns dos vantajosos serviços que Israel tem oferecido às forças armadas dos EUA e o domínio global, bem como para a economia de alta tecnologia dos Estados Unidos.
Eles dão certa tolerância para que Israel desafie algumas ordens de Washington - apesar de que Israel estaria correndo um sério risco se abusasse da sorte, como mostra a história. A arrogância de Ramat Shlomo certamente provocou quem não deveria.
Israel só poder ir até onde os EUA permitirem. Os Estados Unidos foram por muito tempo um participante direto até dos crimes israelenses que tanto condena - com algumas reservas, claro. O que não sabemos ainda é se essa farsa vai continuar.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Pepe Escobar: O Brasil interpõe-se entre Israel e Irã

"Nunca antes na história deste país". A frase bem conhecida e "patenteada" pelo Presidente Lula deve ser aplicada ao atual momento por que passa a diplomacia brasileira. Ao colocar o Brasil como protagonista importante de assuntos complexos como este, do Oriente Médio, envolvendo Irã, Israel e EUA, na posição de interlocutor privilegiado, capaz de falar firme e ponderadamente a favor de uma postura de não confrontação e de diálogo, o país passa a adquirir respeito da comunidade internacional, fazendo, juntamente com os outros BRICs, um contraponto ao stablishment mais radical, os senhores da guerra, que querem o confronto a qualquer custo. Deixou o Brasil de ser quase que um mero espectador, que não se metia em assuntos dos quais todo país de peso e importância geopolítica não poderia se furtar, se alinhando automaticamente com o bloco EUA-Europa, quase que pedindo desculpas em situações que exijiam um posicionamento mais claro. Nesse jogo de xadrez, torcemos pela paz, esperarando pelos próximos acontecimentos...

Do Asia Times
Via blog do Azenha
Por Pepe Escobar

Por falar em Via Dolorosa, Luiz Inacio Lula da Silva foi o primeiro presidente do Brasil a visitar oficialmente Israel. Louvado por seu carisma, habilidade e formidáveis capacidades de negociador – Obama, dos EUA, refere-se a ele como “O cara” –, mal sabia o presidente Lula que, para conseguir conversar seu anfitrião, essa semana, teria de passar a perna no próprio profeta Abraão em pessoa, nada mais, nada menos.
Ao fim e ao cabo, Lula não se deixou enrolar. Não fez concessões. E, diferente do vice-presidente dos EUA Joseph Biden, semana passada, conseguiu não ser humilhado publicamente pelos donos da casa.
Lula é homem habituado a enfrentar interlocutores duros. Avigdor Lieberman, ministro de Negócios Internacionais de Israel, boicotou seu discurso no Parlamento e o encontro com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. O motivo: Lula não visitou o túmulo do fundador do sionismo Theodor Herzl. Ora essa! Nem Nicolas Sarkozy da França, nem Silvio Berlusconi da Itália visitaram o tal túmulo, quando visitaram Israel.
Brasília – como Paris e Roma – sabe muito bem que visitar túmulos não é obrigatório em viagens presidenciais. Ainda assim, um coro dos colonos judeus sionistas fanáticos do partido Likud em Israel não mediu palavras para ‘diagnosticar’ que a não-visita feriria de morte a competência do governo do Brasil para atuar com o mediador no conflito Israel-Palestina.

Lula ovacionado
No Parlamento, Lula enfrentou tentativa de linchamento, inclusive por Netanyahu, por sua política de não-confrontação e de diálogo com o Irã. O presidente do Brasil nem piscou. Condenou, com igual peso, tanto o holocausto quanto o terrorismo; lembrou os donos da casa que o Brasil e a América Latina têm posição assumida contra as armas nucleares; insistiu nas vias do “diálogo” e da “compaixão” para superar o conflito no Oriente Médio; defendeu uma solução viável de dois Estados para Israel e Palestina. Nem por isso deixou de criticar as construções de casas exclusivas para judeus em Jerusalém Leste. Foi ovacionado. Segundo depoimento de deputados israelenses, “foi muito mais aplaudido que George W. Bush”.

O profeta tropical
Nem que encarnasse o Abraão dos Abraões, Lula conseguiria convencer os sionistas fanáticos e seus lugares-tenentes. Mas, sim, Lula disse ao jornal israelense Ha’aretz o que os atores mais sérios no Oriente Médio já sabem mas não dizem; o “processo de paz” está sem rumo; não há outra alternativa além de incluir novos mediadores na mesa de negociação – parceiros novos, como o Brasil.
O mesmo se aplica à discussão do dossiê iraniano: “Os líderes mundiais com os quais conversei creem que temos de agir rapidamente, ou Israel atacará o Irã.” Lula está convencido de que novas sanções contra o programa nuclear iraniano serão contraproducentes. E suas palavras ecoaram pelo planeta: “Não podemos permitir que aconteça no Irã o que aconteceu no Iraque. Antes de novas sanções, temos de tentar, por todos os meios possíveis, construir a paz no Oriente Médio”.
A visão oficial do governo do Brasil – que ecoa e é ouvida em praticamente toda a comunidade internacional (vale dizer, não só no clube exclusivo de Washington e entre os suspeitos europeus de sempre) – é que nada, até agora, foi satisfatoriamente discutido com o Irã, sobre seu dossiê nuclear. Lula foi muito firme e claro: o Irã tem, sim, direito de desenvolver um programa nuclear para fins pacíficos nos termos admitidos pelo Tratado de Não Proliferação Nuclear do qual o país é signatário.
O Brasil ocupa hoje um dos assentos do Conselho de Segurança da ONU. Como a China, o país também não aprova e não apoiará novas sanções que os EUA querem impor ao Irã – e diga o que disser o secretário de Estado Robert Gates, que anda espalhando boatos de que os EUA já teriam os votos necessários para aprovar uma quarta rodada de sanções, porque a Arábia Saudita teria afinal convencido a China. A China jamais votará contra seus próprios interesses de segurança nacional – e o Irã é, sim, assunto de segurança nacional para os chineses.
Em maio, Lula estará em Teerã e, outra vez, reunir-se-á com o presidente Mahmud Ahmadinejad. Os sionistas linha-dura estão – como é rotina – fumegando.
Lula sabe muito bem que as chamadas “sanções espertas” [ing. smart sanctions], que visam principalmente o Corpo dos Guardas Revolucionários Islâmicos [ing. Islamic Revolutionary Guards Corps (IRGC)] – que controla o centro do poder econômico e político no Irã – também afetarão milhões de civis conectados às empresas e negócios controladas pelo IRGC, ou seja, imporá novos sofrimentos à população em geral, que já paga o alto preço imposto pelas atuais sanções. O IRGC controla pelo menos 60 portos no Golfo Persa. Impedir que a Ásia negocie c om o Irã implica bloqueio naval. E bloqueio naval é declaração de guerra.

Não pressionar o Irã
Lula chega ao Oriente Médio em conjuntura muito especial: no momento em que o governo de Netanyahu decidiu construir mais casas exclusivas para judeus em Jerusalém Leste e na Cisjordânia, mesmo ao preço de perder o apoio crucial dos EUA no front iraniano.
Ironicamente, o Brasil pode estar começando a seduzir o establishment israelense, mas mais no front econômico, que no front geopolítico.
Israel assinou um acordo de livre-comércio [ing. “free-trade agreement” (FTA)] com o Mercosul[2] – o quinto maior bloco em termos de produto interno bruto. O acordo não agradou aos palestinos, para quem o FTA que foi assinado fortalecerá o complexo industrial-militar de Israel.
E é nesse momento que o Brasil diz bem claramente que defende um Estado palestino viável, nos limites das fronteiras demarcadas em 1967. Esse acordo de livre-comércio implica uma cláusula estratégica: permite transferir tecnologia de armas aos países-membro do Mercosul. As armas que fazem a repressão em Gaza estarão, em pouco tempo, disponíveis na América Latina.
Num front paralelo, ao elogiar o papel do Brasil como mediador, o presidente Shimon Peres sugeriu pessoalmente a Lula que o Brasil fizesse coincidir, em território brasileiro, duas visitas: do presidente da Síria Bashar al-Assad e a de Netanyahu. Assad visitará o Brasil ainda esse ano; e, na semana corrente, Netanyahu também aceitou convite para visitar o Brasil. Uma reunião tropical, informal, entre Síria e Israel, poderia criar a circunstância ideal para começar a quebrar o gelo. Lula e Netanyahu organizaram um sistema bilateral de encontro entre chefes de Estado e principais ministros a cada dois anos.
Mas… e quanto aos EUA, em tudo isso? Há vigente hoje um acordo estratégico entre EUA e Brasil, pelo qual estão previstos dois encontros de nível ministerial (ministérios de Relações Exteriores) por ano, um nos EUA, outro no Brasil.
O ministro brasileiro de Relações Exteriores chanceler Celso Amorim tem excelentes relações com a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton. Em recente visita ao Brasil, Clinton insistiu muito fortemente para que Lula e Amorim apoiassem nova rodada de sanções contra o Irã. Os brasileiros recusaram polidamente e firmemente.
À Clinton restou a alternativa de reclamar, em conferência de imprensa, que o Irã estaria “usando” o Brasil, a Turquia e a China para escapar das sanções. Amorim, por sua vez, sempre lembra o desastre iraquiano: “Eu era embaixador na ONU nos dias críticos das decisões sobre o Iraque. E o que nós vimos lá foi um enorme erro.”
Lula foi meridianamente claro e específico: “Não é inteligente empurrar o Irã contra a parede. Quero para o Irã o que quero para o Brasil: usar a energia nuclear para fins pacíficos. Se o Irã for além disso, então não aceitaremos.” Exatamente a posição dos chineses.
Lula e Obama deram sinais de estar em sincronia sobre o Irã, desde o encontro que tiveram durante uma reunião dos Grupo dos 8+5 em Aquila, Itália, há nove meses. Então, Obama chegou a encorajar o diálogo Brasília-Teerã, desde que o Brasil pressionasse o Irã a aceitar o compromisso de manter seu programa nuclear estritamente para finalidades pacíficas. Foi exatamente o que Lula disse a Ahmadinejad quando se encontraram no Brasil. O que mudou foi a posição do governo de Obama, o qual, depois daqueles dias endureceu muito.
Os diplomatas brasileiros insistem que Ahmadinejad jamais fechou a porta a negociações. Em encontros diplomáticos bilaterais discretos, funcionários dos EUA admitem a diplomatas brasileiros que Ahmadinejad não é, de modo algum, intransigente; como tampouco é intransigente o Líder Supremo Aiatolá Ali Khamenei. Em discurso de 19 de fevereiro no batizado de um destróier iraniano, Khamenei mais uma vez negou que o Irã esteja trabalhando para ter armas atômicas; e destacou que as armas atômicas são ilegais, nos termos da lei islâmica, porque sempre mataram grande número de civis inocentes.
O problema, se não foi inventado, foi, no mínimo, muito aumentado pela mídia dos EUA e Europa. Por causa disso, a própria Clinton, em momento de rara sinceridade, durante viagem à América Latina, teve de admitir que as sanções ainda demorariam “vários meses” para ser implantadas, se o forem.
Mesmo antes da visita de Clinton, o ministro das Relações Exteriores do Irã Manouchehr Mottaki já admitira a jornalistas brasileiros, sem pedir sigilo, que o Brasil poderia ser uma “ponte” entre o Irã e a frente EUA-União Europeia, por causa da “posição realista” do governo e da diplomacia brasileira. Mottaki não vê o Brasil como “mediador”. Prefere falar de “um facilitador de consultas”, uma vez que Teerã entende que nenhum outro país deva falar pelos interesses iranianos.
Brasília tampouco pediu para mediar coisa alguma. Mottaki informou que ele próprio tem “trabalhado substancialmente, fazendo diplomacia telefônica” com o chanceler Amorim. Teerã evidentemente vê os benefícios de estabelecer um canal de diálogo com o ocidente industrializado mediante um país em desenvolvimento.

Os BRICs como a nova superpotência
A estratégia do presidente Lula de tentar posicionar-se como uma “ponte” é especialmente bem-vinda, uma vez que o dossiê iraniano está chegando a fase crucial, na qual as facções mais linha-dura do bloco EUA-UE-Israel estão fazendo de tudo para desmentir e apagar qualquer prova (mesmo dos serviços de inteligência) de que o Irã não está construindo bomba alguma; e já houve tentativas sistemáticas de ‘corrigir’ informes de inteligência para que sirvam como ‘prova’ do oposto do que de fato comprovam (ecos do Iraque?).
A entrada de Lula nesse cenário e arena também implica maior destaque para os BRICs (Brasil, Rússia, Índia, China), que já atuam como uma nova superpotência – ante uma ‘dominação’ cada vez mais desorientada e sem rumo, dos EUA. Nenhum dos BRICs é favorável ao isolamento do Irã; muito mais contrários são, é claro, a qualquer ataque ao Irã. E assim continuará, enquanto acreditarem que o Irã realmente não está próximo de construir sua bomba atômica, como o comprovam montanhas de evidências; nesse caso, um ataque ao Irã terá o efeito altamente indesejável de acelerar a proliferação nuclear no Golfo Persa.
Os BRICs também sabem que EUA e Irã podem, sim, se entender bem e bem rapidamente, mesmo nas questões mais espinhosas. Por exemplo, sobre o Afeganistão.
Só resta, pois, sobre a mesa, a estratégia do elefante na loja de porcelanas, de Israel. É hora de os BRICs pagarem para ver o jogo de Israel.
Se o governo de Netanyahu pode humilhar Obama e Biden no que digam sobre expansão de colônias exclusivas para judeus em Jerusalém Leste e na Cisjordânia, é razoável assumir que ignorará todas as súplicas do comandante do Estado-maior do Exército dos EUA Mike Mullen, que já disse repetidas vezes que qualquer ataque contra o Irã criará “problemas grandes, grandes, muito grandes, para todos nós”.
Israel (e também Washington) pode estar querendo apenas uma mudança de regime no Irã – que, sim, pode ser bem útil e necessária. Para isso, pode usar armas atômicas táticas e destruir as instalações nucleares do Irã. É possível que Israel esteja pronta para declarar outra guerra preventiva (conceito e ideia desenvolvidos em Israel e completamente encampados pelo governo de George W Bush). Claro que os israelenses contam com apoio logístico e político dos EUA.
Lula não avançou até tão longe. Mas o posicionamento do governo Lula do Brasil contêm embriões de todas essas espinhosas questões com as quais os BRICs devem fazer frente a Israel. Então, sim, quando isso acontecer, todo o planeta saberá que rabo, afinal, está mesmo sacudindo o cachorro.

Pepe Escobar[1] é autor de Globalistan: How the Globalized World is Dissolving into Liquid War [O Globalistão: Como o mundo globalizado está se dissolvendo em guerra líquida] (Nimble Books, 2007) e Red Zone Blues: a snapshot of Baghdad during the surge [O blues da Zona Vermelha: instantâneos de Bagdá sob ataque]. Acaba de lançar Obama does Globalistan [Obama cria globalistões] (Nimble Books, 2009).

quarta-feira, 17 de março de 2010

Der Spiegel: Benjamin Netanyahu ignora a atual proximidade entre judeus e árabes

Por Bernhard Zand

Raramente em ocasiões anteriores judeus e árabes estiveram tão unidos frente à ameaça iraniana. Mas o governo de Israel está ignorando deliberadamente esta oportunidade histórica de fazer com que o processo de paz progrida. De fato, o governo de Benjamin Netanyahu parece estar satisfeito com a situação atual

Uma das doutrinas fundamentais perenes relativas ao conflito do Oriente Médio afirmava que os elementos de linha dura no governo israelense são os únicos capazes de obter um acordo de paz – os políticos mais brandos seriam muito fracos para conseguir tal resultado.
Uma segunda doutrina dizia que os líderes árabes necessitam do conflito para justificarem as suas próprias hesitações e os seus regimes não democráticos.

A terceira doutrina postulava: o inimigo do meu inimigo é meu amigo.
Com a farsa que está protagonizando neste momento em cima do seu aliado, os Estados Unidos, o governo israelense retirou simultaneamente de cena as três doutrinas, e isto não é uma boa notícia.
Primeiro, o ministro israelense do Interior, Eli Yishai, fez de bobo Joe Biden, presidente dos Estados Unidos e um amigo comprovado de Israel, que na semana passada garantiu ao Estado judeu que os Estados Unidos têm um “compromisso absoluto, total, direto com a segurança de Israel”. Como resposta, Yishai garantiu a aprovação de 1.600 novos apartamentos em setores de Jerusalém Oriental reivindicados pelos árabes.

O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu desculpou-se pelo momento infeliz em que foi feito o anúncio e alegou que não sabia nada a respeito dos 1.600 apartamentos. Dá para acreditar que o primeiro-ministro não estivesse ciente do maior projeto de construção atual na cidade?
O “incidente” foi “prejudicial”, afirmou Netanyahu, antes de nomear autoridades graduadas para investigar os acontecimentos “a fim de assegurar a adoção de procedimentos para impedir que tais tipos de incidentes ocorram no futuro”. Netanyahu também indicou rapidamente qual foi a punição draconiana que reservou para o seu ministro: nenhuma. “Houve um incidente lamentável, que ocorreu inocentemente”, afirmou ele prematuramente, antes que a comissão tivesse sequer dado início à investigação.

A primeira doutrina acabou desaguando em uma conclusão: nenhum indivíduo que integra o governo israelense está atualmente interessado em conversações de paz – nem os elementos de linha dura nem os mais brandos:

Em janeiro, agentes do Mossad escolheram logo Dubai como cena do crime de assassinato premeditado perpetrado contra o líder do Hamas, Mahmoud al-Mabhouh. Dubai é um dos dois emirados do Golfo Pérsico que ignoraram o boicote árabe e receberam um ministro israelense.

Em fevereiro, Netanyahu declarou que os sepulcros de Raquel, na cidade de Belém, que é controlada pelos palestinos, e de Abraão, em Hebron (os dois sepulcros são sagrados tanto para cristãos quanto para muçulmanos) são “heranças culturais sionistas”.

E, em março, uma semana antes de o ultra-ortodoxo ministro do Interior Yishai ter aprovado a construção dos 1.600 apartamentos, o ministro trabalhista da Defesa, Ehud Barak, autorizou a construção de 112 novos prédios no assentamento Beitar Ilit, no território ocupado da Cisjordânia, onde supostamente estaria em vigor uma suspensão de dez meses de todas as construções.

A segunda doutrina também não tem mais nenhum valor – na verdade, o contrário é que se aplica. Não são mais os líderes árabes que necessitam de conflito para justificarem os seus regimes. Netanyahu é que precisa de conflito para manter coeso o seu governo heterogêneo formado por esquerda e direita.

Leia mais: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2010/03/17/benjamin-netanyahu-ignora-a-atual-proximidade-entre-judeus-e-arabes.jhtm

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Robert Fisk: Israel ameaça Israel

Do blog do Azenha

Robert Fisk: Israel sente-se sitiada. Como se fosse vítima. ‘Excluída’.

2/2/2010, no jornal britânico Independent

E prossegue a guerra de propaganda. Esqueçam que Israel invadiu o Líbano em 1982. Esqueçam os 15 mil libaneses e palestinos mortos. Esqueçam o massacre de Sabra e Shatila no mesmo ano, por milícias aliadas de Israel, enquanto os soldados israelenses assistiam ao massacre. Apague-se para sempre da história o massacre de Qana em 1996 – 106 libaneses mortos sob fogo israelense, mais da metade dos quais, crianças. Apaguem-se, claro, também, os 1.500 mortos por Israel na guerra do Líbano em 2006. E, sim, esqueçam, claro, os mais de 1.300 palestinos massacrados por Israel em Gaza, ano passado (e os 13 israelenses mortos pelo Hamás), como resposta aos foguetes que Hamás lançava contra Sderot. Israel – para quem acreditar no que a elite do setor de segurança da direita de Israel anda dizendo aqui em Herzliya – está sob ataque, o mais perigoso, ataque de violência jamais vista.

A Grã-Bretanha – e essa foi contada por ninguém menos que o embaixador de Israel em Londres! – é “um campo de batalha” no qual os inimigos de Israel tentam “des-legitimar” o Estado judeu aos 62 anos de existência.

Até o conhecido amigo de Israel, e grande juiz judeu, Richard Goldstone, já está reduzido, nas palavras de um dos mais destacados judeus-americanos apoiadores de Israel, Al Dershowitz, à condição de “traidor absoluto do povo judeu” e “homem mau, do mal” (frases que, claro, já foram manchetes nos jornais israelenses de ontem).

Israel sitiada. Esse o tema assustador, velho, incansavelmente repetido e irremediavelmente jamais compreendido da 10ª conferência anual de diplomatas, funcionários, militares cobertos de medalhas e galões e membros do governo israelense, ontem, em Herzliya.

Israel a excluída. Israel a vítima. Israel, a do exército mais perfeitíssimo, exemplo de moralidade a ser copiado por todos os exércitos do mundo... estaria sob sítio, porque há risco de seus generais serem acusados de prática de crimes de guerra, se puserem o pé na Europa.

Deus impeça que oficiais israelenses jamais sejam acusados por aquelas atrocidades! O Jerusalem Post publicou ontem foto da líder do partido Kadima, Tzipi Livni, olhando para um pôster polonês em que é mostrada como “procurada por crimes de guerra em Gaza”. Esqueçam que Livni nada fez, quando os israelenses fizeram chover bombas de fósforo sobre Gaza; e era ministra.

Tudo, só, uma mesma campanha de perseguição a Israel, de uso deliberado de leis internacionais para des-legitimar o Estado de Israel – como sempre que Israel foi condenada. Assim seria, se fosse! Mas não é. A atual crise de identidade é, sim, uma tragédia para Israel – mas não pelas razões que o atual governo de extrema direita tanto se esforça para disseminar para a opinião pública.

Lembro perfeitamente, depois da desastrada invasão israelense contra o Líbano, em 1982, que se organizou enorme conferência em Londres, para descobrir por que a “propaganda” israelense fracassara. O massacre de libaneses e o número crescente de baixas no exército de Israel? Esqueçam! O que interessava era entender o grande mistério: como podia ter acontecido de a propaganda israelense ter fracassado? Como podia ter acontecido de a imprensa antissemita ter conseguido publicar calúnias contra Israel? Foi conferência idêntica à que está reunida essa semana em Herzliya.

Hoje, se trata de fazer esquecer a Operação Chumbo Derretido contra Gaza e a selvageria e os muitos mortos. É necessário condenar o Relatório Goldstone e aquelas inadmissíveis mentiras – de que o exército dos bons israelenses teria cometido crimes de guerra contra terroristas do mal – e todos têm de convencer-se de que Israel só deseja a paz.

A verdade é mais simples. De fato, Israel cometeu uma série de terríveis erros diplomáticos. Não falo da humilhação imposta ao embaixador turco por Danny Ayalon, do ministério dos Negócios Exteriores – o qual também estava presente à conferência em Herzliya. Não falo tampouco do patético protesto apresentado por Ron Prossor, embaixador de Israel em Londres, segundo o qual haveria “uma cacofonia de vozes vindas de Israel”, em vez de uma única voz.

Nada disso. O mais grave erro que Israel cometeu em anos recentes foi ter-se recusado a contribuir para as investigações propostas no Relatório Goldstone sobre o massacre de Gaza em 2008-09. “Boicote tolo”, como o chamou o diário Haaretz. Completo desastre, na avaliação da esquerda liberal israelense, que percebeu, acertadamente, que o boicote às investigações pôs Israel no mesmo nível do Hamás.

Passei horas assistindo à conferência em Herzliya – que terminará amanhã à noite, com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu fazendo-se de líder de torcida organizada –, e o Relatório Goldstone e o medo da “des-legitimação” percorria praticamente todas as discussões, como fio de costura.

Ontem, sentei-me ao lado de um estudante israelense de pós-graduação e vi-o balançar a cabeça, em desespero. “Eu e meus amigos estamos terrivelmente frustrados, ao ouvir nosso governo dizer o que dizem aí. O que podemos dizer? O que podemos fazer?” Foi comentário muito lúcido. Foi exatamente o que milhões de britânicos sentimos quando Tony Blair nos arrastou para a guerra, sob uma catarata de mentiras, em 2003.

Um dos momentos mais constrangedores em Herzliya aconteceu quando Lorna Fitzsimons, ex-deputada do partido Labour e hoje presidente do Bicom, think-tank britânico pró-Israel, disse que “a opinião pública não tem qualquer influência na política externa britânica. Política externa é tema para as elites.” A implicação? Negocie com a elite, e tudo dará sempre certo. “Nossos inimigos estão buscando cortes internacionais nas quais não temos voz”, disse ela.

Em certo sentido, aí está dito tudo. O que Israel busca é legitimidade internacional. E como Estado, Israel é legítima. Israel foi criada pela ONU. E, como disse Avi Shlaim, historiador israelense, a criação de Israel pode não ter sido justa – mas é legítima. Pois é. Só que, quando uma equipe de juízes internacionais convidou Israel a participar das investigações, Netanyahu pomposamente rejeitou o convite.

Nesse sentido, a guerra de Gaza expôs o que há de mais profundamente inconsistente e contraditório no atual corpo político que governa Israel. Desejam que o mundo reconheça a democracia israelense – por mais cheia de falhas que seja –, mas não dão ouvidos ao mundo quando o mundo pede contas a Israel sobre o que fez em Gaza. Israel quer ser um farol para as nações do mundo, mas impede que o mundo examine de perto o tal farol, que analise o combustível que mantém acesa a luz e que conheça de perto o mundo que o tal farol ilumina.

Goldstone, Goldstone, Goldstone. O nome do eminente juiz e jurista que tão valentemente buscou justiça para as vítimas assassinadas e violadas pelos sérvios na guerra da Bósnia – e cuja coragem, daquela vez, tanto inspirou o mundo, inclusive Israel – esteve na boca de todos os apologistas do atual governo de Israel, na conferência de Herzliya.

Tzipi Livni falou sobre ele. Yossi Gal, diretor geral do ministério de Negócios Exteriores de Israel, também falou. Referiu-se à “tentativa de usar o Relatório Goldstone para empurrar Israel até a margem da legitimidade”. Malcolm Hoenlein, da Conferência de Presidentes das Organizações Judeu-norte-americanas” também falou. Observou que o governo dos EUA havia sido “extraordinariamente sensível” – quer dizer: ignorou completamente – o Relatório Goldstone. E até o embaixador dos EUA em Israel, James Cunningham, cara-de-rato, sugeriu que o Relatório Goldstone poderia estar sendo usado como tentativa para des-legitimar Israel.

Que loucurada é essa? Depois do massacre em 1982 dos palestinos em Sabra e Shatila, o governo de Israel nomeou uma comissão governamental de inquérito. O relatório da Comissão Kahan não foi perfeito – mas que outra nação do Oriente Médio examinaria tão corajosamente os próprios pecados? O relatório denunciava diretamente a “responsabilidade pessoal” do ministro da Defesa, Ariel Sharon – que autorizou o ataque pelas milícias libanesas. Esse relatório não purgou todas as culpas de Israel, mas provou que aquela Israel era Estado respeitável, Estado, então, preparado para enfrentar aqueles crimes com seriedade, sem fugir das investigações.

Desgraçadamente para Israel, não há comissões Kahan para julgar a Israel de hoje. Nenhum tribunal para julgar Gaza. Apenas um tapinha na mão de uns poucos oficiais que usaram bombas de fósforo e acusação formal contra um soldado que roubou cartões de crédito.

Estive com o juiz Goldstone depois de ele ter sido designado para presidir o tribunal para crimes de guerra na ex-Yugoslávia em Haia. Homem palpavelmente decente, honesto; disse que o mundo acabou por cansar-se de admitir que governos pratiquem impunemente crimes de guerra. Falava, é claro, sobre Milosevic. Escreveu um livro sobre isso, que Israel elogiou calorosamente. Pois hoje o juiz Goldstone é o terremoto que ameaça a legitimidade de Israel.

Encontrei ontem à tarde em Telavive o coronel da reserva israelense Shaul Arieli, homem excepcionalmente sensível, no escritório de sua ONG, e discutimos a situação atual, em que militares e políticos israelenses estão ameaçados de serem presos, acusados de prática de crimes de guerra, no instante em que pisem em território britânico e em alguns outros países europeus.

“Essa questão nos preocupa muito mais hoje, do que há alguns anos” – disse-me ele. “Temos medo dessa tendência, depois da Operação Chumbo Derretido. Compromete a imagem de Israel em todo o mundo; não diz respeito exclusivamente aos militares e políticos. Se forem formalmente acusados em Israel, será como Israel declarar que não pode proteger seus soldados. O Relatório Goldstone afeta campos profundos.”

Tudo isso sugere que o verdadeiro terremoto que sacode Israel, o que realmente ameaça sua imagem, posição e legitimidade, o verdadeiro perigo, hoje, é uma nação chamada Israel.

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