O texto é bastante lúcido e foi colocado como comentário a um post do blog do Nassif.
Por Alexandre Tambelli
do blog do Nassif
Nassif!
Nada é mais seguro do que se pautar pelos fatos concretos e pela verdade! O velho ditado e sempre atual diz: "contra fatos não há argumentos". O PT tem uma média histórica de 30% do eleitorado, fiel e de carteirinha, certo?(se fosse o contrário o PSOL, o PSTU, principalmente estes dois partidos, teriam crescido e não foi assim, como opções da esquerda e eles nem pontuam nas pesquisas.) O eleitor do PT continuou votando no PT, na sua grande maioria, e hoje, creio eu, ampliou-se o número de simpatizantes do partido, certamente. Ninguém supõe que o eleitorado petista, por causa do suposto mensalão de 2005 mudaria seu voto para o DEM, PSDB ou PMDB e nem para o PCO, PCB, PSOL ou PSTU, certo?
Será possível, que um grupo de pessoas que durante mais de 20 anos defendeu ideias de esquerda iria chegar ao poder e mudar de posição? Só mesmo a ingenuidade da esquerda mais radical para pensar assim. Fez o Governo LULA o que se pôde dentro da realidade do mundo atual. Um passo em falso quase derrubaram o LULA, imagina radicalizar para a esquerda, como pretende o PSOL de Plínio, sem sequer combinar com a população? LULA já estaria deposto do poder faz tempo. A extrema-esquerda quer fazer revolução, prega o Socialismo, porém, não se preocupa em dar um passo decisivo nesta direção, que seria, estar diretamente ligada com a Educação do povo, ai se o povo soubesse o que é Socialismo, teriamos a chance de implemetá-lo. Porém, sem conversar e ouvir o povo, tanto a extrema-esquerda, toda a direita, bem como a mídia ficaram para trás e sem credibilidade. O PlLÍNIO foi nos debates e não pontuou nas pesquisas, como isto foi possível? O SERRA com toda ajuda da mídia não sai dos 30% dos votos, por quê? A grande mídia achincalhando com o PT, a DILMA, o LULA e as esquerdas e seus partidários não conseguiu diminuir a popularidade do Governo LULA, que só tem 4% de notas vermelhas, como isto é possível?
O Governo LULA com quase 80% de aprovação e a grande mídia querendo dizer que estava sob controle a vitória do SERRA? Ele só tinha uma vantagem sobre a DILMA, era bem mais conhecido. A partir do momento que colou a imagem de DILMA no eleitorado como sendo a candidata do PT e de LULA de fato, inverteu-se o quadro, tudo dentro daquilo que a realidade mostra e que os honestos intelectualmente e lúcidos, sem partidarismo ou vontade própria de que seja outra a realidade (verdade) sabem.
Primeiro ela ganhou os votos da esquerda moderada, do PT, PCdoB, PDT e PSB, o eleitorado LULISTA e chegou no eleitorado apartidário mas que quer continuar no caminho que o Brasil traça para seu futuro, com distribuição de renda, empregos em alta, obras de infraestrutura e consumo.
Principais análises e notícias sobre politica, economia, relações internacionais, etc., etc.
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domingo, 22 de agosto de 2010
O Atual Cenário Eleitoral
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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
A Mìdia Engajada ou Velha Mídia ou os nossos cães de guarda.
Após o recente factóide fabricado pela Folha de São Paulo como contraponto ao escândalo do DEM, do José Roberto Arruda no DF, com a publicação de um possível benefício dado pelo governo federal a um cliente do José Dirceu numa empresa cognominada Eletronet, envolvendo aí o Plano Nacional de Banda Larga, a recriação da Telebrás, títulos do tesouro, massa falida, nota da AGU, tudo bem misturado pra não se entender nada, ou apenas para tentar fixar aquilo que era (para os cães de guarda) o essencial: Dirceu, governo federal, Dilma Rousseff e roubalheira. Provas? Nenhuma! O que fica então de todo este comportamento? Interessante o artigo do Professor de Filosofia e Ética do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, Orlando Tambosi, publicado no Observatório da Imprensa, que, ainda que comparando a imprensa francesa com a brasileira, citando um livro intitulado "Os Novos Cães de Guarda", talvez joque um pouco de luz sobre o caminho que resolveu enveredar a nossa querida e velha mídia.
Nossos cães de guarda não
latem como os da França?
Orlando Tambosi
Pensamento único, na expressão criada pelos franceses, significa a doutrina que traduz, em termos ideológicos e com pretensão universal, "os interesses do capital internacional", isto é, dos tristemente famosos "mercados financeiros", grandes acumuladores de fundos (leia-se: especuladores) - gordos filhotes, todos eles, do Banco Mundial, do FMI e do GATT, instituições internacionais que usam e abusam da reputação de imparcialidade que lhes é atribuída.
Não se reconhecendo como doutrina, o pensamento único pretende-se tão científico e verdadeiro quanto as leis físicas. Os que o criticam ou a ele resistem, são desde logo (des)qualificados como "retardatários", "jurássicos" e "neobobos". Afinal, pontificam os iluminados, "não é o pensamento que é único, mas a realidade é que se tornou única".
E tome-se "modernidade" (comércio livre, moeda forte, desregulamentação, privatizações, "liberalização dos mercados financeiros") contra "arcaísmos" como o Estado do bem-estar social (Estado, proclama-se, só tem a ver com forças armadas, polícia, prisões e receita federal), contra os sindicatos ("corporativismo"), o setor público ("monopólio") e o "povo" (massa de manobra para o "populismo").
Tudo isso favorecido pela confluência ideológica da direita e de boa parte da esquerda em torno de algumas prioridades econômicas, o que facilitou a adesão de muitos jornalistas ao "economicamente correto". A ponto de um deles, americano, dizer que "a economia global é um mecanismo muito dispendioso e delicado que exige a participação dos investidores no lugar dos cidadãos".
É a estes jornalistas, fiéis serviçais da economia de mercado - com seu culto à empresa, seu amor à mundialização, suas louvações à Bolsa de Valores e suas diatribes contra os direitos sociais -, que o também jornalista Serge Halimi (do Le Monde Diplomatique) critica no livro Os novos cães de guarda, recentemente lançado pela Edit. Vozes na coleção Zero à esquerda. O autor esteve no Brasil em outubro (ver entrevista na ed. 55 do Observatório) e participou de eventos no Rio de Janeiro e em São Paulo, organizados pelo Jornal do Brasil e Folha de São Paulo, respectivamente.
Ignorado pelos grandes jornais e revistas franceses, que não lhe dedicaram sequer uma resenha, o opúsculo de Halimi nem por isso deixou de vender 200 mil exemplares já nas primeiras semanas. A edição brasileira, como era de se esperar, também enfrentou problemas (além da tradução com alguns erros graves). Jornalistas procurados para prefaciar o livro declinaram do convite, segundo o filósofo Paulo Arantes - coordenador da coleção -, alegando desconhecer os casos citados, que seriam "muito ligados à realidade francesa".
O pensamento único, claro, nada tem a ver com a "realidade brasileira". Por aqui, não se cogita em desmonte do Estado nem se cultua o "mercado", não se ataca o funcionário público nem a previdência social, não se fala em privatizações, desregulamentação, desconstitucionalização nem em "flexibilização" dos direitos sociais (aliás, "privilégios"). E nossos bravos "âncoras" e comentaristas econômicos, diferentemente dos franceses, não praticam um "jornalismo de reverência" ao governo e às elites nem entoam o hino das Bolsas de Valores e da "única política possível".
A confluência ideológica denunciada por Halimi arrasta a vida política francesa para a direita, praticamente impedindo a expressão de projetos alternativos. "O pensamento único", diz ele, "sonha com um debate democrático destituído de sentido, uma vez que deixaria de ser juiz entre os dois termos de uma alternativa".
Ceder a esse pensamento - completa Halimi - "é aceitar que, por toda parte, a rentabilidade tome o lugar da utilidade social, é encorajar o desprezo pelo político e submeter-se ao reino do dinheiro", é sucumbir à "lenga-lenga patronal" incessantemente martelada por milhares de instituições organismos e comissões. Com raras exceções, "a mídia (...) lhes tem servido de ventríloquo, de orquestra sinfônica ao diapasão dos mercados financeiros que marcam o compasso de nossas existências num mundo sem sono e sem fronteiras".
Nesse quadro, a imprensa deixa de ser um "contrapoder" e muitos jornalistas, supondo-se "atrasados", passam a acompanhar as opções da classe dirigente. Considere-se o exemplo do Le Monde, que, criticado pela repentina orientação neoliberal de suas análises econômicas e financeiras, assim justificou-se: "Tínhamos necessidade de nos adaptar à economia-mundo - e fizemos isso com atraso. Ainda aí, o simples fato de nos profissionalizar, de nos atualizar, provoca uma superinterpretação ideológica. A ideologia encontra-se sobretudo no olhar nostálgico dos que criticam".
A conclusão não poderia ser mais reveladora: ideológico, hoje, é quem critica, porque os arrogantes criticados - na França como no Brasil - pretensamente fazem ciência, isto é, consideram-se acima das ideologias.
Diante disso, não espanta que um jornalista da TV francesa tenha solicitado a uma autoridade que explicasse por que, na França, a economia ainda é "conturbada pelo debate público e pelos militantes de um partido ou de outro". Ora, se a realidade é que é única - como desconversam os arautos do pensamento único -, para esse jornalista "economicamente correto" era incompreensível que a economia ainda fosse "utilizada pelos partidários desta ou daquela tese política".
Halimi não poupa os nomes dos "barões da profissão", uma elite onipresente em todos os meios, da TV aos jornais e revistas. Jornalistas ou "intelectuais", eles "não passam de um punhado de trinta, inevitáveis e volúveis". São coniventes entre si, "encontram-se, freqüentam-se, apreciam-se, comentam as obras uns dos outros, estão de acordo sobre quase tudo".
Entre os intelectuais citados, algumas figuras conhecidas no Brasil, como Alain Minc (o homem dos "relatórios" Minc), o "novo filósofo" Bernard-Henri Lévy (que, além de falar sobre tudo, é agora também cineasta), o nostálgico filósofo Alain Finkielkraut (que há poucos anos lamentava "a derrota do pensamento") e o sociólogo Alain Touraine, colaborador assíduo de jornais brasileiros e comensal do Palácio da Alvorada, cujo ocupante é seu amigo).
E, por falar em Brasil, vale lembrar o que disse o cronista Luiz Fernando Verissimo, a propósito do "rolo compressor" que tem desabado sobre as redações nos últimos anos. São freqüentes no meio jornalístico - escreveu ele recentemente - histórias "sobre pressões de anunciantes e de Brasília para maneirar as críticas e controlar a resistência ao pensamento único. Isso quando a imprensa precisa de pressões para exercer a sua vocação oficialista e sua adesão entusiasmada ao pensamento único. Nunca se viveu um clima parecido".
Em nome desse oficialismo (inato e mal disfarçado), aliás, Alberto Dines foi censurado pela Folha de S. Paulo e João Ubaldo Ribeiro, pelo Estadão. Apesar de todas as publicações, bastante precavidas, advertirem que as opiniões dos colaboradores "não expressam necessariamente" a opinião do jornal e de seus proprietários - o que constitui um escândalo e um agravante para essa censura "privatizada".
As reflexões de Halimi, como se vê, são sugestivas também para nós, jornalistas ou não. Ainda que as diferenças entre a França e o Brasil sejam enormes, pelo menos algo em comum existe: os cães de guarda daqui não ladram como os de lá?
Nossos cães de guarda não
latem como os da França?
Orlando Tambosi
Pensamento único, na expressão criada pelos franceses, significa a doutrina que traduz, em termos ideológicos e com pretensão universal, "os interesses do capital internacional", isto é, dos tristemente famosos "mercados financeiros", grandes acumuladores de fundos (leia-se: especuladores) - gordos filhotes, todos eles, do Banco Mundial, do FMI e do GATT, instituições internacionais que usam e abusam da reputação de imparcialidade que lhes é atribuída.
Não se reconhecendo como doutrina, o pensamento único pretende-se tão científico e verdadeiro quanto as leis físicas. Os que o criticam ou a ele resistem, são desde logo (des)qualificados como "retardatários", "jurássicos" e "neobobos". Afinal, pontificam os iluminados, "não é o pensamento que é único, mas a realidade é que se tornou única".
E tome-se "modernidade" (comércio livre, moeda forte, desregulamentação, privatizações, "liberalização dos mercados financeiros") contra "arcaísmos" como o Estado do bem-estar social (Estado, proclama-se, só tem a ver com forças armadas, polícia, prisões e receita federal), contra os sindicatos ("corporativismo"), o setor público ("monopólio") e o "povo" (massa de manobra para o "populismo").
Tudo isso favorecido pela confluência ideológica da direita e de boa parte da esquerda em torno de algumas prioridades econômicas, o que facilitou a adesão de muitos jornalistas ao "economicamente correto". A ponto de um deles, americano, dizer que "a economia global é um mecanismo muito dispendioso e delicado que exige a participação dos investidores no lugar dos cidadãos".
É a estes jornalistas, fiéis serviçais da economia de mercado - com seu culto à empresa, seu amor à mundialização, suas louvações à Bolsa de Valores e suas diatribes contra os direitos sociais -, que o também jornalista Serge Halimi (do Le Monde Diplomatique) critica no livro Os novos cães de guarda, recentemente lançado pela Edit. Vozes na coleção Zero à esquerda. O autor esteve no Brasil em outubro (ver entrevista na ed. 55 do Observatório) e participou de eventos no Rio de Janeiro e em São Paulo, organizados pelo Jornal do Brasil e Folha de São Paulo, respectivamente.
Ignorado pelos grandes jornais e revistas franceses, que não lhe dedicaram sequer uma resenha, o opúsculo de Halimi nem por isso deixou de vender 200 mil exemplares já nas primeiras semanas. A edição brasileira, como era de se esperar, também enfrentou problemas (além da tradução com alguns erros graves). Jornalistas procurados para prefaciar o livro declinaram do convite, segundo o filósofo Paulo Arantes - coordenador da coleção -, alegando desconhecer os casos citados, que seriam "muito ligados à realidade francesa".
O pensamento único, claro, nada tem a ver com a "realidade brasileira". Por aqui, não se cogita em desmonte do Estado nem se cultua o "mercado", não se ataca o funcionário público nem a previdência social, não se fala em privatizações, desregulamentação, desconstitucionalização nem em "flexibilização" dos direitos sociais (aliás, "privilégios"). E nossos bravos "âncoras" e comentaristas econômicos, diferentemente dos franceses, não praticam um "jornalismo de reverência" ao governo e às elites nem entoam o hino das Bolsas de Valores e da "única política possível".
A confluência ideológica denunciada por Halimi arrasta a vida política francesa para a direita, praticamente impedindo a expressão de projetos alternativos. "O pensamento único", diz ele, "sonha com um debate democrático destituído de sentido, uma vez que deixaria de ser juiz entre os dois termos de uma alternativa".
Ceder a esse pensamento - completa Halimi - "é aceitar que, por toda parte, a rentabilidade tome o lugar da utilidade social, é encorajar o desprezo pelo político e submeter-se ao reino do dinheiro", é sucumbir à "lenga-lenga patronal" incessantemente martelada por milhares de instituições organismos e comissões. Com raras exceções, "a mídia (...) lhes tem servido de ventríloquo, de orquestra sinfônica ao diapasão dos mercados financeiros que marcam o compasso de nossas existências num mundo sem sono e sem fronteiras".
Nesse quadro, a imprensa deixa de ser um "contrapoder" e muitos jornalistas, supondo-se "atrasados", passam a acompanhar as opções da classe dirigente. Considere-se o exemplo do Le Monde, que, criticado pela repentina orientação neoliberal de suas análises econômicas e financeiras, assim justificou-se: "Tínhamos necessidade de nos adaptar à economia-mundo - e fizemos isso com atraso. Ainda aí, o simples fato de nos profissionalizar, de nos atualizar, provoca uma superinterpretação ideológica. A ideologia encontra-se sobretudo no olhar nostálgico dos que criticam".
A conclusão não poderia ser mais reveladora: ideológico, hoje, é quem critica, porque os arrogantes criticados - na França como no Brasil - pretensamente fazem ciência, isto é, consideram-se acima das ideologias.
Diante disso, não espanta que um jornalista da TV francesa tenha solicitado a uma autoridade que explicasse por que, na França, a economia ainda é "conturbada pelo debate público e pelos militantes de um partido ou de outro". Ora, se a realidade é que é única - como desconversam os arautos do pensamento único -, para esse jornalista "economicamente correto" era incompreensível que a economia ainda fosse "utilizada pelos partidários desta ou daquela tese política".
Halimi não poupa os nomes dos "barões da profissão", uma elite onipresente em todos os meios, da TV aos jornais e revistas. Jornalistas ou "intelectuais", eles "não passam de um punhado de trinta, inevitáveis e volúveis". São coniventes entre si, "encontram-se, freqüentam-se, apreciam-se, comentam as obras uns dos outros, estão de acordo sobre quase tudo".
Entre os intelectuais citados, algumas figuras conhecidas no Brasil, como Alain Minc (o homem dos "relatórios" Minc), o "novo filósofo" Bernard-Henri Lévy (que, além de falar sobre tudo, é agora também cineasta), o nostálgico filósofo Alain Finkielkraut (que há poucos anos lamentava "a derrota do pensamento") e o sociólogo Alain Touraine, colaborador assíduo de jornais brasileiros e comensal do Palácio da Alvorada, cujo ocupante é seu amigo).
E, por falar em Brasil, vale lembrar o que disse o cronista Luiz Fernando Verissimo, a propósito do "rolo compressor" que tem desabado sobre as redações nos últimos anos. São freqüentes no meio jornalístico - escreveu ele recentemente - histórias "sobre pressões de anunciantes e de Brasília para maneirar as críticas e controlar a resistência ao pensamento único. Isso quando a imprensa precisa de pressões para exercer a sua vocação oficialista e sua adesão entusiasmada ao pensamento único. Nunca se viveu um clima parecido".
Em nome desse oficialismo (inato e mal disfarçado), aliás, Alberto Dines foi censurado pela Folha de S. Paulo e João Ubaldo Ribeiro, pelo Estadão. Apesar de todas as publicações, bastante precavidas, advertirem que as opiniões dos colaboradores "não expressam necessariamente" a opinião do jornal e de seus proprietários - o que constitui um escândalo e um agravante para essa censura "privatizada".
As reflexões de Halimi, como se vê, são sugestivas também para nós, jornalistas ou não. Ainda que as diferenças entre a França e o Brasil sejam enormes, pelo menos algo em comum existe: os cães de guarda daqui não ladram como os de lá?
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Socialismo Volta ao Programa, mas sem Rupturas
Por Maria Inês Nassif
do Blog do Nassif.
do Blog do Nassif.
O PT já esteve muito mais à esquerda do que está hoje; também já esteve muito mais à direita. Desde 2002, quando venceu um processo eleitoral imbricado com uma grave crise financeira – alimentada por um movimento especulativo de motivação também eleitoral -, a posição ideológica do partido tem sido mais movida pela conjuntura do que pelos grandes embates internos que marcaram a vida da legenda até o XII Encontro Nacional, de dezembro de 2001, responsável pelo último documento que foi produto de uma disputa acirrada entre suas tendências.
Segundo o secretário de Relações Internacionais do PT, Valter Pomar, da Articulação de Esquerda, a radicalização da oposição, a partir de 2005, levou a um paradoxo: enquanto a esquerda perdia espaço internamente, todo o partido se “esquerdizava”. “A burguesia, a direita, a oposição radicalizaram e o efeito foi ‘esquerdizar’ o partido, ou seja, trazê-lo da Carta aos Brasileiros para o programa do XII Encontro”, disse.
O PT, no seu 4º Congresso, que começa hoje, deve manter a tendência do 3º Congresso, de assumir-se como partido socialista democrático, sem, contudo, voltar ao período pré-XII Congresso, quando os grupos mais radicais chegavam a pregar a ruptura democrática. As teses apresentadas pelas tendências que disputaram o Processo de Eleição Direta (PED) do ano passado são um claro sinal disso: apenas a tendência mais radical, a Esquerda Socialista, fala em mudança no “modo de produção” e na “superação prática das relações capitalistas”.
“As teses do PED relatam a consolidação da ideia da revolução democrática no Brasil, do socialismo democrático. O PT, antes de ser comprometido com a ruptura, tem compromisso com o Estado democrático de direito”, afirma o ex-ministro da Justiça Tarso Genro. “Foi um caminho processual: não quebramos a ordem nem fizemos a revolução”, constata o deputado José Genoino, ex-presidente do partido.
O XII Encontro Nacional do PT, realizado em dezembro de 2001, aprovou “Diretrizes do Programa de Governo do PT para o Brasil”, documento coordenado pelo então prefeito de Santo André, Celso Daniel, num trabalho de costura das posições das facções mais à esquerda do partido e as do já consolidado Campo Majoritário , que havia feito uma forte inflexão ao centro como concessão para eleger Luiz Inácio Lula da Silva presidente. O documento professava o socialismo, mas admitia uma aliança com a “burguesia” – definia uma política de alianças mais ampla, uma exigência de Luiz Inácio Lula da Silva para concorrer em 2002, depois de ter sido derrotado em 1989, em 1994 e 1998 como candidato de uma coligação que sequer conseguia reunir todos os partidos que se diziam de esquerda. A “Carta ao Povo Brasileiro”, divulgada em junho de 2002, quando o dólar fazia uma escalada perigosa frente ao real, deu a guinada definitiva ao centro, prometendo continuidade na política econômica do governo tucano de Fernando Henrique Cardoso. O socialismo encolheu.
Em 2005, atingido em cheio pelo chamado Mensalão – série de denúncias de comprometimento da direção do partido com captação ilegal de dinheiro para financiar campanhas eleitorais -, o PT sofreu dois movimentos que teoricamente neutralizariam um ao outro. De um lado, perdeu a parcela mais radical da esquerda, que saiu com muito barulho e fundou o P-SOL. Isso teoricamente definiria o esvaziamento da esquerda partidária. De outro lado, foram excluídos do governo os integrantes do Campo Majoritário que detinham grande poder sobre as definições de política e política econômica, o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, e o chefe da Casa Civil, José Dirceu – e o controle exercido por ambos não era favorável às tendências de esquerda. Palocci era o fiador da política econômica ortodoxa, de continuidade à do governo anterior. Dirceu, segundo integrantes da esquerda, exercia controle sobre as minorias internas, dificultando o acesso delas ao governo petista.
O racha do P-SOL, na época um trauma partidário, conteve o avanço das tendências de esquerda quando a grande crise política do Mensalão colocava em xeque, internamente, o pragmatismo do Campo Majoritário (hoje chamado Construindo um Novo Brasil – PNB, que elegeu José Eduardo Dutra no Processo de Eleição Direta, o PED, de 2009). No PED de 2005, o primeiro depois do escândalo, o grupo que daria origem ao P-SOL concorreu à presidência do partido com Plínio de Arruda Sampaio. Derrotado no primeiro turno, Sampaio anunciou a saída do partido. Somados os votos de toda a oposição ao Campo Majoritário no primeiro turno do PED de 2005, ela tinha mais do que Ricardo Berzoini (SP), do Campo Majoritário; sem o grupo de Sampaio, a esquerda perdeu por 5 mil votos.
Para o secretário das Relações Internacionais, a “ironia da história” é que, a partir da saída desse grupo, o PT como um todo foi para a esquerda. Para o ex-presidente do PT, o deputado José Genoino, a dissidência “fez mais barulho do que deu prejuízo efetivo”. “A saída do grupo não foi representativa”, concorda o deputado Paulo Teixeira (PT-SP).
“A esquerda do PT começou a transitar no governo depois da saída do Palocci. Ele na economia, e Dirceu na política, limitaram muito o debate ideológico interno no primeiro mandato”, afirma Teixeira. Mas, para o ex-prefeito Raul Pont, da Democracia Socialista (DS), tendência também à esquerda do Campo Majoritário ), de alguma forma o grupo hegemônico, de centro, foi obrigado a ceder e “re-ideologizar” o PT, pois o pragmatismo do setor hegemônico não conseguiu, por si só, consolidar uma unidade partidária. Assim, foi obrigado a assumir “compromissos mais estratégicos”.
O fato é que, sem Palocci e Dirceu no governo, e mesmo sem o grupo que originou o P-SOL no partido, em 2006 os documentos do PT deram uma nova guinada à esquerda. Nas resoluções do 3º Congresso, em 2007, o socialismo democrático voltou a ser professado como opção ideológica sem que isso fosse considerado constrangimento político à legenda que ocupa o poder desde 2003, pelo voto direito, e já havia abandonado há algum tempo ideias de ruptura revolucionária. No documento final, o partido retoma a ideia de socialismo de forma clara, embora definindo o tipo de mudança que prega para o país: “A grande tarefa que o PT, o governo Lula, os movimentos sociais e as demais forças de esquerda têm pela frente é avançar na construção permanente de um governo democrático e popular com base em um projeto de desenvolvimento de longo prazo para o país, e que já está em andamento”.
“Além da reforma política e de mudanças na política econômica – com predominância do desenvolvimento sobre a estabilidade – temos de lutar por uma ampla reforma do Estado brasileiro”, diz o documento. E define a diferença entre o seu projeto e o do PSDB. “A direita tucano-liberal quer que o Estado apenas financie, não planeje. Nós entendemos que deve financiar e planejar.”
Segundo Genro, o debate sobre o socialismo nunca foi abandonado, mas foi obstruído. “A discussão permaneceu no partido durante todo o tempo, mas o PT ficou na defensiva em função da crise do socialismo real”, disse. “O socialismo democrático é uma visão que se consolida no PT desde 2002 e tem como ideia central a democracia como reguladora das relações entre o Estado e a sociedade. Hoje os partidos do mundo inteiro têm como ponto de partida de reflexão a questão da democracia.”
O que define um programa socialista, no entanto, não é a defesa de uma maior intervenção na economia – esse assunto transcende os partidos socialistas ou os governos considerados de esquerda depois da crise mundial do ano passado. “Exemplos de projetos inspirados na ideia do socialismos democrático são o alargamento do espaço da universidade pública, o repasse de recursos do Estado para diminuir a desigualdade de renda e a não-submissão do Brasil ao jugo dos países que definem o domínio do capital financeiro”, diz Genro. O “desenvolvimentismo” não necessariamente é considerado uma bandeira de esquerda, e o debate sobre o papel do Estado está situado na órbita do desenvolvimentismo. “Achar que o PT propõe a re-estatização é relativo. A capitalização da Petrobras foi muito importante para o Brasil durante a crise. As grandes empresas sabem que a gestão do PT ajuda o processo de internacionalização das empresas nacionais. O Programa Minha Casa, Minha Vida, teria sido inviável sem a capitalização dos bancos”, afirma a ex-prefeita Marta Suplicy.
Para a esquerda petista, o debate sobre o tamanho do Estado ou o seu poder de intervenção na economia não caracterizam o partido como mais ou menos socialista. Pomar vê, na história interna do partido, o período de 2003 a 2010 como o do debate entre “desenvolvimentistas versus os social-liberais”; hoje, o debate estaria se deslocando para uma polarização entre “desenvolvimentistas conservadores”, que não tocam nas reformas estruturais, e “desenvolvimentistas democrático-populares”, “que querem combinar desenvolvimento com democracia, igualdade e soberania”.
Para Raul Pont, da Democracia Socialista, embora o partido tenha colocado a palavra “socialismo” em seus documentos programáticos novamente, isso não se materializou no governo petista. “Para nós, ser socialista significa democratizar as decisões, aumentar a participação popular no governo”, opina. Para Pont, a proposta socialista não elimina a revisão de privatizações feitas no passado e cujas empresas são prestadoras de serviço ineficientes.
O fato de existirem internamente ainda essas posições, no entanto, não significa que todo o debate sobre o socialismo está liberado. “É preciso evitar fios desencapados”, afirma Genoino. “O idealismo é muito bonito, mas temos que ter cuidado para que isso não seja usado contra a ministra Dilma (Rousseff, candidata do partido à Presidência)”, completa a ex-prefeita Marta Suplicy.
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