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sábado, 20 de março de 2010

Painel Internacional: Reino Unido vive a sua própria tragédia grega e terá que fazer cortes orçamentários

Der Spiegel
Por Marco Evers

O déficit orçamentário da Grécia é absurdamente alto. Mas o do Reino Unido é ainda maior. O primeiro-ministro Gordon Brown terá uma tarefa bem definida neste ano eleitoral – e os cortes orçamentários que estão por vir serão dolorosos.

No momento mais difícil da luta contra Adolf Hitler, o Ministério da Informação britânico – que existiu durante a Segunda Guerra Mundial – encomendou um pôster especial. Com o objetivo de promover a calma no cenário interno, ele mostrava a coroa do rei George VI contra um fundo vermelho, com as palavras “Mantenham a Calma e Sigam em Frente” impressas abaixo da imagem.
A situação jamais se tornou suficientemente desesperadora para justificar o uso do pôster, e os milhões de cópias impressas foram arquivados sem nunca terem sido utilizados. Dez anos atrás, um vendedor de livros descobriu uma única cópia e a pendurou na parede da sua loja. Isso poderia muito bem ter sido o fim da história do pôster, mas o país deparou-se subitamente com crises múltiplas: ataques terroristas, uma crise no setor bancário e, finalmente, a crise econômica e de crédito.

O pôster de um vermelho vivo está atualmente dependurado nas paredes dos gabinetes de vários diretores e membros do parlamento, em quarteis militares e dormitórios de estudantes. Ministérios inteiros o estão utilizando para estimular a moral, e versões emolduradas do pôster estariam até adornando as paredes de 10 Downing Street (residência e gabinete do primeiro-ministro do Reino Unido) e do Palácio de Buckingham.

Só que desta vez não está sendo fácil manter a calma e seguir em frente. A libra esterlina anda mal das pernas. A economia está mergulhada na pior crise desde 1931, e o país por muito pouco não despencou em uma recessão profunda. Os especuladores estão apostando que não haverá uma recuperação econômica. A instabilidade no setor financeiro tem provocado um impacto mais severo nas finanças do governo do Reino Unido do que nas de outros países industrializados. O déficit orçamentário de Londres chegará a 186 bilhões de libras esterlinas (205 bilhões de euros, US$ 280 bilhões, R$ 494,5 bilhões) neste ano – o que representa 12,9% do produto interno bruto do país.

Ninguém sabe como resolver o problema
Este país, que já foi chamado de “Cool Britannia” (termo usado de meados até o final da década de noventa para descrever a cultura moderna do Reino Unido), está imerso em uma série crise, com um rombo no orçamento ainda maior do que o déficit orçamentário da Grécia, que atualmente é de 12,2%. E ninguém sabe como resolver o problema.

De fato, esse problema tornou-se tão preocupante que a Comissão Europeia disse na quarta-feira (17/03) a Londres que se empenhasse mais em enxugar o seu orçamento, segundo uma cópia de um relatório que foi vazado para a agência de notícias “Reuters” no início desta semana. “A estratégia fiscal delineada no programa de convergência do Reino Unido não prevê a correção do déficit excessivo até o ano fiscal de 2014/2015, conforme recomendado pelo conselho”, afirmou a Comissão Europeia na sua declaração.
Para tornar as coisas ainda mais complicadas, os britânicos irão às urnas daqui a algumas semanas, provavelmente em 6 de maio. O próximo primeiro-ministro terá uma tarefa definida pela frente: reduzir o déficit orçamentário maciço, reestruturar a indústria bancária e reorientar eficientemente a economia. E ele terá que fazer isso tudo com um orçamento limitado.

Ambos os candidatos darão aos eleitores motivos para que estes questionem as suas qualificações para implementar as medidas que se fazem necessárias. O atual primeiro-ministro, Gordon Brown, 59, quando ocupava o seu antigo cargo de chancellor of the exchequer (cargo equivalente ao do Ministro da Fazenda brasileiro) no governo do seu predecessor, Tony Blair, gabava-se de ter acabado para sempre com as oscilações da economia. Entretanto, mal ele recebeu o cargo de Blair e a economia do país despencou.
Brown foi ridicularizado na imprensa, enfrentou revoltas no seu partido e o desprezo da população. Mas ele foi persistente. O primeiro-ministro engoliu as críticas e gradualmente construiu a reputação de um gerente de crise capaz, pelo menos durante a crise econômica global. Pesquisas realizadas nos últimos anos demonstram que, embora poucos britânicos o apreciem, uma quantidade cada vez maior de eleitores está disposta a votar nele mesmo assim.

Impostos e taxas mais elevados
Parte da imagem robusta de Brown deve-se primariamente ao seu adversário conservador, David Cameron, 43, que faz parte da arrogante classe alta, e cuja atuação como assessor especial do chancellor of the exchequer, durante a queda da libra esterlina em 1992, é considerada a sua única experiência em lidar com dificuldades econômicas. Além do mais, os seus colegas de partido questionam as qualificações de George Osborne, 38, o chancellor of the exchequer designado por Cameron.

O Reino Unido tem pela frente tempos difíceis. Tão difíceis, de fato, que nenhum dos partidos ousou dizer em voz alta aquilo que muitos dos seus membros já sabem. No mínimo, os britânicos podem esperar aumentos de impostos e taxas. “Teremos que fazer muitos sacrifícios”, avisa o economista Carl Emmerson, do independente Instituto para Estudos Fiscais, em Londres. “Os cortes no orçamento serão mais drásticos do que aqueles implementados no governo da ex-primeira-ministra Margaret Thatcher”.
Mais drásticos do que os de Thatcher. Estas palavras ainda hoje provocam um instinto de fuga – fuga para longe dos conservadores. Na década de oitenta, foram montadas nas ruas barricadas em chamas, e a polícia entrou em confronto com manifestantes. Foi uma época que os britânicos não esqueceram.

Leia mais: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/derspiegel/2010/03/18/reino-unido-vive-a-sua-propria-tragedia-grega-e-tera-que-fazer-cortes-orcamentarios.jhtm

sábado, 20 de fevereiro de 2010

A Grécia e os Corsários Financeiros

Belo artigo do Clóvis Rossi na Folha de São Paulo sobre a crise na Grécia. Revela a ação livre do capital financeiro especulativo em determinados mercados, prejudicando países economicamente frágeis e faz uma comparação com o sistema de seguros, tomando por base o preceito básico do interesse no bem assegurado por parte de quem faz o seguro. 
Muito interessante também o comentário da Chanceler alemã conservadora Angela Merkel ao afirmar: "Seria uma desgraça se for verdade que os bancos que já nos puxaram para a beira do abismo tomaram também parte na falsificação das estatísticas gregas". Certamente o sistema financeiro mundial não será mais o mesmo do que foi alguns anos atrás.

CLÓVIS ROSSI

Licença para queimar a casa (a sua)

Crise na Grécia é também nova aventura dos corsários da banca; só se tornou aguda com ataque especulativo


VOCÊ JÁ deve ter lido tudo o que a ortodoxia -hegemônica no mundo- tem a dizer sobre a crise na Grécia, que ameaça até o euro, uma das duas únicas moedas de reserva do planeta, atrás do dólar.
Culpa do governo, que gasta demais e é irresponsável ao ponto de falsificar as estatísticas. Foi o governo anterior, conservador, não o atual, social-democrata, mas não adianta: paga o Estado grego, seja quem for o responsável ou o ocupante de turno.
Nenhuma dessas acusações é falsa. Mas elas não contam a história inteira da crise na Grécia.
Ela só se tornou aguda a ponto de ameaçar quebrar o país por conta de um ataque especulativo praticado por instituições financeiras.
O ataque especulativo usou, entre outros, um instrumento muito citado desde que a crise global se instalou, mas é muito pouco compreendido, os tais CDSs (Credit Default Swaps). Trata-se, para simplificar, de um espécie de apólice de seguro contra "default" (calote, em linguagem de gente normal).
Para entender melhor como funciona, recorro a artigo para o "Financial Times" do dia 11 de James Rickards, hoje na Omnis, mas que foi conselheiro da Long-Term Capital Management, que quebrou anos atrás também envolvida em transações nebulosas.
Rickards lembra que, por 250 anos, o mercado de seguros funcionou com base em um preceito básico: o do interesse no bem assegurado por parte de quem fazia o seguro. Escreve Rickards: "Seu vizinho não pode comprar um seguro sobre sua casa porque ele não tem interesse "assegurável" nela. Esse tipo de seguro é considerado não saudável porque causaria no vizinho o desejo de que sua casa queimasse -e ele poderia até acender o fósforo".
O CDS é, basicamente, esse tipo de seguro não saudável, vendido e revendido em troca de gordas comissões. Pior: no caso da Grécia, o "vizinho" (o mercado financeiro) de fato acendeu o fósforo. Só não queimou o país todo porque a União Europeia funcionou como Corpo de Bombeiros, relutante, mas bombeiros ao fim e ao cabo.
Pior ainda: os piromaníacos do mercado financeiro ajudaram a acumular material inflamável na casa chamada Grécia, oferecendo instrumentos para maquiar as estatísticas lá atrás.
Comentário de Angela Merkel, a chanceler (conservadora) alemã: "Seria uma desgraça se for verdade que os bancos que já nos puxaram para a beira do abismo tomaram também parte na falsificação das estatísticas gregas".

Leia mais: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft2002201006.htm

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Ministros da zona do euro pressionarão Grécia por reformas





Por Jan Strupczewski

BRUXELAS (Reuters) - Ministros das Finanças da zona do euro vão pressionar novamente a Grécia na segunda-feira a cortar seu déficit público, na esperança de que possam evitar um pacote continental de ajuda ao país.

A previsão é de que os ministros não peçam à Grécia novas medidas fiscais até que seja concluída, em março, uma revisão da situação grega, mas é possível que a reunião de segunda-feira discuta passos adicionais que Atenas poderia dar se não obtiver progressos imediatos, disseram fontes.

Na quinta-feira, líderes europeus recomendaram à endividada Grécia que reduza seu déficit público de 12,7 por cento do PIB em 4 pontos percentuais, e que se empenhe em diminuí-lo até 2012 para o teto previsto na zona do euro de 3 por cento do PIB, o que Atenas promete fazer.

O recado será reiterado na segunda-feira pelos ministros de Finanças de vários dos 16 países que usam a moeda única europeia.

"Para 2010, a Grécia já tem compromissos em vigor. A Grécia deve simplesmente ser precisa sobre o que vai fazer", disse uma importante fonte da UE na semana passada. "Medidas adicionais são para 2011 e 2012."

Os dirigentes europeus esperam que o esforço grego, junto com a pressão do continente, baste para tranquilizar os mercados com relação ao peso da dívida e do déficit do país. Mas os líderes da UE se dizem dispostos a tomar medidas "determinadas e coordenadas" para salvaguardar a estabilidade financeira da zona do euro se for necessário.

A ideia é passar ao mercado de títulos e câmbio - onde aumentou a pressão sobre os papéis gregos e o euro se desvalorizou - de que Atenas não terá como declarar moratória e que a união monetária europeia não está ameaçada.

Mas não ficou claro quais medidas específicas a Europa poderia adotar para ajudar a Grécia, o que levou os mercados a verem com ainda mais desconfiança o país e a moeda única.

Em nota depois da cúpula da UE na semana passada, o presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, lembrou que Atenas se comprometeu a fazer o que for necessário, "inclusive adotar medidas adicionais" para controlar o déficit.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

UE concorda em ajudar Grécia, diz Fonte

Da Reuters

VIENA, 11 de fevereiro (Reuters) - Os ministros das finanças da zona do euro concordaram que os países da região tomarão uma "ação coordenada e determinada" para ajudar a Grécia, contando com a experiência do Fundo Monetário Internacional (FMI) em resolver crises, mas não com seu dinheiro, disse uma fonte do governo da região nesta quinta-feira.


O pacote de ajuda será condicional a um compromisso da Grécia de adotar mais medidas fiscais para resolver seus problemas, disse a fonte, que pediu anonimato já que os ministros concordaram em manter confidencial o resultado de uma teleconferência realizada na quarta-feira.

"A Comissão Europeia vai designar e coordenar um pacote, contando com a expertise do BCE (Banco Central Europeu) e do FMI", afirmou, acrescentando que os ministros concordaram de forma unânime em não pedir ajuda financeira do FMI.

"Os membros da zona do euro tomarão uma ação determinada e coordenada", acrescentou a fonte, citando o acordo dos ministros feito na teleconferência, que determinou as bases para a cúpula da UE desta quinta-feira.

O chanceler da Áustria, Werner Faymann, disse nesta manhã à rádio local ORF prever que o pacote para a Grécia seja uma combinação de envolvimento do FMI e dos países da UE.

"Não estamos falando de doação ou subsídios, estamos falando de empréstimos com juros que podemos fornecer a um país para evitar uma irritação nos mercados financeiros e crise com as quais ninguém pode mais lidar", afirmou.

"Ainda não sabemos como será organizado, mas eu espero uma cooperação entre os países (europeus) e o FMI."

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Crise na Europa derruba Mercados

Por Leandro Modé, no Estadão:


A fragilidade fiscal de alguns países europeus, que tem levantado dúvidas sobre a capacidade de honrarem suas dívidas, e as incertezas a respeito da recuperação da economia dos Estados Unidos provocaram mais uma forte turbulência nos mercados globais ontem.

No Brasil, o Índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Ibovespa) perdeu 4,73%, maior queda desde outubro, e o dólar escalou 2,17%, fechando a R$ 1,883. No resto do mundo, o medo de os investidores aplicarem em ativos considerados arriscados, como ações e commodities, também fez estragos.

Em Nova York, o Índice Dow Jones desvalorizou 2,61%. Na Europa, o Índice Ibex-35, da Bolsa de Madri, desabou 5,94%, e o PSI-20, da Bolsa de Lisboa, 4,98%. O barril de petróleo para março caiu 5%, para US$ 73,14. “Houve movimento generalizado de fuga do risco para a qualidade (troca de ativos de riscos por outros mais conservadores)”, disse Brad Samples, analista da Summit Energy.

Aos olhos do investidor, o melhor refúgio ainda é o dólar, apesar das dificuldades dos EUA. Por isso, a moeda ganhou terreno frente às outras. O euro, por exemplo, perdia pouco mais de 1% no início da noite de ontem, cotado a US$ 1,3737.

A mais recente onda da crise global começou a ganhar corpo na quarta-feira, quando o governo de Portugal suspendeu um leilão de títulos públicos porque os investidores pediram juros altos para comprar os papéis. É um movimento semelhante ao que ocorria há até poucos anos no Brasil, quando o mercado temia que o País desse um calote.

Portugal é uma das nações europeias com situação fiscal considerada frágil, ao lado de Irlanda, Itália, Grécia e Espanha. O grupo tem sido chamado de PIIGS, em referência à palavra pig (porco, em inglês). Ontem, a onda atingiu com mais força o mercado espanhol.

O nervosismo levou o primeiro-ministro espanhol, José Luiz Rodríguez Zapatero, a tentar acalmar os investidores. Durante um almoço a portas fechadas em Nova York, ele afirmou que, “na Espanha, a dívida é razoável e a boa classificação do país como solvente será mantida”.

O país que detonou os temores que crescem a cada dia foi a Grécia, onde a dívida pública já alcança mais de 110% do Produto Interno Bruto (PIB) - para se ter uma ideia, usando o mesmo parâmetro, a relação no Brasil está próxima de 65%

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