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terça-feira, 25 de maio de 2010

Nassif: Pausa nas Sanções contra o Irã

A insistência neste assunto sobre o Irã é porque revela em todos os aspectos quais os interesses que estão em jogo na questão da diplomacia e como o Brasil se agiganta neste momento, ainda que parte de sua elite mantenha-se atrelada a um passado que sempre retratou o país como pequeno e dependente dos interesses de outros países, principalmente dos EUA. Não é à toa que os "embaixadores de pijama", em especial aqueles que fizeram parte de um outro governo, são sempre chamados para "debater" numa certa emissora, e baixar o sarrafo nos avanços da nossa chancelaria, mormente no caso do acordo com o Irã. Ao que parece, quebraram a cara (mais uma vez!). E agora?! É o mundo de um lado e os EUA, Israel, Alemanha e a grande(?) mídia brasileira do outro?! A que ponto chegamos...

Pausa nas Sanções contra o Irã
do blog do Nassif.

Por Tomás Rosa Bueno

Os EUA não acreditavam que a Turquia e o Brasil fossem capazes de fazer o Irã concordar com o acordo que *os Estados Unidos* tinham proposto no ano passado, e incentivaram os turcos e brasileiros a fazer papel de tontos indo ao Irã sem conseguir nada. Quando o acordo saiu, contra todas as expectativas deles, em vez de transformar o vexame em vitória dizendo que o Irã tinha sido forçado a aceitar uma proposta que afinal *os americanos* tinham feito, não, resolveram se fazer de espertos e durões e exigir mais. A Hllary mandou os negociadores dela abrirem as pernas para os russos e chineses concordarem com *qualquer* projeto de sanções contra o Irã, mesmo que não valesse nada, pra que ela pudesse sair por aí dizendo que “o Ocidente” tinha enviado um “recado inequívoco” ao Irã, e que o acordo BIT não valia nada.

Os russos e os chineses devem estar rindo dela até agora. Assinaram um papel sem valor, porque não só não tem nada significativo como sequer foi aprovado pelo CS, e em troca a Rússia conseguiu que os EUA tirassem da lista negra do Departamento de Estado três empresas russas, que vão agora poder entregar aos Irã os mísseis S-300 de que os iranianos precisavam para defender as instalações nucleares contra um possível ataque aéreo de Israel ou dos Estados Unidos, ou dos dois. E os chineses arrancaram dos americanos a promessa de que não vão ter mais de ficar ouvindo reclamações impertinentes e exigências descabidas sobre a taxa de câmbio do remimbi.

O Obama ainda mandou ao Golfo Pérsico um porta-aviões e seis mil marines, para reforçar o “recado inequívoco” ao Irã.

Não adiantou nada. A “comunidade internacional” que estaria majoritariamente contra os “párias” iranianos que só o Lula e o Erdogan “apoiavam” foi se desmiliguindo país a país. Os chineses que “apoiavam as sanções” declararam que davam preferência a uma solução negociada com base no acordo BIT, os russos alertaram os EUA e a UE contra sanções unilaterais “ilegais”, os 116 países do Movimento Não-Alinhado apoiaram o acordo, o Conselho de Cooperação do Golfo e a Liga Árabe apoiaram o acordo, a França desconversou (dizendo que o acordo era “bom”, mas “não trata todas as questões”; e o Sarkozy aproveitou pra falar dos Rafale com o Lula), os britânicos não disseram uma única palavra sobre o assunto, o Japão apoiou o acordo na cara da Hillary em Tóquio, a Índia, Portugal, Espanha, a Grécia, o Egito, a Jordânia, a Síria, a Indonésia, a Organização de Cooperação Islâmica, a África do Sul, (o rei d)a Noruega, os “stãs” todos da Ásia Central, a Armênia, a Nicarágua, El Salvador, o Vietnã e a Ucrânia, todos se alinharam no apoio ao acordo BIT. E o representante do Irã na AIEA, acompanhado dos representantes do Brasil e da Turquia, entregou hoje ao diretor da agência a carta em que o Irã se compromete oficialmente com os termos do acordo.

Os EUA, Israel e a Alemanha ficaram pendurados na brocha, clamando que “a comunidade internacional” estava atrás deles. Só se for atrás do couro dos três.
Resultado, segundo o Ha’aretz:

EUA vão examinar proposta iraniana de troca de combustível

Natasha Mozgovaya e DPA
Tags: Israel news Iran Iran nuclear US
Os Estados Unidos vão examinar a proposta iraniana de enviar urânio enriquecido à Turquia, e planejam consultar a França e a Rússia sobre os próximos passos a serem dados, informou na segunda-feira o Departamento de Estado americano.
O Irã, juntamente com o Brasil e a Turquia, entregou na manhã de segunda-feira ao órgão de vigilância nuclear da ONU sediado em Viena, a Agência Internacional de Energia Atômica, a carta que esboça o acordo que pretende aliviar preocupações sobre as atividades nucleares iranianas e afastar possíveis sanções.
[Resto da notícia, em inglês, aqui:http://tinyurl.com/iran-haaretz]
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Não podiam ter dito isto há uma semana? Não podiam ter-se poupado o vexame de comprar uma assinatura sem efeito num papel sem valor em troca de favores substanciais aos russos e chineses? Não podiam ter dado ao mundo uma demonstração de que de fato procuram uma saída pacífica para o problema que eles mesmos criaram?
Definitivamente, tem um bando de amadores no controle do maior arsenal nuclear do mundo.
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À uma da manhã aqui no sul gelado, o site noticioso chinês english.cri.cn deu a notícia: em uma declaração oficial sobre uma conversa telefônica entre o primeiro ministro turco Recep Erdogan e o presidente francês Nicolas Sarkozy, o Palais de l’Élysée anunciou que a França “vai dar um tempo ao diálogo” sobre a questão nuclear iraniana.
Ás cinco da manhã, outra boa notícia: mais um aliado de peso se somou ao Brasil: o México, que vai presidir o Conselho de Segurança em junho, mês que as sanções *seriam* votadas, se s EUA ainda tiverem a cara-de-pau de as submeter a votação, correndo o risco de um vexame.
A ministra de relações exteriores mexicana, Patricia Espinosa, ainda acrescentou que “a presença do presidente brasileiro Luis Inácio Lula da Silva no Irã garante a seriedade da questão”. E isto que ela é ministra de um governo “de direita”.
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Definitivamente, as sanções estão mortas.

Leia mais no Nassif...

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Sanções contra o Irã: o Jogo de Interesses e a Moral dos Negócios

Essa questão do Irã provocou um fenômeno interessantes no Brasil. Hoje, a dita esquerda defende a posição brasileira de não aplicação das sanções em face dos interesses econômicos que o país tem naquela região, e a direita defende a moral antes dos negócios, uma vez que há "limites" para tudo e o Irã não é um país confiável, seja lá o que isso queira dizer. De fato, o Brasil, além da questão dos negócios, e segundo a linha adotada pela sua diplomacia, aproveitando a presidência rotativa no Conselho de Segurança da ONU, quer ter um protagonismo que vá além do alinhamento automático com os "interesses" outros, como o dos EUA liderando o bloco ocidental, que está de olho no controle das fontes de energia daquela região, bem como do processo de escoamento e distribuição, tanto para a Europa, quanto para a Ásia. Se o país não é alinhado e não deixa que empresas americanas "parceiras" atuem na região, tem que tomar. Mas pra isto é preciso um motivo, e o Ahmadinejad tem dado de sobra, principalmente quando toma uma postura belicosa em relação à Israel, no momento em que enriquece urânio a mais de 20% e, segundo a imprensa internacional, diz querer varrer aquele país do mapa. Há ainda a máquina de guerra americana que o Obama sabe muito bem que tem que alimentar. Entretanto o Irã não abre mão de sua soberania e, nas entrelinhas, deixa claro que quer ter uma bomba nuclear. Acredito que todo país que tem a capacidade de enriquecer urânio e construir um vetor para lançar uma bomba não vai querer abrir mão dessa possibilidade. E o Irã, ainda mais estando às turras com Israel (que tem a bomba) pensa desta forma. O jogo é intrincado e pesado. Há interesses econômicos e estratégicos bem definidos e, no final, pode prevalecer o interesse do bloco mais poderoso, uma vez que os EUA sozinho, embora pudessem em face de seu poder militar, não vai querer arcar com o custo político de uma invasão sem o aval de seus principais aliados. A questão é a China e a Rússia que fazem parte do CS com direito a veto. Ao Brasil cabe, neste momento, arrefecer os ânimos e, de alguma forma, embaralhar o jogo, trazendo a China, Índia e a Rússia para o lado dos que não querem as sanções, e, ao mesmo tempo, adiar o sonho iraniano de ter a bomba. Se conseguir, terá mantido seus interesses econômicos resguardados e se posicionado como um interlocutor de respeito e poder.

Brasil e Irã podem firmar parceria para a troca de tecnologia no setor de gás
Da Agência Brasil

Renata Giraldi*
Enviada Especial

Beirute (Líbano) – As relações entre o Brasil e o Irã podem se estreitar ainda mais no campo econômico para a troca de tecnologia na área de gás natural. Dono da segunda maior reserva de gás natural do mundo, estimada em 23 trilhões de metros cúbicos, o Irã fica atrás apenas da Rússia. O objetivo é aprender com os iranianos as formas de exploração, de transporte e de distribuição mais viáveis para a produção.

A Rússia, que detém a maior reserva de gás natural do mundo, reúne 44 trilhões de metros cúbicos nas suas terras. A América do Sul, como um todo, com concentrações na Bolívia e Venezuela, tem pouco mais de 11 trilhões de metros cúbicos nas suas reservas. Nesse cenário, as atenções se voltam para o Irã.

“Os iranianos são muito desenvolvidos, detêm imensa reserva e sabem como fazer para evitar desperdícios e gastos desnecessários na etapa do transporte, por exemplo. E isso nos interessa demais”, disse o gerente de Projetos da Secretaria de Inovação do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Rafael Moreira. “Fiquei muito bem impressionado com o que vi no Irã. Eles conhecem o setor e sabem lidar com ele.”

Ao passar pelo Irã, com a comitiva empresarial liderada pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, Moreira conheceu as várias etapas de atividades da empresa estatal do Irã - a Iranian Gas Company – e conversou com diretores e técnicos. Segundo ele, a ideia é elaborar um relatório detalhado, a ser apresentado à Petrobras e demais empresas do setor, para a avaliação de um possível acordo de cooperação.

“A parceria pode ser interessante para que as empresas levem o conhecimento do que se faz no Irã para os novos leilões”, disse Moreira. “A forma como o Irã atua na área de gás natural permite que o país produza de seis a oito vezes mais do que se tem no Brasil, por exemplo”, acrescentou.

Apesar de deter a segunda maior reserva mundial, o Irã sofre com as restrições econômicas impostas pelos países alinhados aos Estados Unidos. Os principais parceiros comerciais dos iranianos são a China e a Índia. Por essa razão, há expectativa de que um eventual acordo com o Irã seja bem-sucedido.

*A repórter e o fotógrafo viajaram a convite do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

Edição: Graça Adjuto

quarta-feira, 31 de março de 2010

Atentados no metrô de Moscou reacendem xenofobia na Rússia

Do Ópera Mundi
Por Sandro Fernandes de Moscou

Moscou amanheceu hoje (29) aos prantos e assustada. Dois atentados terroristas num intervalo de 40 minutos atingiram o metrô da capital russa. Hora do rush, estações centrais e um saldo de 38 mortos. Pouco antes das 8h, a primeira bomba: estação Lubyanka, bairro que abriga a sede do Serviço Federal de Segurança (FSB, antiga KGB). Às 8h40, a segunda bomba: estação Park Kultury. As linhas de telefone congestionadas e a falta de informação só aumentaram o pânico.

O metrô mais movimentado do mundo, com 9 milhões de passageiros por dia, ficou hoje vazio. Policiais controlavam todas as conexões do metrô com detectores de metal e armas. Abrir uma mochila, atender o telefone, conferir o itinerário, qualquer movimento mais brusco era observado com medo. Cada estação era aguardada com ansiedade, como se, a qualquer momento, vidas e sonhos pudessem ir pelos ares com um novo ataque. E o pior - éramos todos suspeitos. Alguns, mais do que outros.

Eu mesmo, por exemplo. Às 21h30, horário de Moscou, com normalidade parecendo ter voltado, resolvi passar pela estação Park Kultury para ver se ainda havia algo interditado ou, talvez, homenagens às vítimas. Nenhuma estação de metrô fechada, telefones funcionando normalmente, uma volta para casa como numa segunda-feira qualquer. Ou quase.

A primeira surpresa foi com a quantidade de policiais na plataforma, entre 15 e 20. Todos muito jovens, como se tivessem sido convocados naquele mesmo dia. Vestiam casacos muito largos ou muito curtos e as fardas de policial não escondiam as caras de apavorados.

Sentei e resolvi observar. Em dez minutos, pediram os documentos de sete pessoas (todos aparentando ser do Cáucaso) e expulsaram do metrô dois russos alcoolizados (o que, num dia normal, não importa a ninguém). Liguei meu computador e comecei escrever esta matéria para o Opera Mundi ali mesmo, sentado no local onde algumas horas antes havia acontecido o atentado. Em questão de minutos, todos os policiais vieram e começaram a perguntar o que eu estava fazendo. Revisaram minha mochila, pegaram a câmera e tentaram apagar algumas fotos que eu havia feito de manhã. Como não conseguiram, resolveram me levar para a sala de polícia, comum nas estações de metrô de Moscou. Fui liberado em 20 minutos, mas obrigado a deixar o computador e a câmera de fotos com eles "temporariamente", para inspeção. Em momento algum, pediram meu passaporte.

"Não sou russo e tenho feições asiáticas", relatou ao Opera Mundi o estudante malaio Alex Tan, de 24 anos. "Acho melhor ficar em casa esta semana. Hoje parece que todo mundo olha pra mim com raiva, com ódio".

O medo do estudante estrangeiro não é em vão. Durante todo o dia, a cena mais comum nas ruas e nos transportes públicos foi o rigoroso controle da Milítsia (polícia russa). Cidadãos do Cáucaso, negros e asiáticos foram os principais alvos das medidas de segurança. Mas houve também quem decidiu fazer "justiça" com as próprias mãos: um grupo de cinco passageiros agrediu duas mulheres com roupas islâmicas num vagão do metrô. "É um lugar cheio de ódio. Só não vê quem não quer. Nosso governo precisa lutar contra os terroristas muçulmanos do Cáucaso", esbravejava Marina Shramatilova, "uma eslava com muito orgulho".

Pessimismo

Os russos costumam chamar de tchernojopie ("bunda negra", em tradução livre) os tchetchenos, armênios e pessoas da Ásia Central. Agora, o clima de hostilidade só tende a aumentar. "Infelizmente, os ataques xenófobos vão ser mais constantes e tenho certeza de que a polícia não vai fazer nada para impedir", prevê a moscovita Nataliya Savelieva, de 32 anos. "Tenho amigos de muitos lugares e fico preocupada com a segurança deles".

"Os estrangeiros vão sofrer aqui o que nós árabes sofremos depois do 11 de setembro", prediz, pessimista, a libanesa Salwa Abdultawab, de 30 anos, residente há cinco anos na capital russa.

Moscou viveu horas caóticas, mas algumas pessoas acharam uma maneira para aproveitar a situação. Uma corrida de táxi entre a Komsomolskaya (Praça da Juventude Comunista) e o Park Kultury (Parque da Cultura), que normalmente custa 200 rublos (12 reais), não saía por menos de 3000 rublos (184 reais). Com a linha vermelha do metrô parcialmente fechada e o medo de utilizar o transporte público, era difícil achar um táxi disponível.

"Os taxistas são do Cáucaso, não são russos. Por isso, eles se aproveitam", reclamava uma passageira do metrô que não quis se identificar.

Oração e perseguição

Depois do ataque, a primeira figura pública a se pronunciar foi o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, Cirilo I, sempre ativo nos assuntos do Estado e pessoalmente próximo do primeiro-ministro Vladimir Putin. Cirilo convocou os russos a "lutar contra os terroristas" e prometeu rezar pelas vítimas e suas famílias.

Já à noite, o presidente Dmitri Medvedev visitou a estação Lubyanka e prometeu "perseguir os terroristas sem hesitar".

Moscovitas de nascimento e aqueles que adotaram a cidade ainda vão precisar de muito tempo para se recuperar do medo depois do quinto atentado em apenas 12 anos. No pior deles, em setembro de 1999, 293 pessoas morreram e 651 ficaram feridas em uma série de explosões em condomínios residenciais, num atentado atribuído a separatistas tchetchenos que, anos depois, a oposição denunciou ter sido orquestrado pelo próprio Kremlin - o que nunca foi provado.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Afeganistão: mais um "Quagmire" americano?

"Quagmire", que corresponde a "atoleiro", "pantano", e o significado para a atuacao dos EUA no Afeganistao, tendo em vista os esforcos para combater o Taleban naquela regiao. E entendimento corrente que as acoes nao estao surtindo os efeitos desejados, que seriam a erradicacao dos terroristas e a pacificacao do pais. O artigo e de Mikhail Gorbachov publicado no New York Times.




Por Mikhail Gorbachev*

O Afeganistão está um caos, com tensões crescentes e pessoas morrendo diariamente. Muitas delas -inclusive mulheres, crianças e idosos- não têm nada em comum com terroristas ou militantes.

O governo está perdendo o controle do território: das 34 províncias, o Taleban controla uma dúzia. A produção e exportação de narcóticos está crescendo. Há um verdadeiro perigo de desestabilização estendendo-se para países vizinhos, inclusive para as repúblicas da Asia Central e o Paquistão.

Precisamos compreender por que isso está acontecendo e o que ainda pode ser feito para mudar o rumo de uma situação quase desastrosa. A recente conferência em Londres com representantes de muitos países e organizações internacionais é um primeiro passo em uma nova direção.

Após preparos diligentes, os delegados em Londres adotaram decisões que podem ajudar a mudar as coisas –mas apenas se a experiência das últimas três décadas for reavaliada, e suas lições, aprendidas.

Em 1979, a União Soviética enviou tropas ao Afeganistão, justificando a medida não apenas pelo desejo de ajudar elementos amigos, mas também pela necessidade de estabilizar um país vizinho. O maior erro foi não compreender a complexidade do Afeganistão –os diferentes grupos étnicos, clãs e tribos, suas tradições únicas e mínima governança. O resultado foi o oposto do que se pretendia: instabilidade ainda maior, uma guerra com milhares de vítimas e consequências perigosas para nosso próprio país. Além disso, o Ocidente, particularmente os EUA, botaram lenha na fogueira no espírito da Guerra Fria; estavam dispostos a apoiar qualquer um contra a União Soviética, sem pensar nas possíveis consequências de longo prazo.

Como parte da perestroica, em meados da década de 80, a nova liderança soviética tirou conclusões novas dos problemas no Afeganistão. Fizemos duas decisões cruciais. Primeiro, estabelecemos a meta de retirar nossas tropas. Segundo, decidimos trabalhar com todas as partes no conflito e com os governos envolvidos para alcançar uma reconciliação nacional no país. A ideia era tornar o Afeganistão um país neutro e pacífico que não ameaçasse ninguém.

Olhando para trás, ainda acredito que era um caminho adequado e responsável. Tenho certeza que, se tivéssemos tido sucesso, muitos problemas e desastres teriam sido evitados. Nossa nova política não era apenas uma declaração; durante meu mandato, trabalhamos duro e de boa fé para implementá-lo. Para ter sucesso, precisávamos de cooperação sincera e responsável de todas as partes. O governo afegão estava disposto a ceder e esforçou-se para alcançar a reconciliação. Em uma série de regiões, as coisas começaram a melhorar.

Contudo, o Paquistão, particularmente seu alto escalão, e os EUA impediram todas as frentes de progresso. Eles queriam uma coisa: a retirada das tropas soviéticas, que achavam que os deixaria em pleno controle. Ao negar o menor apoio ao governo do presidente Muhammad Najibulla, Boris Yeltsin fez o jogo deles quando assumiu.

Nos anos 90, o mundo parecia indiferente ao Afeganistão. Naquela década, o governo caiu nas mãos do Taleban, que tornou o Afeganistão um porto seguro para os fundamentalistas islâmicos e uma incubadora do terrorismo. O dia 11 de setembro foi um despertar brutal para os líderes ocidentais. Mesmo assim, contudo, o Ocidente fez uma decisão que não foi bem pensada e portando se provou falha.

Após expulsar o governo do Taleban, os EUA acharam que a vitória militar, alcançada a pouco custo, era final e que tinha basicamente resolvido o antigo problema. O sucesso inicial foi provavelmente uma razão porque os americanos esperavam um “passeio no parque” no Iraque, dando o passo fatal de adotar a estratégia militar no país também. Enquanto isso, eles construíram uma fachada democrática no Afeganistão, guardada pela força de assistência de segurança internacional, ou seja, as tropas da Otan. Progressivamente, a Otan buscou assumir o papel de uma polícia global.


Ofensiva dos EUA contra o Taleban no Afeganistão


O resto é história. O caminho militar no Afeganistão se provou cada vez menos sustentável. Era um segredo que todos sabiam; até mesmo o embaixador dos EUA disse isso, em telegramas recentemente divulgados.

Várias vezes nos últimos meses me perguntaram o que eu recomendava ao presidente Obama, que herdou essa confusão de seu predecessor. Minha resposta tem sido a mesma: uma solução política e a retirada dos soldados. Isso requer uma estratégia de reconciliação nacional.

Agora, finalmente, uma estratégia muito similar à que oferecemos há mais de duas décadas e que nossos parceiros recusaram foi apresentada na reunião em Londres: a reconciliação, envolvendo na reconstrução todos os elementos mais razoáveis e enfatizando uma solução política e não militar.

O enviado da ONU no Afeganistão disse em recente entrevista que era necessária a desmilitarização de toda a estratégia no Afeganistão. Que vergonha que isso não foi dito e feito há muito tempo!

As chances de sucesso –sucesso, e não “vitória” militar- são, na melhor das hipóteses, de 50%. Houve alguns contatos com certos elementos do Taleban. Mais precisa ser feito para incluir o Irã no processo; muito trabalho duro precisa ser feito com os paquistaneses.

A Rússia pode se tornar uma parte importante do processo de acordo afegão. O Ocidente deve apreciar a posição que os líderes russos estão tomando no Afeganistão. Longe de se vangloriar e deixar o Ocidente encarar a questão sozinho enquanto lavamos nossas mãos, a Rússia está pronta a cooperar com o Ocidente porque compreende que é de seu maior interesse combater as ameaças vindas do Afeganistão.

A Rússia está correta em perguntar por que, durante os anos de presença militar norte-americana e da Otan no Afeganistão, nada ou pouco foi feito para deter a produção de narcóticos, que fluem em grandes quantidades para a Rússia pelas fronteiras porosas do país e ameaçam a saúde de nossa nação. A Rússia também está certa em exigir acesso a oportunidades econômicas no Afeganistão, inclusive a reconstrução de dezenas de projetos construídos com nossa ajuda e depois destruídos durante os anos 90.

A Rússia é vizinha do Afeganistão e seus interesses devem ser levados em conta. A lógica parece evidente, mas algumas vezes é preciso um lembrete.

Quero acreditar que uma nova fase esteja surgindo para o Afeganistão, um raio de esperança para seus milhões de habitantes que sofrem há tanto tempo. A chance está aí, mas é preciso muito para aproveitar a nova oportunidade: realismo, persistência e, por fim, honestidade, ao aprender com os erros feitos no passado, além da capacidade de agir com base nesse conhecimento.

*Mikhail Gorbachov foi o último presidente da extinta União Soviética e um dos responsáveis pelo fim da guerra fria. Ambientalista, Gorbachov já foi agraciado com o prêmio Nobel da paz.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Paris rejeita apelo do Brasil ao diálogo com Irã

E interessante observar os movimentos em torno deste assunto. Fontes, com a AIEA, confirmam que o enriquecimento do uranio no Ira e modesto. O Brasil defende o dialogo e um grupo de paises do primeiro mundo exigem um maior controle sobre o programa nuclear iraniano, pregando o endurecimento das relacoes com aquele pais. A questao e: ate que ponto esta politica independente do Brasil trara dividendos, principalmente para quem esta buscando um assento permanente no Conselho de Seguranca da ONU? Ainda que seja legitimo para um pais soberano dominar o cilco do uranio para fins pacificos, em termos de politica internacional, seria legitimo ao Ira, sabendo do esforco do Pres. Ahmadinejah em permanecer como um elemento de conflito numa regiao especialmente sensivel do planeta?

da Folha de S. Paulo, em Genebra
Luciana Coelho
A França minimizou ontem a posição brasileira sobre o programa nuclear do  Irã disse que continuará a "trabalhar com seus parceiros" para fortalecer as medidas que visam dissuadir Teerã da ideia de enriquecer urânio por conta própria.

Não ficou claro se o Brasil estaria ou não entre eles, já que os dois países estreitaram a aliança nos últimos meses e se dizem parceiros estratégicos.

Indagado durante entrevista coletiva transmitida pela internet sobre o que Paris pensava da posição do chanceler Celso Amorim e o que faria para persuadir o parceiro a aceitar punir Teerã, o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Bernard Valero, evitou mencionar diretamente o país.

Mas refutou a ideia de Amorim de que deve haver mais tempo para o diálogo, sem sanções. Nos últimos dias, a Rússia, que compartilhava da mesma posição do Brasil, recuou.

"Até este momento, o Irã não respondeu às múltiplas ofertas de diálogo e cooperação que lhe foram colocadas", respondeu Valero. "Nessas condições, e segundo a abordagem dupla promovida pelo P5 +1 [China, Rússia, EUA, Reino Unido, França e Alemanha], que se baseia no diálogo e na firmeza, não nos resta outra opção hoje que não seja trabalhar com nossos parceiros para reforçar essas medidas."

Em Paris, a Chancelaria evita declarações sobre a divergência de opiniões, evidente. Em Genebra, porém, diplomatas afirmam que ela não está entre as preocupações centrais do governo francês, e os dois lados negam contatos.

O Brasil tem debatido a questão iraniana com os EUA, que lideram a pressão para a imposição de novas sanções. Mas Brasília mantém a posição de que é preciso mais tempo para o diálogo. Da forma como as coisas se delineiam hoje, apurou a Folha, o Brasil deve optar pela abstenção na votação no Conselho de Segurança.