Mostrando postagens com marcador programa nuclear. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador programa nuclear. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 27 de abril de 2010

Brasil faz apelo para retomar acordo de troca nuclear com Irã

A bem da verdade, neste imbróglio todo envolvendo o Irã, fazendo uma análise crua e abstraindo a questão economômica que secunda as intenções brasileiras, é preciso que se entenda que para que haja a “inserção global” do Brasil é necessário que o país entre para o clube, liderado pelos EUA. Mas para isto vai precisar se alinhar aos interesses estratégicos ocidentais, ou seja, aqueles que ainda sobrevivem com o viés ideológico da OTAN. Não precisa ser um alinhamento automático, mas não pode atrapalhar os interesses do clube. O Brasil não pode se dar ao luxo de “peitar” esta aliança estratégica, que se costurou desde a segunda grande guerra, se intensificou com a guerra fria, e hoje é ainda a mais poderosa, militar e economicamente falando, ainda que estejamos num mundo menos polarizado. Além do quê o Brasil não é do clube atômico, e, ainda que fosse, não tem “escala” para encarar esta parada. Entretanto, acredito que o governo Lula tenha feito uma aposta bem arriscada, contando com o peso dos BRICs (apenas para não enumerá-los um a um), para dissuadir a imposição de sanções contra o Irã. Neste caso optou pela sua própria aliança estratégica, que está sendo forjada nas relações sul-sul, como uma contrapartida a antiga aliança ocidental. Uma jogada de grande risco, que, aparentemente tem tudo para dar errado, haja vista que, ao contrário da aliança ocidental, entendo que ainda falta um amálgama importante, que vá além dos interesses econômicos, a unir tais países do sul, e aí entra também o componente histórico e cultural. Mas tudo é possível, e no xadrez global não é improvável que até a mais poderosa aliança fique em xeque num determinado momento.

Da Reuters

TEERÃ (Reuters) - O Brasil quer ver a retomada de um acordo de troca de combustível nuclear como forma de pôr fim ao impasse com o Irã sobre seu programa nuclear, disse o ministro de Relações Exteriores Celso Amorim nesta terça-feira.

Em visita a Teerã, Amorim disse que o Brasil queria ajudar a resolver a disputa que levou o Ocidente a buscar sanções da ONU contra o Irã, país que os Estados Unidos e seus aliados temem tentará construir uma bomba atômica.

O Brasil, membro temporário do Conselho de Segurança da ONU, vem resistindo à pressão dos EUA para apoiar novas sanções que Washington pretende aprovar nas próximas semanas, e Amorim fez um apelo para que todos os lados demonstrem "flexibilidade" para chegar a um acordo.

"Não existe consenso político de que o Irã deve ser isolado ou que o Brasil vá nessa direção", disse Amorim em coletiva de imprensa ao lado de seu colega iraniano.
Amorim disse que espera que um acordo de troca de combustível, acordado em princípio no outubro passado, fosse retomado.

O acordo inicial determinava que Teerã enviaria 1.200 quilos de urânio de baixo enriquecimento --o suficiente para uma única bomba se purificado para um nível suficientemente alto-- para que a Rússia e a França o transformassem em combustível para um reator de pesquisa médica.

O Irã disse depois que aceitaria apenas uma troca simultânea em território iraniano, uma mudança que outros partidários do acordo disseram não aceitar porque seria um empecilho à construção de confiança.
"O Irã deve ter atividades nucleares para propósitos pacíficos e a comunidade internacional também deve receber garantias de que não haverá violação ou desvio para finalidades militares", disse Amorim a jornalistas.

Uma solução negociada deve significar que qualquer "ambiguidade" sobre o programa nuclear já terminou, disse ele.
"A razão pela qual damos alta importância a esse acordo de troca de combustível nuclear... é porque o acordo em si é um acordo importante e segundo, cria a confiança com a AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica) e alguns países ocidentais", disse Amorim.

"Temos esperança de que esse acordo deve ser feito, mas, como qualquer outra negociação, deve haver flexibilidade de ambos os lados."
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que alertou contra "encurralar o Irã", deve visitar Teerã em maio, refletindo o fortalecimento de laços diplomáticos e econômicos entre os países.
(Reportagem de Robin Pomeroy)

terça-feira, 2 de março de 2010

China mantém abordagem diplomática ao Irã

Da Reuters

Por Chris Buckley
PEQUIM (Reuters) - A China reiterou que a diplomacia é a melhor forma de resolver o impasse em torno do programa nuclear iraniano, enquanto diplomatas dos EUA chegavam a Pequim para discutir as ambições nucleares de Teerã e da Coreia do Norte.

O subsecretário de Estado James Steinberg é a principal autoridade dos EUA a visitar Pequim desde a onda de atritos entre os dois países por causa de questões relativas a censura na Internet, comércio, venda de armas a Taiwan e liberdades no Tibet.

Washington e outros governos ocidentais querem o apoio da China para novas sanções da ONU ao Irã, por causa das suspeitas de que o país estaria desenvolvendo armas nucleares -- intenção que Teerã nega reiteradamente possuir.

Dos cinco países com poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, a China é o mais resistente ao uso de sanções contra o Irã, argumentando que a diplomacia poderia resolver a questão.
Qin Gang, porta-voz da chancelaria chinesa, sugeriu na terça-feira que Pequim vai levar o tempo que for necessário na negociação. "Acreditamos que ainda há margem para esforços diplomáticos, e que as partes envolvidas devem intensificar esses esforços", afirmou Qin a jornalistas.

Analistas e autoridades estrangeiras dizem que a China irá resistir a eventuais sanções que ameacem a oferta de petróleo e os investimentos chineses no Irã, mas a maioria acredita que Pequim aceitaria sanções mais "engessadas", com efeito mais simbólico do que prático.

O Irã foi no ano passado a terceira principal fonte de petróleo importado para a China.
De acordo com Philip Crowley, porta-voz do Departamento de Estado, Steinberg deve discutir também a questão da Coreia do Norte, cujo arsenal nuclear alarma os vizinhos do regime comunista e também os EUA.
Os cinco países envolvidos nas negociações nucleares com Pyongyang tentam retomar o processo, abandonado por iniciativa norte-coreana há um ano. Em geral, a Coreia do Norte impõe condições para retomar o diálogo, em especial o fim das sanções da ONU e uma negociação direta com Washington para a assinatura de um tratado que paz que substitua o armistício que encerrou a Guerra da Coreia (1950-53).

Washington espera que a visita de Steinberg e do diretor de assuntos asiáticos do Conselho de Segurança Nacional, Jeffrey Bader, leve a uma melhora nas relações sino-americanas.
"Passamos por um caminho um pouco acidentado, e acho que há um interesse tanto dentro dos Estados Unidos quanto na China de normalizar as coisas assim que possível", disse Crowley a jornalistas.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Blowback: o legado da CIA no Irã, Afeganistão e Paquistão.

Por Argemiro Ferreira

A imagem do herói no cavalo branco a salvar a mocinha das garras do vilão, seja este assaltante de banco ou índio em defesa de suas terras invadidas, é recorrente na ficção de Hollywood. O deputado Charlie Wilson morreu, aos 76 anos, no dia 10 de fevereiro, certo de que era herói na vida real. Motivo: no Congresso injetou bilhões de dólares para financiar os que lutavam contra os russos no Afeganistão.

Ao morrer do coração Wilson já estava aposentado. Mas ele representou o Texas por 14 mandatos sucessivos na Câmara. Um livro (“Charlie Wilson’s War - The Extraordinary Story of the Largest Covert Operation in History”, de George Crile) e um filme (“Charlie Wilson’s War”, de Mike Nichols, com Tom Hanks no papel-título) o retrataram como herói.

A semana marcou ainda o 31° aniversário da revolução dos aiatolás do Irã, ocorrida apenas alguns meses antes da invasão do Afeganistão. Os iranianos derrubaram o regime do xá Reza Pahlevi, instalado em 1953 graças a golpe planejado pela mesma CIA que usou as verbas secretas do deputado Wilson para recrutar e armar os radicais islâmicos do lado paquistanês da fronteira com o Afeganistão.

O mínimo que se pode dizer é que no Irã, Afeganistão e Paquistão os EUA colhem hoje o que a CIA plantou com a colaboração de gente como o deputado Wilson. Osama Bin Laden foi treinado pela CIA para atacar os russos; gostou e atacou depois o World Trade Center em Nova York. E as bombas atômicas do Paquistão (real) e do Irã (hipotética) devem-se, ao menos em parte, à igual cortesia da CIA.

A lambança atual no Afeganistão (largamente nas mãos dos radicais islâmicos usados pela CIA a partir de 1979), no Paquistão (onde a CIA instalou acampamentos para os ataques aos russos no país vizinho e encorajou o sonho paquistanês da bomba nuclear islâmica) e no Irã (que se nega hoje a abandonar o enriquecimento de urânio) reflete o passado irresponsável da espionagem dos EUA.

No Irã o golpe da CIA instalou o xá no lugar do premier nacionalista Mohamed Mossadegh, anulou a nacionalização do petróleo e com faustosa coroação em 1967 impôs a ficção do “trono de 2.500 anos”. As corporações anglo-americanas ganharam mais um quarto de século para explorar o petróleo do Irã, já que a CIA ainda concebeu a tenebrosa Savak, serviço secreto celebrizado pelas câmaras de tortura.

Ainda naquela década de 1950 o Irã foi premiado pelo governo do presidente Eisenhower com relações muito especiais - que incluiram “acordo de cooperação nuclear para fins pacíficos”, deixando o país com alguma base para, em seguida à revolução dos aiatolás, assustar os EUA com a disposição de ampliar o programa nuclear e rumar para o enriquecimento de urânio.

Para o Irã submisso de Reza Pahlevi, nada era bom demais: além de favorecer o desenvolvimento nuclear, Washington ainda dotou o país de armas sofisticadas e modernizou a máquina da repressão - tudo pago com a receita do petróleo, que regalou nos EUA as indústrias bélica, aeronáutica, nuclear e de segurança. Só que hoje, tomado pelos rebeldes radicalizados nas câmaras de tortura, o Irã é outro.

De tal forma o Irã do xá era criatura da CIA que, no final de 1973, o presidente Nixon concluiu que ninguém melhor para ser embaixador em Teerã do que o próprio diretor da central de espionagem, Richard Helms - “dada a intimidade dele com o xá”, explicou. Como se fosse o posto final de uma carreira de sucesso na CIA, dirigida por Helms durante quase sete anos, antes dos três que passou no Irã.

Com a contribuição do deputado Charlie Wilson, anticomunista meio fanático, o capítulo Afeganistão-Paquistão foi ainda mais vivo, excitante e insólito - ou “colorful”, para usar adjetivo talvez mais apropriado à conduta do parlamentar excêntrico que quando não estava “salvando o mundo” da suposta “ameaça vermelha” dedicava-se ao consumo de álcool e drogas com prostitutas de luxo.

Ele ficou obviamente encantado com os relatos do livro e do filme que o tornaram celebridade. Seu papel pode ter sido singular pelo conhecimento de sutilezas do processo legislativo na Câmara, onde integrava a comissão de verbas (appropriations) e sua subcomissão sobre operações no exterior - além de cultivar contatos na comissão que supervisiona a espionagem.

Não só estava familiarizado com mecanismos e artifícios para ocultar a destinação de recursos. Também revelara-se mestre na troca de favores com colegas interessados em abocanhar verbas para projetos de seus distritos eleitorais. Certos especialistas acham que hoje teria mais dificuldades: o processo legislativo sofreu reformas depois, reduzindo - em nome da transparência - a prática do sigilo.

O fato é que Wilson começou por canalizar uma verba de US$ 5 milhões para os radicais do Afeganistão. E, no fim da década de 1980, aqueles recursos elevavam-se a nada menos de US$ 750 milhões por ano. Pode ter sido ajudado por pertencer ao partido da oposição (Democrata) numa década dominada por governos republicanos (Reagan e Bush I) obstinados em estender ainda mais as ações militares dos EUA pelo mundo.

No Afeganistão e Paquistão, sabe-se hoje, a lambança foi bipartidária - devido a uma armadilha do governo do presidente democrata Jimmy Carter. Seu assessor de segurança nacional na Casa Branca, Zbigniew Brzezinski, confessaria 20 anos depois ter atraído a URSS para a idéia de invadir o Afeganistão. A invasão veio a 24 de dezembro de 1979, após seis meses de ajuda crescente da CIA aos rebeldes radicais.

Em entrevista à revista francesa “Nouvel Observateur”, em 1998, Brzezinski vangloriou-se de seu papel: “Carter assinou a 3 de julho de 1979 a primeira diretiva (à CIA) para a ajuda secreta aos opositores do regime pro-soviético de Kabul. Naquele dia eu tinha enviado nota ao presidente na qual expliquei que, na minha opinião, tal ajuda americana iria levar a uma intervenção militar soviética”.

Quando o jornalista perguntou se a ação clandestina dos EUA tivera a intenção de provocar a invasão russa, Brzezinski amenizou: “Não provocamos os russos para que invadissem, mas ampliamos conscientemente a probabilidade de que isso viesse a ocorrer”. No dia em que os russos cruzaram a fronteira, disse, escreveu de novo a Carter: “Agora temos a oportunidade de dar aos soviéticos o Vietnã deles”.

Brzezinski contestou, assim, a tese republicana que atribui a Reagan a glória pelo fim da URSS. “Durante quase 10 anos a URSS amargou guerra insuportável - um conflito que trouxe a desmoralização e, afinal, a dissolução do império soviético”, alegou. Mas o exagero é comparável ao do mérito republicano. O desfecho, após meio século, deveu-se aos dois partidos e muita gente mais - inclusive os que erraram na própria URSS.

As avaliações atuais tentam ignorar os efeitos negativos das ações da espionagem. Ao financiar, treinar e armar (até com mísseis Stinger, capazes de destruir aviões em vôo) os radicais que batizou de “combatentes da liberdade” a CIA extremou as ambições deles. Hoje ela os repudia como “terroristas”, indiferente ao fato de que aprenderam na CIA a pensar o impensável - como atacar o coração do império americano.

Com os russos fora do Afeganistão os EUA deixaram o país para os radicais que a CIA diplomou em terrorismo. Com armas como o Stinger, os talibãs tomaram o poder e ficaram até 2001. Bin Laden, saudita de nascimento, ainda dirige de lá a rede al-Qaeda, que opera no mundo a partir do território afegão. E a CIA ainda tenta “recomprar” Stinger mas nem sabe quantos distribuiu - a estimativa vai de 500 a 2.000.

O deputado Wilson, ao invés de herói, foi cúmplice das trapalhadas. Livro e filme dizem que atuava com assistência da CIA. A culpa dos EUA e sua agência ia mais longe na relação promíscua com o general-ditador paquistanês Zia-ul-Haq, que em troca do apoio à operação na fronteira afegã obteve luz verde e deu carta branca ao construtor da bomba atômica islâmica, o cientista Abdul Qadeer Khan.

No desdobramento, a receita da bomba-A do Paquistão foi parar no Irã, Coréia do Norte, Líbia e talvez outros. Assim, além de fazer a “guerra (sem fronteiras) ao terrorismo” e lutar no Afeganistão contra os que antes chamava de “combatentes da liberdade”, os EUA hoje têm de vigiar o Dr. Khan, o serviço secreto (ISI) do Paquistão, os progressos nucleares do Irã e da Coréia do Norte e sabe-se-lá-mais-o-que.

A própria CIA adotou a expressão “blowback” para designar os efeitos opostos ao que pretendia em cada uma de suas operações clandestinas. A palavra apareceu pela primeira vez em relatório secreto de 1954 sobre o golpe da CIA no Irã. O “blowback” da derrubada de Mossadegh foi a tirania de 25 anos e a revolução (antiamericana) dos aiatolás. Já no Afeganistão os ataques do 11/9 nos EUA tendem a ficar como exemplo maior.


 
Vá ao blog do Argemiro Ferreira