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quarta-feira, 26 de maio de 2010

Um acordo e seis verdades

De José Luis Fiori
no Valor Econômico
Via clipping do MP


"A mediação bem sucedida de Lula com o Irã alçaria o Brasil no cenário mundial." O Globo, 16 de maio de 2010, p. 38.
Na terça feira, 18 de maio de 2010, foi assinado o Acordo Nuclear entre o Brasil, a Turquia e o Irã, que dispensa maiores apresentações. E como é sabido, quarenta e oito horas depois da assinatura do Acordo, os Estados Unidos propuseram ao Conselho de Segurança da ONU, uma nova rodada de sanções ao Irã, junto com a Inglaterra, França e Alemanha, e com o apoio discreto da China e da Rússia.

Apesar da rapidez dos acontecimentos, já é possível decantar algumas verdades no meio da confusão:

1) A iniciativa diplomática do Brasil e da Turquia não foi uma "rebelião da periferia", nem foi um desafio aberto ao poder americano. Neste momento, os dois países são membros não permanentes do Conselho de Segurança da ONU, e desde o início contaram com o apoio e o estímulo de todos os cinco membros permanentes.
Além disso, as diplomacias brasileira e turca estiveram em contato permanente com os governos desses países durante a negociação. A Turquia pertence à OTAN, e abriga em seu território armas atômicas norte-americanas. E o presidente Lula recebeu carta de estímulo do presidente Barack Obama, duas semanas antes da assinatura da visita de Lula, e a secretária de Estado norte-americana declarou - na véspera do Acordo - que se tratava da "última esperança" de solucionar de forma diplomática a "questão nuclear iraniana".

2) O que provocou surpresa e irritação em alguns setores, portanto, não foram as negociações, nem os termos do acordo final, que já eram conhecidos. Foi o sucesso do presidente brasileiro que todos consideravam impossível ou muito improvável. Sua mediação viabilizou o acordo, e ao mesmo tempo descalçou a proposta de sanções articulada pela secretária de Estado americana depois de sucessivas concessões à Rússia e à China. E, além disso, criou uma nova realidade que já escapou ao controle dos Estados Unidos e seus aliados, e do Brasil e Turquia.

3) A reação americana contra o Acordo foi rápida e ágil, mas o preço que os Estados Unidos pagarão pela sua posição contra esta iniciativa pacifista será muito alto. Perdem autoridade moral dentro das Nações Unidas e perdem credibilidade entre seus aliados do Oriente Médio, com a exceção de Israel, por razões óbvias. E já agora, passe o que passe, o Brasil e a Turquia serão uma referência ética e pacifista, em todos os desdobramentos futuros deste contencioso.

4) Existe consenso que a estrutura de governança mundial estabelecida depois da II Guerra Mundial, e reformulada depois do fim da Guerra Fria, já não corresponde à configuração do poder mundial. Está em curso uma mudança na distribuição dos recursos do poder global, mas não se trata de um processo automático, e dependerá muito da capacidade estratégica e da ousadia dos governos envolvidos nesse processo de transformação. O Oriente Médio faz parte da zona de segurança e interesse imediato da Turquia, mas no caso do Brasil, foi a primeira vez que interveio numa negociação longe de sua zona imediata de interesse regional, envolvendo uma agenda nuclear, e todas as grandes potências do mundo. A mensagem foi clara: o Brasil quer ser uma potência global e usará sua influência para ajudar a moldar o mundo, além de suas fronteiras. E o sucesso do Acordo já consagrou uma nova posição de autonomia do Brasil, com relação aos Estados Unidos, Inglaterra e França e, também, com relação aos países do Bric.

5) O acordo seguirá sendo a melhor chance para prevenir um conflito militar em todo o Oriente Médio. As sanções em discussão são fracas, já foram diluídas, não são totalmente obrigatórias, e não atingirão a capacidade de resistência iraniana. Pelo contrário, se foram aprovadas e aplicadas, liberarão automaticamente o governo do Irã de qualquer controle ou restrição, diminuirão o controle norte-americano e da AIEA, acelerarão o programa nuclear iraniano e aumentarão a probabilidade de um ataque israelense. Porque os Estados Unidos já estão envolvidos em duas guerras, e não é provável que a OTAN assuma diretamente esta nova frente de batalha, a despeito do anti-islamismo militante, dos atuais governos de direita, da Alemanha, França e Itália.

6) Por fim, o jornal "O Globo" foi quem acertou em cheio, ao prever - com perfeita lucidez - na véspera do Acordo, que o sucesso da mediação do presidente Lula com o Irã projetaria o Brasil, definitivamente, no cenário mundial. O que de fato aconteceu, estabelecendo uma descontinuidade definitiva com relação à política externa do governo FHC, que foi, ao mesmo tempo, provinciana e deslumbrada, e submissa aos juízos e decisões estratégicas das grandes potências.

 Leia mais no Clipping do Ministério do Planejamento.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Pepe Escobar: O Brasil interpõe-se entre Israel e Irã

"Nunca antes na história deste país". A frase bem conhecida e "patenteada" pelo Presidente Lula deve ser aplicada ao atual momento por que passa a diplomacia brasileira. Ao colocar o Brasil como protagonista importante de assuntos complexos como este, do Oriente Médio, envolvendo Irã, Israel e EUA, na posição de interlocutor privilegiado, capaz de falar firme e ponderadamente a favor de uma postura de não confrontação e de diálogo, o país passa a adquirir respeito da comunidade internacional, fazendo, juntamente com os outros BRICs, um contraponto ao stablishment mais radical, os senhores da guerra, que querem o confronto a qualquer custo. Deixou o Brasil de ser quase que um mero espectador, que não se metia em assuntos dos quais todo país de peso e importância geopolítica não poderia se furtar, se alinhando automaticamente com o bloco EUA-Europa, quase que pedindo desculpas em situações que exijiam um posicionamento mais claro. Nesse jogo de xadrez, torcemos pela paz, esperarando pelos próximos acontecimentos...

Do Asia Times
Via blog do Azenha
Por Pepe Escobar

Por falar em Via Dolorosa, Luiz Inacio Lula da Silva foi o primeiro presidente do Brasil a visitar oficialmente Israel. Louvado por seu carisma, habilidade e formidáveis capacidades de negociador – Obama, dos EUA, refere-se a ele como “O cara” –, mal sabia o presidente Lula que, para conseguir conversar seu anfitrião, essa semana, teria de passar a perna no próprio profeta Abraão em pessoa, nada mais, nada menos.
Ao fim e ao cabo, Lula não se deixou enrolar. Não fez concessões. E, diferente do vice-presidente dos EUA Joseph Biden, semana passada, conseguiu não ser humilhado publicamente pelos donos da casa.
Lula é homem habituado a enfrentar interlocutores duros. Avigdor Lieberman, ministro de Negócios Internacionais de Israel, boicotou seu discurso no Parlamento e o encontro com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu. O motivo: Lula não visitou o túmulo do fundador do sionismo Theodor Herzl. Ora essa! Nem Nicolas Sarkozy da França, nem Silvio Berlusconi da Itália visitaram o tal túmulo, quando visitaram Israel.
Brasília – como Paris e Roma – sabe muito bem que visitar túmulos não é obrigatório em viagens presidenciais. Ainda assim, um coro dos colonos judeus sionistas fanáticos do partido Likud em Israel não mediu palavras para ‘diagnosticar’ que a não-visita feriria de morte a competência do governo do Brasil para atuar com o mediador no conflito Israel-Palestina.

Lula ovacionado
No Parlamento, Lula enfrentou tentativa de linchamento, inclusive por Netanyahu, por sua política de não-confrontação e de diálogo com o Irã. O presidente do Brasil nem piscou. Condenou, com igual peso, tanto o holocausto quanto o terrorismo; lembrou os donos da casa que o Brasil e a América Latina têm posição assumida contra as armas nucleares; insistiu nas vias do “diálogo” e da “compaixão” para superar o conflito no Oriente Médio; defendeu uma solução viável de dois Estados para Israel e Palestina. Nem por isso deixou de criticar as construções de casas exclusivas para judeus em Jerusalém Leste. Foi ovacionado. Segundo depoimento de deputados israelenses, “foi muito mais aplaudido que George W. Bush”.

O profeta tropical
Nem que encarnasse o Abraão dos Abraões, Lula conseguiria convencer os sionistas fanáticos e seus lugares-tenentes. Mas, sim, Lula disse ao jornal israelense Ha’aretz o que os atores mais sérios no Oriente Médio já sabem mas não dizem; o “processo de paz” está sem rumo; não há outra alternativa além de incluir novos mediadores na mesa de negociação – parceiros novos, como o Brasil.
O mesmo se aplica à discussão do dossiê iraniano: “Os líderes mundiais com os quais conversei creem que temos de agir rapidamente, ou Israel atacará o Irã.” Lula está convencido de que novas sanções contra o programa nuclear iraniano serão contraproducentes. E suas palavras ecoaram pelo planeta: “Não podemos permitir que aconteça no Irã o que aconteceu no Iraque. Antes de novas sanções, temos de tentar, por todos os meios possíveis, construir a paz no Oriente Médio”.
A visão oficial do governo do Brasil – que ecoa e é ouvida em praticamente toda a comunidade internacional (vale dizer, não só no clube exclusivo de Washington e entre os suspeitos europeus de sempre) – é que nada, até agora, foi satisfatoriamente discutido com o Irã, sobre seu dossiê nuclear. Lula foi muito firme e claro: o Irã tem, sim, direito de desenvolver um programa nuclear para fins pacíficos nos termos admitidos pelo Tratado de Não Proliferação Nuclear do qual o país é signatário.
O Brasil ocupa hoje um dos assentos do Conselho de Segurança da ONU. Como a China, o país também não aprova e não apoiará novas sanções que os EUA querem impor ao Irã – e diga o que disser o secretário de Estado Robert Gates, que anda espalhando boatos de que os EUA já teriam os votos necessários para aprovar uma quarta rodada de sanções, porque a Arábia Saudita teria afinal convencido a China. A China jamais votará contra seus próprios interesses de segurança nacional – e o Irã é, sim, assunto de segurança nacional para os chineses.
Em maio, Lula estará em Teerã e, outra vez, reunir-se-á com o presidente Mahmud Ahmadinejad. Os sionistas linha-dura estão – como é rotina – fumegando.
Lula sabe muito bem que as chamadas “sanções espertas” [ing. smart sanctions], que visam principalmente o Corpo dos Guardas Revolucionários Islâmicos [ing. Islamic Revolutionary Guards Corps (IRGC)] – que controla o centro do poder econômico e político no Irã – também afetarão milhões de civis conectados às empresas e negócios controladas pelo IRGC, ou seja, imporá novos sofrimentos à população em geral, que já paga o alto preço imposto pelas atuais sanções. O IRGC controla pelo menos 60 portos no Golfo Persa. Impedir que a Ásia negocie c om o Irã implica bloqueio naval. E bloqueio naval é declaração de guerra.

Não pressionar o Irã
Lula chega ao Oriente Médio em conjuntura muito especial: no momento em que o governo de Netanyahu decidiu construir mais casas exclusivas para judeus em Jerusalém Leste e na Cisjordânia, mesmo ao preço de perder o apoio crucial dos EUA no front iraniano.
Ironicamente, o Brasil pode estar começando a seduzir o establishment israelense, mas mais no front econômico, que no front geopolítico.
Israel assinou um acordo de livre-comércio [ing. “free-trade agreement” (FTA)] com o Mercosul[2] – o quinto maior bloco em termos de produto interno bruto. O acordo não agradou aos palestinos, para quem o FTA que foi assinado fortalecerá o complexo industrial-militar de Israel.
E é nesse momento que o Brasil diz bem claramente que defende um Estado palestino viável, nos limites das fronteiras demarcadas em 1967. Esse acordo de livre-comércio implica uma cláusula estratégica: permite transferir tecnologia de armas aos países-membro do Mercosul. As armas que fazem a repressão em Gaza estarão, em pouco tempo, disponíveis na América Latina.
Num front paralelo, ao elogiar o papel do Brasil como mediador, o presidente Shimon Peres sugeriu pessoalmente a Lula que o Brasil fizesse coincidir, em território brasileiro, duas visitas: do presidente da Síria Bashar al-Assad e a de Netanyahu. Assad visitará o Brasil ainda esse ano; e, na semana corrente, Netanyahu também aceitou convite para visitar o Brasil. Uma reunião tropical, informal, entre Síria e Israel, poderia criar a circunstância ideal para começar a quebrar o gelo. Lula e Netanyahu organizaram um sistema bilateral de encontro entre chefes de Estado e principais ministros a cada dois anos.
Mas… e quanto aos EUA, em tudo isso? Há vigente hoje um acordo estratégico entre EUA e Brasil, pelo qual estão previstos dois encontros de nível ministerial (ministérios de Relações Exteriores) por ano, um nos EUA, outro no Brasil.
O ministro brasileiro de Relações Exteriores chanceler Celso Amorim tem excelentes relações com a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton. Em recente visita ao Brasil, Clinton insistiu muito fortemente para que Lula e Amorim apoiassem nova rodada de sanções contra o Irã. Os brasileiros recusaram polidamente e firmemente.
À Clinton restou a alternativa de reclamar, em conferência de imprensa, que o Irã estaria “usando” o Brasil, a Turquia e a China para escapar das sanções. Amorim, por sua vez, sempre lembra o desastre iraquiano: “Eu era embaixador na ONU nos dias críticos das decisões sobre o Iraque. E o que nós vimos lá foi um enorme erro.”
Lula foi meridianamente claro e específico: “Não é inteligente empurrar o Irã contra a parede. Quero para o Irã o que quero para o Brasil: usar a energia nuclear para fins pacíficos. Se o Irã for além disso, então não aceitaremos.” Exatamente a posição dos chineses.
Lula e Obama deram sinais de estar em sincronia sobre o Irã, desde o encontro que tiveram durante uma reunião dos Grupo dos 8+5 em Aquila, Itália, há nove meses. Então, Obama chegou a encorajar o diálogo Brasília-Teerã, desde que o Brasil pressionasse o Irã a aceitar o compromisso de manter seu programa nuclear estritamente para finalidades pacíficas. Foi exatamente o que Lula disse a Ahmadinejad quando se encontraram no Brasil. O que mudou foi a posição do governo de Obama, o qual, depois daqueles dias endureceu muito.
Os diplomatas brasileiros insistem que Ahmadinejad jamais fechou a porta a negociações. Em encontros diplomáticos bilaterais discretos, funcionários dos EUA admitem a diplomatas brasileiros que Ahmadinejad não é, de modo algum, intransigente; como tampouco é intransigente o Líder Supremo Aiatolá Ali Khamenei. Em discurso de 19 de fevereiro no batizado de um destróier iraniano, Khamenei mais uma vez negou que o Irã esteja trabalhando para ter armas atômicas; e destacou que as armas atômicas são ilegais, nos termos da lei islâmica, porque sempre mataram grande número de civis inocentes.
O problema, se não foi inventado, foi, no mínimo, muito aumentado pela mídia dos EUA e Europa. Por causa disso, a própria Clinton, em momento de rara sinceridade, durante viagem à América Latina, teve de admitir que as sanções ainda demorariam “vários meses” para ser implantadas, se o forem.
Mesmo antes da visita de Clinton, o ministro das Relações Exteriores do Irã Manouchehr Mottaki já admitira a jornalistas brasileiros, sem pedir sigilo, que o Brasil poderia ser uma “ponte” entre o Irã e a frente EUA-União Europeia, por causa da “posição realista” do governo e da diplomacia brasileira. Mottaki não vê o Brasil como “mediador”. Prefere falar de “um facilitador de consultas”, uma vez que Teerã entende que nenhum outro país deva falar pelos interesses iranianos.
Brasília tampouco pediu para mediar coisa alguma. Mottaki informou que ele próprio tem “trabalhado substancialmente, fazendo diplomacia telefônica” com o chanceler Amorim. Teerã evidentemente vê os benefícios de estabelecer um canal de diálogo com o ocidente industrializado mediante um país em desenvolvimento.

Os BRICs como a nova superpotência
A estratégia do presidente Lula de tentar posicionar-se como uma “ponte” é especialmente bem-vinda, uma vez que o dossiê iraniano está chegando a fase crucial, na qual as facções mais linha-dura do bloco EUA-UE-Israel estão fazendo de tudo para desmentir e apagar qualquer prova (mesmo dos serviços de inteligência) de que o Irã não está construindo bomba alguma; e já houve tentativas sistemáticas de ‘corrigir’ informes de inteligência para que sirvam como ‘prova’ do oposto do que de fato comprovam (ecos do Iraque?).
A entrada de Lula nesse cenário e arena também implica maior destaque para os BRICs (Brasil, Rússia, Índia, China), que já atuam como uma nova superpotência – ante uma ‘dominação’ cada vez mais desorientada e sem rumo, dos EUA. Nenhum dos BRICs é favorável ao isolamento do Irã; muito mais contrários são, é claro, a qualquer ataque ao Irã. E assim continuará, enquanto acreditarem que o Irã realmente não está próximo de construir sua bomba atômica, como o comprovam montanhas de evidências; nesse caso, um ataque ao Irã terá o efeito altamente indesejável de acelerar a proliferação nuclear no Golfo Persa.
Os BRICs também sabem que EUA e Irã podem, sim, se entender bem e bem rapidamente, mesmo nas questões mais espinhosas. Por exemplo, sobre o Afeganistão.
Só resta, pois, sobre a mesa, a estratégia do elefante na loja de porcelanas, de Israel. É hora de os BRICs pagarem para ver o jogo de Israel.
Se o governo de Netanyahu pode humilhar Obama e Biden no que digam sobre expansão de colônias exclusivas para judeus em Jerusalém Leste e na Cisjordânia, é razoável assumir que ignorará todas as súplicas do comandante do Estado-maior do Exército dos EUA Mike Mullen, que já disse repetidas vezes que qualquer ataque contra o Irã criará “problemas grandes, grandes, muito grandes, para todos nós”.
Israel (e também Washington) pode estar querendo apenas uma mudança de regime no Irã – que, sim, pode ser bem útil e necessária. Para isso, pode usar armas atômicas táticas e destruir as instalações nucleares do Irã. É possível que Israel esteja pronta para declarar outra guerra preventiva (conceito e ideia desenvolvidos em Israel e completamente encampados pelo governo de George W Bush). Claro que os israelenses contam com apoio logístico e político dos EUA.
Lula não avançou até tão longe. Mas o posicionamento do governo Lula do Brasil contêm embriões de todas essas espinhosas questões com as quais os BRICs devem fazer frente a Israel. Então, sim, quando isso acontecer, todo o planeta saberá que rabo, afinal, está mesmo sacudindo o cachorro.

Pepe Escobar[1] é autor de Globalistan: How the Globalized World is Dissolving into Liquid War [O Globalistão: Como o mundo globalizado está se dissolvendo em guerra líquida] (Nimble Books, 2007) e Red Zone Blues: a snapshot of Baghdad during the surge [O blues da Zona Vermelha: instantâneos de Bagdá sob ataque]. Acaba de lançar Obama does Globalistan [Obama cria globalistões] (Nimble Books, 2009).

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Brasil acelera Investimentos na Africa



Do Portal Uol - Noticias - Internacional
Brasil acelera investimento na África

Richard Lapper*
Em Johannesburgo (África do Sul)A Vale, a maior companhia mineradora brasileira, está se preparando para dar início a operações em Moçambique, enquanto a maior economia da América do Sul empenha-se mais na busca por recursos da África.

A remota cidade de Tete, na região central de Moçambique, fica sobre uma das maiores reservas mundiais de carvão. Neste momento em que trabalhadores migrantes e empreiteiras seguem para a região a fim de aproveitarem as oportunidades criadas por este empreendimento brasileiro multibilionário, Tete experimenta um boom econômico, e a sua infraestrutura não dá conta do fluxo constante de visitantes a negócios.


Caminhões trabalham na mina Casa de Pedra, em Congonhas do Campo, Minas Gerais. A mineradora Vale, detentora da mina, planeja grandes investimentos em Moçambique, na África

“Toda vez que vou para lá, as coisas ficam mais difíceis”, diz Antônio Coutinho, um banqueiro sul-africano que está ajudando a financiar um investimento que poderia transformar a economia de Moçambique, que ainda depende de ajuda externa. “Esta é uma cidade pequena que está tentando dar conta de uma expansão maciça. A situação deve ter sido semelhante em Johannesburgo durante a corrida do ouro”.

O envolvimento da Vale é uma evidência clara do interesse crescente do Brasil na África. Os vínculos comerciais chineses e indianos com o continente estão mais avançados e atraem maior atenção.

Mas a chegada do Brasil na África faz parte do mesmo padrão segundo o qual os parceiros ocidentais típicos do continente competem com uma gama de países emergentes por recursos e influência.

Luiz Inácio Lula da Silva, o presidente brasileiro que assumiu o cargo em 2003, visitou a África seis vezes nos seus primeiros cinco anos no poder.

Impulsionado pela demanda brasileira por matérias primas, o comércio cresceu rapidamente, com as importações da África subindo de US$ 3 bilhões (R$ 5,54 bilhões) em 2000 para US$ 18,5 bilhões (R$ 34,15 bilhões) em 2008. A Nigéria e a Argélia – assim como Angola – são fontes fundamentais de petróleo importado. Os competitivos produtores brasileiros de alimentos encontraram mercados em países como o Egito, contribuindo para aumentar em oito vezes o valor das exportações de São Paulo para a África, de US$ 1 bilhão (R$ 1,85 bilhão) em 2000 para US$ 8 bilhões (R$ 14,77 bilhões) em 2008.

Em Moçambique, a Vale está trabalhando com a Odebrecht, uma companhia brasileira de construção, para explorar as reservas de carvão, construir uma usina de energia elétrica e infraestrutura ferroviária e portuária para transportar o minério negro para os mercados exportadores.

Em Moatize, o local da mina na qual as escavações terão início no final deste ano, a Vale calcula que o seu investimento inicial será de US$ 1,3 bilhão (948 milhões de euros, 831 milhões de libras esterlinas, R$ 2,4 bilhões). Especialistas afirmam que o total poderá ser várias vezes superior a essa quantia.

A Vale e a Odebrecht não são as únicas companhias brasileiras que atuam em Moçambique. Há dois meses, a CSN, uma siderúrgica brasileira, comprou 16,3% da Riversdale, uma companhia mineradora australiana, na qual a indiana Tata Steel também possui uma participação acionária substancial. Essa companhia também está planejando investir bilhões de dólares na área de Tete.

A Odebrecht tornou-se a maior empresa empregadora do setor privado em Angola, com atividades que incluem a produção de alimentos e etanol, escritórios, fábricas e supermercados. Os seus executivos têm acesso direto a José Eduardo do Santos, o presidente do país. A Petrobras, a companhia petrolífera estatal brasileira, também é ativa em Angola, utilizando os seus conhecimentos técnicos no setor de prospecção em águas profundas.

Lula ao lado do presidente moçambicano, Armando Guebuza, em Maputo, Moçambique, durante visita ao país em 16 de outubro de 2008. Segundo o jornal Financial Times, o presidente brasileiro acelerou a agenda de visitas ao continente africano, a fim de estabelecer novos tratados comerciais com as nações africanas



Conexões culturais e linguísticas contribuíram para tornar o modelo de desenvolvimento do Brasil especialmente atraente em Angola e Moçambique. Vínculos históricos com a África lusófona remontam a séculos.

Cerca de 1,4 milhão dos três milhões de escravos africanos enviados para o Brasil entre 1700 e 1850 vieram de Angola, e na década de 1820 colonos de Angola, Moçambique e outras colônias portuguesas inscreveram-se para integrar um Brasil que declarara recentemente a sua independência.

O sucesso mais recente do Brasil no combate à pobreza – por meio do pagamento de auxílios condicionados à frequência à escola ou a visitas a clínicas – atraiu interesse em ambos os países.

“Eles se identificam conosco porque nós passamos por problemas similares aos deles no passado e adaptamos com sucesso a tecnologia às circunstâncias locais”, afirma um diplomata brasileiro em Maputo, a capital de Moçambique. “Eles veem o Brasil como um modelo a ser imitado”.

Embora as companhias brasileiras tenham investido uma quantia modesta de cerca de US$ 10 bilhões (R$ 18,5 bilhões) desde 2003, essa cifra provavelmente aumentará acentuadamente. O governo do Brasil está se empenhando em persuadir as companhias brasileiras a expandirem-se na África, especialmente depois que Lula da Silva assumiu a presidência em 2003.

A rede de embaixadas do Brasil no continente expandiu-se e dezenas de líderes empresariais acompanharam Lula da Silva em suas viagens. A fama do presidente na África é boa, tanto que em julho do ano passado a União Africana o nomeou convidado de honra na sua reunião na Líbia.

Analistas do Standard Bank em Johannesburgo argumentam que há um casamento harmônico entre os recursos brasileiros e a experiência do Brasil no setor alimentício e as oportunidades oferecidas por Angola. E eles dizem que a mudança climática poderia aumentar o valor dos investimentos do Brasil na África.

Como o clima mais quente reduziria a quantidade de terra cultivável no Brasil, os produtores de alimentos e etanol poderiam interessar-se mais por expandirem os seus negócios para a África, especialmente em países como Angola, onde a terra é abundante.

Para as multinacionais brasileiras, não há dúvida que as atrações são evidentes.

“O mais interessante em relação à África é que cedo ou tarde tudo isso se tornará realidade”, diz Roger Agnelli, presidente e diretor-executivo da Vale. “A África, juntamente com a América do Sul, representa o futuro dos recursos naturais do mundo”.

Construindo Brics

Na corrida pelos carimbos de passaporte, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil, superou Hu Jintao, o presidente da China, tendo visitado 19 países africanos em oito viagens desde que assumiu o cargo em 2003.

Mas, em termos econômicos, a relação da África com a China continua sendo a mais significativa entre as nações emergentes do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China). O valor do comércio entre a África e a China saltou de US$ 4,1 bilhões (R$ 7,6 bilhões) em 1992 para US$ 107 bilhões (R$ 197,5 bilhões) em 2008, fazendo de Pequim o segundo maior parceiro comercial do continente depois dos Estados Unidos. Companhias chinesas têm investido agressivamente nos recursos naturais africanos, especialmente no petróleo.

Como bloco, o comércio do Bric com a África aumentou como proporção das transações comerciais do continente de 4,6% em 1993 para mais de 19% em 2008. Economistas do Standard Bank calculam que até 2030 quase 50% do comércio da África será feito com os Brics.

*Jonathan Wheatley, em São Paulo, e Jack Farchy, em Londres, contribuíram para esta matéria.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Brasília sediará segunda reunião do Bric

Do Portal R7

Brasília vai receber a segunda reunião do grupo dos países emergentes, o Bric, no dia 16 de abril, informou o Ministério das Relações Exteriores na última terça-feira (2).
Líderes de Brasil, Rússia, Índia e China encontraram-se pela primeira vez na Rússia em 2009 para discutir a crise financeira global e reformas nas instituições financeiras e comerciais do mundo.
A reunião acontecerá um dia depois de um encontro entre os dirigentes de Brasil, Índia e África do Sul, também em Brasília, de acordo com o Itamaraty.
O subsecretário-geral do ministério para Ásia, África, Oriente Médio e Oceania, embaixador Roberto Jaguaribe, viaja para Rússia, Índia, China e África do Sul para definir a agenda das duas reuniões.