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quarta-feira, 31 de março de 2010

Atentados no metrô de Moscou reacendem xenofobia na Rússia

Do Ópera Mundi
Por Sandro Fernandes de Moscou

Moscou amanheceu hoje (29) aos prantos e assustada. Dois atentados terroristas num intervalo de 40 minutos atingiram o metrô da capital russa. Hora do rush, estações centrais e um saldo de 38 mortos. Pouco antes das 8h, a primeira bomba: estação Lubyanka, bairro que abriga a sede do Serviço Federal de Segurança (FSB, antiga KGB). Às 8h40, a segunda bomba: estação Park Kultury. As linhas de telefone congestionadas e a falta de informação só aumentaram o pânico.

O metrô mais movimentado do mundo, com 9 milhões de passageiros por dia, ficou hoje vazio. Policiais controlavam todas as conexões do metrô com detectores de metal e armas. Abrir uma mochila, atender o telefone, conferir o itinerário, qualquer movimento mais brusco era observado com medo. Cada estação era aguardada com ansiedade, como se, a qualquer momento, vidas e sonhos pudessem ir pelos ares com um novo ataque. E o pior - éramos todos suspeitos. Alguns, mais do que outros.

Eu mesmo, por exemplo. Às 21h30, horário de Moscou, com normalidade parecendo ter voltado, resolvi passar pela estação Park Kultury para ver se ainda havia algo interditado ou, talvez, homenagens às vítimas. Nenhuma estação de metrô fechada, telefones funcionando normalmente, uma volta para casa como numa segunda-feira qualquer. Ou quase.

A primeira surpresa foi com a quantidade de policiais na plataforma, entre 15 e 20. Todos muito jovens, como se tivessem sido convocados naquele mesmo dia. Vestiam casacos muito largos ou muito curtos e as fardas de policial não escondiam as caras de apavorados.

Sentei e resolvi observar. Em dez minutos, pediram os documentos de sete pessoas (todos aparentando ser do Cáucaso) e expulsaram do metrô dois russos alcoolizados (o que, num dia normal, não importa a ninguém). Liguei meu computador e comecei escrever esta matéria para o Opera Mundi ali mesmo, sentado no local onde algumas horas antes havia acontecido o atentado. Em questão de minutos, todos os policiais vieram e começaram a perguntar o que eu estava fazendo. Revisaram minha mochila, pegaram a câmera e tentaram apagar algumas fotos que eu havia feito de manhã. Como não conseguiram, resolveram me levar para a sala de polícia, comum nas estações de metrô de Moscou. Fui liberado em 20 minutos, mas obrigado a deixar o computador e a câmera de fotos com eles "temporariamente", para inspeção. Em momento algum, pediram meu passaporte.

"Não sou russo e tenho feições asiáticas", relatou ao Opera Mundi o estudante malaio Alex Tan, de 24 anos. "Acho melhor ficar em casa esta semana. Hoje parece que todo mundo olha pra mim com raiva, com ódio".

O medo do estudante estrangeiro não é em vão. Durante todo o dia, a cena mais comum nas ruas e nos transportes públicos foi o rigoroso controle da Milítsia (polícia russa). Cidadãos do Cáucaso, negros e asiáticos foram os principais alvos das medidas de segurança. Mas houve também quem decidiu fazer "justiça" com as próprias mãos: um grupo de cinco passageiros agrediu duas mulheres com roupas islâmicas num vagão do metrô. "É um lugar cheio de ódio. Só não vê quem não quer. Nosso governo precisa lutar contra os terroristas muçulmanos do Cáucaso", esbravejava Marina Shramatilova, "uma eslava com muito orgulho".

Pessimismo

Os russos costumam chamar de tchernojopie ("bunda negra", em tradução livre) os tchetchenos, armênios e pessoas da Ásia Central. Agora, o clima de hostilidade só tende a aumentar. "Infelizmente, os ataques xenófobos vão ser mais constantes e tenho certeza de que a polícia não vai fazer nada para impedir", prevê a moscovita Nataliya Savelieva, de 32 anos. "Tenho amigos de muitos lugares e fico preocupada com a segurança deles".

"Os estrangeiros vão sofrer aqui o que nós árabes sofremos depois do 11 de setembro", prediz, pessimista, a libanesa Salwa Abdultawab, de 30 anos, residente há cinco anos na capital russa.

Moscou viveu horas caóticas, mas algumas pessoas acharam uma maneira para aproveitar a situação. Uma corrida de táxi entre a Komsomolskaya (Praça da Juventude Comunista) e o Park Kultury (Parque da Cultura), que normalmente custa 200 rublos (12 reais), não saía por menos de 3000 rublos (184 reais). Com a linha vermelha do metrô parcialmente fechada e o medo de utilizar o transporte público, era difícil achar um táxi disponível.

"Os taxistas são do Cáucaso, não são russos. Por isso, eles se aproveitam", reclamava uma passageira do metrô que não quis se identificar.

Oração e perseguição

Depois do ataque, a primeira figura pública a se pronunciar foi o patriarca da Igreja Ortodoxa Russa, Cirilo I, sempre ativo nos assuntos do Estado e pessoalmente próximo do primeiro-ministro Vladimir Putin. Cirilo convocou os russos a "lutar contra os terroristas" e prometeu rezar pelas vítimas e suas famílias.

Já à noite, o presidente Dmitri Medvedev visitou a estação Lubyanka e prometeu "perseguir os terroristas sem hesitar".

Moscovitas de nascimento e aqueles que adotaram a cidade ainda vão precisar de muito tempo para se recuperar do medo depois do quinto atentado em apenas 12 anos. No pior deles, em setembro de 1999, 293 pessoas morreram e 651 ficaram feridas em uma série de explosões em condomínios residenciais, num atentado atribuído a separatistas tchetchenos que, anos depois, a oposição denunciou ter sido orquestrado pelo próprio Kremlin - o que nunca foi provado.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Chuvas em São Paulo

Falta de planejamento urbano é a razão das enchentes em SP

Por Juliano Costa, Redação Yahoo! Brasil

As enchentes na várzea do Rio Tietê na Zona Leste de São Paulo, que vão completar dois meses no próximo dia 8 de fevereiro, ressuscitaram um debate sobre a ausência do planejamento urbano naquela área.

Comunidades inteiras que ficaram alagadas, como o Jardim Romano, o Jardim Pantanal e a Chácara Três Meninas, foram erguidas próximas às margens do Tietê, impermeabilizando o solo. Algumas já começaram a ser derrubadas, como a Vila Aimoré - os moradores foram reassentados em Conjuntos Habitacionais em cidades vizinhas (bem longe de onde moravam) ou se cadastraram para receber um auxílio-aluguel de R$ 300 por seis meses.
A questão é que muito desses moradores estavam ali já há mais de 30 anos, com a anuência do poder público, já que contavam com luz elétrica, telefone e água encanada - um bairro como outro qualquer, mas numa região pantanosa. A indignação das pessoas vem da falta de planejamento dos governos - do estado e da prefeitura de São Paulo - no reassentamento e do fato de que muitas empresas não serão despejadas como elas, apesar de estarem às margens do rio.
"Vão tirar os pobres e deixar as empresas", resume o líder comunitário Ronaldo Delfino, do Movimento por Urbanização e Legalização do Pantanal (Mulp).
Depois de um mês com bairros inteiros debaixo d'água, a secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo criou, em 6 de janeiro, uma resolução que torna mais rigorosos os procedimentos de licenciamento ambiental na área de influência do Rio Tietê. A questão é simples: como uma obra na várzea resulta em impactos ambientais que transcendem os limites dos municípios, cabe ao governo estadual a fiscalização. Por isso, agora o licenciamento nestas áreas tem de passar por órgãos estaduais como a CETESB (Companhia Ambiental do Estado de São Paulo) e o DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica). A tarefa antes cabia às prefeituras municipais das cidades por onde passará o Parque das Várzeas do Tietê, como Itaquaquecetuba, Mogi das Cruzes, Poá e Suzano.
O plano do governo do estado é "recuperar as várzeas ocupadas irregularmente e preservar as remanescentes a montante da barragem da Penha até a nascente do rio, em Salesópolis". A área, de 75 km de extensão e 90 km², se tornaria o "maior parque linear do mundo", como tem alardeado o Governo. As moradias serão desapropriadas para dar lugar a uma imensa área verde - as árvores retiradas para construção da terceira pista da marginal Tietê vão para lá. Mas as empresas vão ficar.
A delimitação do Parque corresponde a um estudo da secretaria do Meio-Ambiente que criou a chamada Área de Proteção Ambiental (APA). A linha verde que caracteriza a APA inclui as comunidades pobres, mas deixa de fora as empresas. Num mundo ideal, todos teriam de sair dali. Mas...
"Esse problema já dura mais de 30 anos e vem passando de um governo para o outro. Já passou da hora de tirar aquele pessoal de lá. Se estão numa área de proteção ambiental, numa váreza de rio, é óbvio que a água vai entrar em casa - e nas fábricas também. O loteamento impermeabilizou as várzeas e gerou esse problema, com a leniência dos governos", diz Miron Rodrigues da Cunha, membro da diretoria executiva do Conselho Gestor da APA da Várzea do Rio Tietê. "Construíram até um CEU (Centro de Educação Unificada) numa área próxima ao Rio. Fizeram sem consultar o Conselho Gestor da APA. E agora como fica? Deixa a escola lá? Ela está alagada..."
O CEU é herança da administração de Marta Suplicy (PT) na prefeitura. A mão do governo em local errado, porém, começou a ser vista com o governador Mário Covas (PSDB). Um imenso Conjunto Habitacional da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo) foi inaugurado em 1998 às margens da rodovia Ayrton Senna - no caminho para o Aeroporto Internacional de Guarulhos. Isso tudo deixa a população ressabiada - como um complexo de prédios pode ficar ali e uma centena de barracos precisa sair?

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